LEANDRO Garcia Azevedo Pires, 27 anos, natural de Arga de S. João, joga no Desportivo das Aves e vai tentar amanhã que o seu contributo permita que o Desportivo das Aves se mantenha no escalão maior do futebol nacional.
É uma tarefa difícil, frente ao líder da Primeira Liga (F.C.Porto), mas "pode ser que tenha um dia menos bom", afirmou, esperançado em obter um bom resultado.
Na véspera de um jogo que pode valer uma época, o C@2000 conversou com este caminhense, ainda algo tocado pela derrota em casa perante o Estrela da Amadora no fim de semana anterior, já que tinham apostado tudo para pontuar e verem-se livres de aflições na última jornada, sem depender de outros.
PERCURSO
Assim não sucedeu e Leandro já se mentalizava para mais uma cartada decisiva da sua carreira iniciada nos juvenis do Atlético Clube de Caminha há onze anos, pela mão de Manuel Sobreiros, o seu primeiro treinador.
Do clube da sede do seu concelho, passou para o Âncora-Praia já como júnior, onde fez uma época na distrital (como sénior e jogando ao lado de Tiago, hoje a representar o Lyon) em que viria a vencer e a garantir a presença no Campeonato Nacional no ano seguinte.
Na altura, o Âncora-Praia militava na III Divisão Nacional, na qual jogou no ano seguinte, até que foi cumprir serviço militar, período em que realizou alguns jogos no Cerveira, quando este clube estava na Distrital.
Daqui mudou-se para o Limianos (dois anos), Vianense (dois anos), sempre na III Divisão até que este clube ascendeu à II B, mas descendo na época seguinte.
Depois transferiu-se para o Vilaverdense (III Divisão), ano em que conseguiram subir à II B.
Após o falecimento inesperado de seu pai (taxista em Caminha), a vida alterou-se e passou a jogar no Monção, onde tinha o transporte facilitado.
Jogando de novo na III Divisão, teve a oportunidade de realizar treinos de captação no Desportivo das Aves. Agradou e assinou por este clube que jogava na Liga de Honra, acabando de por se tornar numa etapa decisiva da sua carreira, dado que obteve o prémio de jogar entre os grandes do futebol nacional, como sucedeu nesta época que agora chega ao fim.
"NUNCA ME PASSOU PELA CABEÇA"
"Aqui há dois anos, achava praticamente impossível chegar lá (Primeira Liga), já me contentando pela II B", referiu-nos este jovem da Serra d'Arga que não perde a oportunidade de visitar sua mãe e demais familiares e amigos, nomeadamente, após o dia de folga concedido depois dos jogos oficiais.
Já jogou em três lugares no Desportivo das Aves. Sempre no lado direito. Quer com lateral, médio interior ou extremo, embora "o meu lugar preferido seja de lateral direito", confessou.
Alia velocidade, à força e à técnica, como a suas características principais, assim se auto-define.
Tendo passado por todas as divisões do futebol português, está avalizado para se pronunciar sobre elas, designadamente, a diferença que sentiu entre jogar na Liga de Honra e na Primeira Liga.
"Nota-se uma grande diferença a nível de disciplina, táctica e de organização do clube, o mesmo já não sucedendo com os jogadores", referiu.
Neste campo, admitiu apenas que "temos que nos adaptar àquele ritmo e treino e de vida", já que realizam sete treinos semanais.
AVES BEM ORGANIZADO
Atribui o êxito do Aves a uma "grande organização directiva, apenas faltando mais experiência aos seus jogadores para competirem com os de outros clubes, embora eu ache que estamos a ganhá-la e ainda vai ser possível manter-nos na Primeira Liga".
Precisou que quando ingressou no Aves, considerava quase impossível atingir a Primeira Liga, mas, a partir de determinada altura, "vimos que isso estava ao nosso alcance e conseguimos".
O facto de passar a jogar lado a lado com alguns dos melhores jogadores portugueses, antes de se tornar num factor de inibição, foi antes uma "grande motivação para tentar batê-los".
"INDESCRITÍVEL"
"É indescritível o que sentimos naqueles estádios, para quem nunca pensou chegar lá", reconheceu Leandro, nunca se sentindo inferiorizado pelo facto de jogar com os grandes craques, pois, "quando chegamos lá, é tudo igual, somos todos iguais", reconheceu.
A sua vida diária sofreu uma alteração em termos de mais rigor, devendo "ser responsável por aquilo que faço", admitiu.
"Levantamo-nos, tomamos o pequeno-almoço uma hora antes do treino, vou para o treino e passo lá a manhã até à uma, uma e meia da tarde, após o que almoço e descanso um pouco. Depois, lanchar e resolver alguns problemas que tenha, jantar e descansar", assim se desenrola o dia-a-dia deste atleta serrano, apenas havendo estágios nas vésperas dos jogos.
"Tenho ordens para não me deitar depois das onze horas da noite e quanto à alimentação, a responsabilidade também é minha", admitiu, porque para que um jogador se mantenha no futebol profissional, é preciso gostar muito daquilo que fazemos, porque temos de abdicar de muitas coisas, mas, quem faz por gosto…"
"HÁ ÁRBITROS MUITO BONS"
O sempre polémico tema das arbitragens, mereceu um comentário favorável da parte do nosso interlocutor, não se coibindo de afirmar que "estão melhores do que aquilo que pode parecer".
Afirma sem hesitação que "há árbitros muito bons" e se há alguns que não têm tanta qualidade, os seus erros surgem "sem querer, porque não analisam bem o lance ou é difícil de avaliar".
Admite que, por vezes, "estamos a ver um jogo e não conseguimos decifrar certas faltas, sendo por isso injustiçados os árbitros" quando erram.
"FÉRIAS DE UM MÊS NO NATAL É MUITO MAU"
Comentando o período de paralisação do campeonato no período do Natal verificado este ano, considerou-o "muito mau", porque um jogador "vem habituado a um certo ritmo, chega ali e pára e a recuperação, depois, é muito custosa".
A uma hora de viagem de casa, sempre que as folgas o permitem, regressa ao convívio dos seus
EM TERMOS INDIVIDUAIS ESTÁ TUDO AO MESMO NÍVEL
Analisando a forma como o campeonato decorreu e avaliando a prestação da cada equipa, embora ainda sem saber quem vai ser o campeão, foi de opinião de que o Porto merece o título porque "foi o mais regular", embora em termos de bons jogadores, os três grandes possuem do melhor que há, destacando a "muita qualidade" da equipa jovem do Sporting.
Sublinha apenas que o Porto leva a melhor, quiçá, em organização.
"FAZER O MELHOR POSSÍVEL"
A seis dias do jogo com o Porto, era consciente de que a situação estava "complicada" e teriam que esperar por "deslizes dos outros e nós temos que fazer pela nossa vida", adiantou, contando com o valor da sua equipa e, eventualmente, "com um dia mau do Porto".
ORGULHO SERRANO
Realçamos o facto de ele ser o único jogador do concelho a jogar na Liga Principal, o que o deixa cheio de orgulho -"ainda por cima sendo eu da Serra d'Arga, o que sucedeu pela primeira vez"-, até porque não houve muitos atletas que conseguiram alcançar tal objectivo.
Atingir este patamar no futebol nacional, parece não dizer muito aos seus conterrâneos (ri-se), porque pouco falam disso, embora admitam ser um orgulho ter um jovem conterrâneo na Primeira Liga, "entre os craques do país".
CRISTIANO RONALDO NO TOP
Na sua óptica, Cristiano Ronaldo é o melhor jogador português da actualidade, embora outros possuam um nível muito igual, tal como o Quaresma, Simão Sabrosa, Ricardo Carvalho, sem esquecer o Figo…
FUTURO IMEDIATO
Sobre o seu futuro, espera manter-se na 1ª Liga, embora não saiba se permanecerá no Aves, clube que apenas faz contratos anuais, porque a Direcção também é escolhida anualmente.
Elogia os directores do Aves, porque "uma palavra deles, vale mais do que a assinatura de outros"
SUBIR PARA NOVO PATAMAR
Não pensa jogar nos três grandes, mas pelos menos em clubes como o Guimarães, Braga, Boavista ou Belenenses e, "nunca se sabe…"disse em jeito de profecia.
Sobre a situação do futebol sénior do concelho, admite que "as pessoas querem viver acima das suas possibilidades", embora actualmente, "já não se pague", recordando a inexistência de grandes empresas que o possam suportar.
ESTUDEM SEMPRE
A sua vida de futebolista tem-lhe provado "não ser fácil" tornar-se jogador profissional e, em forma de recado aos pais que apostam tudo para que os filhos o venham a ser, recorda que "é muito reduzido o número dos que conseguem chegar lá", aconselhando-os, portanto, a que "não deixem de estudar".
"Eu deixei de estudar porque não tinha vocação para o estudo mas acho que foi um grande erro, porque ainda agora poderia andar numa universidade e ir fazendo umas cadeiras, sem pressa, com o estatuto de trabalhador estudante".
TREINADOR
Quando arrumar as chuteiras, pensa enveredar pela profissão de treinador, depois de tirar um curso.
O regresso definitivo a Arga de S. João e à Serra d'Arga está praticamente posto de lado, embora nunca as vá esquecer e cá estará de férias e sempre que possível.
E na Festa de S. João d'Arga, "lá estarei eu, sempre que puder", asseverou.
Manuel Sobreiros foi o primeiro técnico de Leandro, quando este se inscreveu no Atlético Clube de Caminha, perante a insistência junto de seu pai para que o permitisse.
Descreveu para o C@2000 a forma como o cativou para a competição, analisou as suas capacidades e mostrou-se esperançado em que a sua carreira não fique por aqui:
P - Como surgiu Leandro no Caminha?
R - Naquela época, treinava eu os juvenis do Caminha e, através dos meus jogadores e colegas dele de escola, soube das suas qualidades para a prática da modalidade.
A minha amizade com seu pai, pois quase todos os dias conversávamos, permitiu-me abordá-lo sobre a possibilidade de o deixar vir treinar comigo.
Apesar de não pôr de parte essa eventualidade, mostrou inicialmente certas reticências, dizendo-me que já tinha feito uns treinos no Ancorense mas, a distância de casa e a necessidade de auxiliar nos afazeres familiares, complicava tal pretensão.
Já o Campeonato Distrital ia longe, quando se decidiu vir treinar, mostrando logo ser um diamante em bruto.
Ficou, acabando por jogar até ao fim da época.
Como na época seguinte passava à categoria de júnior e nós só fazíamos juvenis, foi para o Âncora-Praia, seguindo a sua carreira sempre em ascensão.
P - Sem a sua passagem pelo Atlético Clube de Caminha, ter-se-ia perdido o futebolista?
R - Talvez. Se não fosse para o Âncorsa-Praia naquela época e, já pela idade que tinha, dificilmente estaríamos hoje a falar do Leandro. Importante foi também o apoio incondicional do pai. O que custou foi começar.
P -Adivinhávas esta carreira? Qual o segredo?
R - Não era fácil prever que chegasse à 1ª Divisão, principalmente, por ter começado a jogar muito tarde.
Na minha modesta opinião, o segredo de tal evolução foi a sua excepcional condição física, o seu profissionalismo e, acima de tudo, a sua extraordinária humildade.
P - Terá já chegado ao topo da sua carreira?
R - Eu sou de opinião que a lateral direito é onde poderá render mais.
Eu, e certamente todos os seus amigos, torceremos para que não seja este o último degrau da sua carreira, sabendo o Leandro também, que seu saudoso pai, aonde quer que se encontre, estará muito orgulhoso do filho que teve.