Tive o privilégio de durante vários anos ter percorrido as margens do rio Âncora, numa fase em que se sentia um certo abandono do património, tanto natural como construído, mas não se verificava a sua destruição. A partir do princípio da década de 90 do séc. passado, primeiro com "pezinhos de lá" e depois com "botas cardadas", aquele mundo que tinha descoberto começou a ser vandalizado de todas as formas, algumas delas impensáveis.
Primeiro foi o moinho do Paço (única unidade industrial a funcionar até há 10 anos atrás), depois a permissão de adaptar engenhos e moinhos a habitações de férias, até a este último caso, donde retiraram todo o equipamento que compunha o sistema motor e de trituração no lagar de azeite do Barreiro em S. Lourenço da Montaria.
A insensibilidade do poder politico, esqueceu-se de procurar preservar o lagar de azeite do Barreiro em S. Lourenço da Montaria, que até há meia dúzia de meses podia ter sido beneficiado, de forma a garantir a existência do único lagar da primeira geração. Ninguém quis ouvir os sucessivos alertas que se iam fazendo, mas agora já não é possível reactiva-lo como documento histórico, didáctico e museológico porque as peças que compunham o sistema motor e trituração desapareceram do interior dessa construção.
Quando em 1997, o Engº Adolfo Macedo escrevia no prefácio do livro dos Moinhos do Rio Âncora, que: " daqui a uns anos não restará senão a descrição, as fichas e as fotografias" do livro em questão, julgava-se que os responsáveis iriam preocupar-se em classificar certos equipamentos para evitar a sua destruição e manter viva a chama das nossas raízes culturais. Mas como muitas vezes me lembram, "só defende o património quem tem sensibilidade e cultura para tal" por isso, pouco há a esperar de quem não tem cultura por muitos "canudos que possua".
No entanto, quando deparamos com o único lagar de azeite da 1ª geração todo vandalizado, pouco mais há a esperar deste País que teima em destruir o património que lhe poderia garantir um desenvolvimento sustentável com políticas económicas, que valorizassem as explorações agrícolas procurando criar a melhoria das condições de vida das populações.
Contudo, a boçalidade cultural com que o poder se debate, ao ser confrontada com outros poderes, abdicou da necessidade de defesa, protecção, valorização dos recursos hídricos, paisagísticos, ambientais e culturais, deixando que um património, que embora recente, se degrade sem evitar a sua destruição.
É por estas e outras que Portugal é um daqueles países, cuja globalização irá torná-lo sem qualquer expressão cultural devido à boçalidade cultural deste povo, quer de políticos, quer da "fina flor de intelectuais" ou pseudo intelectuais, que andam por aí preocupados em zelar os interesses pessoais e não de uma comunidade.
Não se sabe se vendido ou roubado, o equipamento motor desapareceu, tornando mais pobre o nosso "parco património", e quando se trata de uma peça única a nível Nacional, a situação ainda se torna mais triste. E tal como o Engº Adolfo referia, agora, ficam somente os levantamentos realizados e as fotografias que foram tiradas.
Este lagar de azeite era património cultural por ser uma "peça" carregada de significado que nos levava a um período da história, em que o planeamento evolutivo, quase de uma forma empírica, interligava o desenvolvimento, com actividades locais.
Destruir este património é a demonstração cabal da nossa ignorância e a aculturação de um povo que durante centenas de anos, assumiu progressivamente uma atitude autónoma e criativa, tornando invejável a sua história, e agora está a entregar-se à globalização, porque ninguém parece disposto a defender os nossos valores culturais.