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TRIBUNA
Espaço reservado à opinião do leitor
A nossa desdita e a dita ponte
Terminado mais um período de consulta pública sobre o impacto ambiental do IC1, acentuam-se as razões de preocupação. O que poderia ter sido um momento de unidade concelhia, em defesa de valores ambientais inequívocos, não mereceu da parte do PSD de Caminha mais do que um cerrar fileiras partidárias em torno da câmara. O problema regional do congestionamento da N13 é sério e justifica o nosso maior esforço. Mas é, também, nossa obrigação evitar que sejam impostos, ao concelho de Caminha, sacrifícios desproporcionados. A recusa sistemática da câmara em aprofundar estes problemas, procurando situar a contestação em motivações políticas mesquinhas, revela um jogo político hipócrita e um desprezo absoluto pela realidade concelhia. Para agravar a situação, tivemos um secretário de estado do ambiente mais empenhado em desvalorizar as alternativas aos projectos do concessionário do que em acautelar as questões ambientais, o que é, no mínimo, ultrajante e prenuncia o resultado desta fase do processo.
Este troço do IC1 assume, para o partido do poder, importância especial: foi objecto de diversas promessas eleitorais de todas as forças políticas; fez parte das reivindicações do autarca de Ponte de Lima na famosa aprovação tangencial do orçamento de estado em 2000 e finalmente, em Setembro de 2001, ainda na governação do engenheiro Guterres, após o respectivo concurso público, foi adjudicado à Euroscut com base num contrato de concessão que responsabiliza a empresa pelo anteprojecto, pelos estudos de impacte ambiental, bem como pelos projecto, execução da obra e respectiva exploração. Nesta altura, o PSD aposta na obra com uma duplicidade politiqueira: tudo quanto possa trazer de bom será graças ao seu empenho manifesto; os estragos que possa causar, esses, dever-se-ão à irresponsabilidade do apressado contrato de concessão socialista.
As populações, alheias a estas tricas, que aguentem com as perdas de qualidade de vida, que calem a defesa do seu ambiente, que se privem de escolher o melhor para um futuro enraizado na sua identidade e na das suas terras.
Os senhores do poder durante diversos governos desleixaram este assunto e não querem, agora, despender esforços num problema para o qual já encontraram "uma solução política".
A Câmara de Caminha, cujo papel deveria ser o de defender os interesses concelhios, preferiu sempre argumentos contraditórios e superficiais justificando assim o seu permanente alinhamento com as opções da empresa concessionária. Nada quer ver. Nada quer ouvir. A sua boca abre-se apenas para desempenhar o papel de zombie hipnotizada pelas toneladas de alcatrão miraculoso. Repete mecanicamente a sua fé no desenvolvimento que o IC1 vai proporcionar ao concelho, principalmente, revela a câmara, se deixar facilitada a ligação a uma futura ponte internacional em território concelhio. É hoje claro, o preço absurdo, em sacrifício ambiental, que esta câmara é capaz de subscrever em troca dessa ponte. Ou melhor, por apenas um pequeno reforço da ideia de que a dita ponte venha a ser possível.
Em 2001 diziam-se decididos a fazer "pressão tenaz, junto do governo para que fossem feitos e garantidos todos os estudos necessários para se aferir da possibilidade de construção de uma ponte internacional entre Caminha e La Guardia" (sic). Daí para cá, o discurso passou, desta apologia da ponte, que aparentava alguma prudência ao colocar a prioridade em estudos prévios de viabilidade, para uma atitude absolutamente irracional de sacrificar tudo e todos para alimentar esse projecto. Dos ditos estudos, que reivindicavam com eloquência, não soubemos mais nada.
Os tempos agora são outros. A paixão por essa hipotética ponte justifica quaisquer sacrifícios à integridade ambiental do concelho. Ficamos a saber que Argela, Vilar de Mouros e Lanhelas são insignificantes para quem sonha com pontes sobre o rio Minho.
Queiram os cidadãos de Caminha repor o bom senso e impedir danos irreversíveis ao seu concelho e encontrarão formas de enfrentar esta desdita, com atitudes responsáveis e solidárias.
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No reino do Camarido, vivem em ancestral e lendário palácio os célebres gambozinos, cujo rei, perito em diplomacia e erudito em conjunturas estruturais da cavalgante globalização, é um meticuloso observador irónico da in(congruência) democrática dos humanos.
Assim, tendo acompanhado todo o conturbado processo da criação da Área Urbana do Lima, que abarca os concelhos de Viana do Castelo, Ponte de Lima, Arcos e Ponte da Barca, o rei Gambozino questiona: - e os outros seis concelhos do distrito de Viana? Porque não formam todos eles, os dez, unidos, uma só área, conservando a sua tradição de distrito? A quem servem estas divisões? Ao povo, não, com certeza, que não foi tido nem achado.
- Esses seis concelhecos que se arranjem, e que não nos chateiem, respondeu a Princesa do Lima arrogantemente.
O Gambozino ficou deveras indignado com tal resposta. Mas o tempo passou. Passaram apenas dois curtos meses. E, como o recente estudo económico do Dr. Daniel Bessa, encomendado pelo governo, não contempla o distrito de Viana como zona deprimida, eis que logo se agitaram, sacudiram, e reuniram de emergência todos os Presidentes das dez Câmaras do distrito, para reagirem a essas conclusões e para consensualizarem uma plataforma comum de reivindicação do honorífico e meritoso título de região deprimida, com direito a reforçadas verbas, a apoios especiais.
- É espantoso, desabafa o mestre Gambozino! São cimeiras da moda! Então, agora a princesa do Lima já quis o distrito unido, com os dez concelhos? Por que não se preocuparam todos, desde o início, em manter o distrito unido, formando uma única área urbana, mais forte, mais coesa, e com mais capacidade para defender, exigir, e promover políticas de desenvolvimento integrado para todo o conjunto territorial? Não é na união que está a força?
O Gambozino da nossa praça tem toda a razão. Sabe muito! É velhinho e basta!
Manuel Afonso, da Direcção Regional do PCP
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MEMÓRIAS DA SERRA D'ARGA |
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Autor Domingos Cerejeira |
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