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Nº 152: 27 Set a 3 Out 03
Semanal - Sábados
1ª Pág. JORNAL DIGITAL REGIONAL


MONTARIA NA SERRA D'ARGA
ORGANIZADA PELA ASSOCIAÇÃO DE CAÇADORES

A Associação de Caçadores da Serra d'Arga levou a cabo no passado dia 20, uma montaria (caçada ao javali com cães) na Serra d'Arga, na zona de Lacete, S. Lourenço da Montaria (o nome condiz), reunindo mais de trinta caçadores de diferentes pontos do norte do país, ávidos de emoções fortes, como o são estas batidas à caça grossa.

Não é todos os dias que se abatem peças de caça com mais de cem quilos, como chegam a atingir alguns animais adultos, pelo que se sentia no ar a existência de alguma "adrenalina" própria dos grandes momentos, como representam estas caçadas para pessoas amantes deste desporto algo "radical", como seria de apelidar nos dias de hoje, a despeito da ancestralidade desta prática.

Inscrições Mata-bicho

Logo pelas oito horas, os caçadores vestidos com um rigor exigível pelas circunstâncias de um ambiente em que é fundamental que se confundam com a floresta, se mantenham quietos e não exalem cheiros (fumar pode ser proibitivo, se a direcção do vento assim o aconselhar), começaram a chegar ao complexo turístico do ValVermelho, local onde Desidério Afonso, presidente da Associação de Caçadores da Serra d'Arga, reuniu a sua equipa de apoio.

Desidério e os últimos conselhos... ... e caçadores escutam

Feita a inscrição e o respectivo pagamento que dá direito ao sempre ansiado almoço de confraternização no final da caçada, um mata-bicho (febras incluído) foi logo posto ao dispor dos integrantes desta ingressão pela serra.

SORTEIO DAS PORTAS

A cavaqueira e a boa disposição eram notas dominantes entre todos, enquanto que aguardavam a realização das sortes que ditariam qual a "porta" (local de espera) correspondente a cada um.

Sorteio das Portas Caçador com chapéu e rabo de Javali

Estas portas são assinaladas no monte -geralmente em rochedos-, separadas entre si algumas dezenas de metros, embora sem uma distância exacta, tudo dependendo da segurança que cada situação aconselhe, sendo permitidas trocas.

De pequenino... Pr. Ass. Caça. Serra d'Arga

Um anel humano rodeando determinada área (no caso, uma mancha com 47 hectares), permite cercá-la com efectividade, impedindo que os animais se escapem sem serem detectados, no caso de existir lá algum no momento da montaria.

CÃES APERCEBEM-SE DO MOMENTO DA CAÇADA

Prestados os esclarecimentos finais sobre o modo de funcionamento e o horário da montaria (10-14H30), em caravana automóvel, partiram em direcção ao monte, sendo visível a excitação da matilha de cães especialmente treinada para o efeito e que seria utilizada na batida ao javali, à medida que se aproximava do local, apercebendo-se que o momento estava bem perto.

Partida para as portas Cães aguardam a sua hora

Logo que chegados, os caçadores apetrecharam-se e receberam as últimas indicações fornecidas por Desidério Afonso, de modo a atingirem as portas para as quais tinham sido destinados, alguma delas representando subidas bem íngremes.

Saída da matilha Cães farejam

Libertos os cães dos seus cativeiros, logo detectaram vestígios de arrastamento de um animal, que se creía poder ser um javali abatido durante a noite -uma forma de os clandestinos sabotarem as montarias, porque afastam os restantes javalis da zona- mas comprovou-se que se tratava de um cavalo, cuja carne poderia ser aproveitada por feirantes para a venderem ilegalmente no decorrer de umas festas que decorriam nessa data.

Caçador na sua porta Um banco para a longa espera

Já com todos os caçadores nos seus postos, o presidente da associação fez soar um corno, anunciando que a montaria se tinha iniciado.

MATILHA EM ACÇÃO

Acompanhado de dois batedores munidos de objectos cortantes que possibilitassem o corte de mato, embrenharam-se com a matilha composta por 16 cães pelo bosque denso, orientando-a e fazendo-se ouvir de quando em vez o som do corno, entre os latidos dos cães, permitindo assim alguma orientação aos monteiros, do itinerário que estava a ser seguido.

Todavia, a caçada não resultou em pleno.

CHUVA ESTRAGOU

Uma chuva forte surgida a partir do fim da manhã, obrigou a antecipar o fim da caçada, dado que ninguém estava equipado para se proteger daquele súbito e incómodo imprevisto depois de uma série de dias de forte calor, provocando uma molhadela das valentes.

Desfeita a "feira", cada um tentou enxugar-se como pôde, sendo de realçar a disponibilidade de Desidério Afonso na distribuição de roupa, para que o almoço pudesse decorrer sem muitos riscos de cada um apanhar uma valente gripe.

CONVÍVIO DE RECORDAÇÕES

Monteiros de S. Torcato Guimarães

Este momento de convívio foi aproveitado para falar da caçada mal sucedida, recordar as imensas peripécias vividas noutras montarias, dissertar sobre armas e munições, da lei da caça insistentemente modificada e um sem número de alusões ao hobby predilecto destes homens apreciadores da caça grossa.

ESTREIA ADIADA

Torcato Lírio

Torcato Lírio, de Vila Praia de Âncora, pertencente ao Clube de Caça e Pesca, foi o único caçador concelhio presente naquela que constituiria a sua quinta montaria e partia disposto a estrear-se no abate de alguma peça.

Reconheceu que o tempo não tinha sido o ideal (pouco frio), para que o javali se refugiasse nas "camas" (nome próprio para definir os locais onde estes animais se abrigam), em zonas protegidas pela vegetação e preferidas por estas espécies cinegéticas.

Não encontrou explicações para a ausência de caçadores do concelho, apenas referindo que talvez prefiram a caça menor.

Utilizando caçadeira com bala autorizada para este fim, confessou ser possível abater de um só tiro um javali, "apenas é preciso ter boa pontaria", disse.

Confirmou que o furtivismo (principalmente a utilização do laço) estraga a caça grossa, exigindo por isso mais fiscalização, porque "temos excelentes condições de reprodução do javali e até de outras espécies, como o veado", precisou.

Embora não se tivesse estreado na conquista de um troféu, como representa a morte do primeiro porco bravo -dando origem a um ritual típico, no final da caçada-, estava satisfeito com o convívio que se seguiu, e que acaba por ser "aquilo de que mais gosto", asseverou.

REPOVOAMENTO DE PERDIZES

Este caçador revelou ao C@2000 que o Clube de Pesca e Caça tem em curso um repovoamento de perdizes nos montados de Vila Praia de Âncora, Vile e Riba d'Âncora, o que obrigou ao encerramento da caça nestes dois primeiros anos, com a finalidade de permitir que ele "pegue bem".

FISCALIZAÇÃO E LICENCIAMENTO

Luís Costa

Estas montarias só são possíveis, quando existe um pedido expresso pelos lavradores, denunciando estragos nas colheitas originados por estes animais, sendo controladas pelos Serviços Florestais.

Luís Costa, mestre florestal em Caminha e Vila Nova de Cerveira, acompanhado por dois homens, procedeu à supervisão desta montaria, de acordo com a requisição feita pela associação (apenas as associações de caçadores podem organizar as batidas), após o director-regional dos Serviços Florestais e o coordenador regional do Corpo Nacional da Guarda Florestal terem autorizado o pedido.

As suas funções prendem-se com a fiscalização das armas, munições, seguros ou cães, verificar se são respeitadas condições de segurança ("os caçadores têm de se ver uns aos outros"), mas não intervêm durante a caçada, razão pela qual nunca viram matar um javali, apenas ouvindo os tiros, tal como sucede com a maioria dos monteiros, uma vez que estão imobilizados nas suas portas, evitando fazer ruídos e cheiros ("o javali tem os sentidos muito apurados", confirma), esperando a sua chance.

MONTARIAS E BATIDAS

Referiu a não existência de número limite de caçadores ou de cães, tudo dependendo do tamanho da mancha, acrescentando existirem duas formas de caçar esta espécie cinegética: através da montaria, com recurso a matilhas devidamente adestradas e registadas ou através de bombos e outros objectos sonoros, designando-se então uma batida.

O destino dos javalis abatidos no decurso da cada caçada destinada a "corrigir densidades" poderá ter duas saídas: ser sorteado ou quem o abater ficar com ele.

MINIMIZAR OS DANOS DO JAVALI NA AGRICULTURA

Joaquim Neves e Paulo Jorge

De entre os caçadores participantes, Paulo Jorge, natural de Monção, profissional da área, já integrou algumas caçarias, esta época, em Espanha, onde elas se iniciam nos princípios de Setembro, enquanto que em Portugal apenas a partir de agora se realizam, decorrendo até final de Fevereiro.

Reconfirmou que o objectivo da montaria se prende com a "minimização dos danos das espécies sobre a actividade humana", tornando-se numa prática aliciante pelo facto de haver a possibilidade de "atirar ou mesmo abater um javali", não esquecendo o convívio que se gera no final da cada jornada, até porque muitos dos integrantes das montarias já são velhos conhecidos.

Pedindo-lhe uma explicação sobre a sensação de abater um fera com mais de 100 quilos, considerou-a difícil de fazer para quem nunca experimentou.

JAVALI VENDE CARA A VIDA

"O javali é um animal muito pujante e que vende a morte muito cara", dando como exemplo contrastante o veado, que depois receber um impacto de bala, fica logo prostrado, ao passo que o porco-bravo resiste -a não ser que o tiro seja muito certeiro-, havendo mesmo o risco de investir sobre quem disparou.

Utilizando uma carabina de três tiros -o máximo permitido-, Paulo Jorge rejeita que se pense ser uma "seca" permanecer horas a fio em silêncio e praticamente imóvel, porque é dessa forma que "pomos a mente em dia e tentamos adivinhar o que se passa no monte", auscultando os seus sons, nomeadamente os latidos dos cães, cujo ladrar dos ponteiros das matilhas quando conhecidos de outras caçadas, permite aquilatar da presença dos javalis.

JAVALI EM EXPANSÃO

A desertificação dos campos, depois da entrada de Portugal na CEE, permitiu a proliferação desta espécie, que se reproduz a uma média de 1,5 ninhadas/ano, nascendo duas crias no primeiro ano, quatro no segundo e seis a partir do terceiro, podendo atingir os quinze anos de vida.

Quanto à introdução de outras espécies cinegéticas na Serra d'Arga, torceu o nariz à viabilidade do veado, devido ao grande investimento que requereria e ao tipo de gestão "cinegética exigida", achando que o corso, por outro lado, seria mais viável.

O veado não se dá num tipo de serra com esta", atalhou Joaquim Neves, outro caçador proveniente do Porto, o que já não sucede com o corso também em franca expansão mas com uma capacidade reprodutiva inferior à do javali e menos resistente.

"O javali é um animal mais rústico", acrescentou.

A CAÇA PELA CAÇA

Ambos destrinçaram o carácter do caçador do norte, ao dar mais ênfase à arte da caça do que ao próprio abate dos animais, e se "matam dois ou três, já é muito", recordou Joaquim Neves e quando "um amigo mata, os outros também ficam contentes".

No final, o convívio confirma a amizade entre todos estes monteiros.

Junta de Freguesia de Dem

HORÁRIO DE ATENDIMENTO
Domingo : 11h30/12H30

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