Pelas 20h00m, Rão Kyao abriu o palco principal da edição do Festival Vilar de Mouros.
O facto de ainda ser dia e de o recinto ainda se encontrar escasso de público, em nada ensombrou a prestação do músico que foi bastante aplaudido.
Pelas 21h10m sobe ao palco mais uma banda lusa. Desta vez os Toranja, uma banda ainda jovem, que conta apenas com um álbum de originais editado no ano transacto.
Esquissos é o nome do álbum que serviu de mote à actuação desta banda cheia de garra e jovialidade.
A banda, apesar de jovem, quase dispensa apresentações.
O público sabe as letras de cor e vai ajudando o vocalista na tarefa da interpretação.
A garra de Tiago é tanta que nas duas primeiras musicas parte duas cordas. Como ele próprio disse: tem a ver com sentimento.
O diálogo com o público vai-se estabelecendo a cada tema.
O patriotismo volta a ser exaltado a propósito do tema "Toma a tua bola de futebol". As bandeiras nacionais e os cachecóis voltam a erguer-se.
A plateia fica ao rubro com os temas finais "Cenário" e " A Carta", e a banda vê-se obrigada a tornar ao palco para um "encore".
Tiago, num misto de alegria e atrapalhação, justifica ao público que já não tem mais músicas para apresentar, mas que ia conferenciar com a banda para cantar mais um tema, obviamente repetido.
"Fome (nesse sempre)" foi o tema escolhido para encerrar mais uma brilhante actuação da banda.
Depois chega a vez de Peter Gabriel, para gáudio dos menos jovens.
As luzes permanecem acesas. O palco, vazio de gente, enche-se de fumo.
A voz, como que em "off", é sem dúvida a de Peter Gabriel.
As luzes apagam-se, o público aquece num aplauso rasgado e Gabriel surge no palco, frente às teclas, proferindo num Português arrevesado um "Boa noite".
É o regresso ao nosso país do músico britânico, cerca de um mês e meio depois de ter participado no Rock in Rio.
O cabelo e a pêra completamente brancos, não escondem a idade do ex-vocalista dos Génesis.
Durante o espectáculo, são inúmeras as investidas de Gabriel pela língua de Camões. Quando as "cábulas" lhe faltam, pede desculpa e fala num inglês pausado e cheio de mímica, para que seja perceptível a quem não domina o inglês.
As pausas entre as músicas aumentam à medida que o espectáculo avança.
Os efeitos especiais e a coreografia são preocupação visível a cada tema.
Ora de braços abertos, rodopiando sobre si próprio, ora de pandeireta em forma de lua vermelha erguida bem alto na sua mão direita, Gabriel não se poupa a esforços, embora o físico já não os facilite.
"Games Without Frontiers", traz Gabriel, locomovendo-se pelo palco, num engenho tipo trotinete eléctrica. O efeito foi místico.
Os momentos altos vêm com "Solsbury Hill", com o público a aplaudir incessantemente. Aqui, também os efeitos de palco não faltaram. Seguido pelos músicos em fila indiana, percorreram todo o palco em pequenos zigue-zagues.
"Sledgehammer", foi o hit que se seguiu. Mais uma ovação do público. Desta vez o efeito vem da indumentária do próprio Gabriel. Traja um casaco cheio de luzes que se acendem e apagam psicadelicamente.
"Biko" foi o tema que cerca da meia-noite e meia encerrou mais uma excelente actuação de Peter Gabriel.
Aos Chemical Brothers coube encerrar as hostilidades do palco principal desta primeira noite da edição 2004 do Festival Vilar de Mouros 2004.
Muito aplaudidos por um público sedento de ritmos electrónicos, característicos das pistas de dança.
Mais do que aplausos, os Chemical receberam o deambular dos corpos de alguns milhares de pessoas que se deixaram contagiar pelos seus ritmos exuberantes.
Repetição é a tónica que é igualmente assumida pela tela em fundo que vai exibindo letras, números e portas sucessivas que induzem à alucinação.
Nada de novo, num espectáculo igual a si mesmo, mas que visivelmente fez as delícias do público presente no recinto.
Texto:Ana Mascarenhas
Fotos: Helena Soares