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UM INFERNO DE CHAMAS ABATEU-SE
Eram cerca das 16 horas do dia 2005.08.13 quando o fogo, vindo do Vale do Coura, pelo monte de Santo Antão, dobrou a cumeada e chegou aos baldios de Vile e de Riba de Âncora. As chamas rapidamente se propagaram e se multiplicaram devorando árvores jovens dos baldios destas duas Freguesias vizinhas que viveram momentos inesquecíveis de aflição e de pavor. Com o vento a soprar a favor do fogo e contra a força humana, o assustador fogo foi descendo o monte queimando tudo que encontrava à sua frente e ao seu lado. Os Bombeiros de Vila Praia de Âncora deslocaram vários meios para o monte de Vile, tentando impedir a progressão do fogo e a nosso pedido, mas também por preocupação deles, proteger a Capela Românica de S. Pedro de Varais. O fogo era imenso, assustador, arrasador, um demónio em plena liberdade e euforia. Muitos particulares, os membros da Junta de Freguesia e dos Baldios de Vile acompanharam e tentaram ajudar no que era possível. Todos nós olhávamos incrédulos ao que se passava à nossa volta. Os bombeiros posicionavam as suas brigadas e viaturas na tentativa de impedirem o pior. O Comandante dos Bombeiros de Vila Praia de Âncora - Manuel Cândido - rapidamente se movimentou para Vile acompanhando as operações e comandando os seus homens, pondo também os civis a salvo e dando as informações necessárias às autoridades da Freguesia. Com o esforço de uma Equipa e uma viatura dos Bombeiros de Âncora, foi salva a Capela Românica de S. Pedro de Varais.
O fogo era indomável e incontrolável. Por várias vezes fomos impelidos monte abaixo amedrontados com a ameaça deste inferno. Ninguém o fazia parar, aceiros, ramal da IC1, zonas planas ou acidentadas, nada era obstáculo a este monstro indomado. O fogo passava por cima de nós com fagulhas e folhas a arder. As copas das árvores facilmente se incendiavam e isto tornava-se numa multiplicação exponencial deste incêndio. Até que, várias frentes se abateram na Freguesia de Vile, às portas e janelas das casas de habitação nos lugares da Quelha, Igreja e Serrape. Os meios no local eram escassos, o fogo era muito e o medo de todos nós era muito maior, temendo que fossem devoradas casas, pessoas, animais e uma unidade empresarial de estufas. O pedido de meios e de reforços começou a ser insistentemente feito por todos ao comando que se encontrava no local, ao Comando Distrital, 117, etc. Tudo servia para pedir ajuda neste momento de aflição, mas as respostas eram poucas. Faltou o meio aéreo, que estranhamos não tenha vindo apoiar os meios terrestres no Vale do Âncora. Cada minuto era importante. Os meios não chegavam, duas viaturas com homens tinham ficado encurraladas na parte superior do monte, sem poderem descer à Freguesia. Os bombeiros no local multiplicavam os seus esforços para atender ao mais urgente. Os civis lutavam com a falta de água e com o fogo às suas portas. A agonia era imensa o sofrimento aumentava. A calma desaparecia e os meios continuavam a não chegar e quando chegavam, eram sempre poucos para a dimensão do fogo.
Tudo era inaplicável e demasiado pouco e pequeno para esta enorme tragédia. Houve evacuações de idosos de suas casas, temendo-se o pior. Ouvia-se dizer aos mais idosos que o fogo nunca tinha chegado junto às casas de Vile. "Isto é o fim do mundo" era o desabafo generalizado. Apenas se lembravam de um violento incêndio que tinha mobilizado o exército, mas já lá vão quase 40 anos. Face a tamanha dimensão de fogo, o Comando dos Bombeiros instalou-se junto aos lavadouros de Vile, chegando depois o Comandante distrital. A GNR ordenava o trânsito e fechava o acesso da EN 305 a Vile. Mas o fogo teimava na sua inglória força de devorar e destruir tudo. Os pedidos de ajuda começavam a ser a única mensagem que se ouvia. Todos nós tememos o pior, até que uma barraca foi mesmo engolida pelo fogo. Os civis recorreram a tudo para impedir a progressão desta língua devoradora. Nos locais mais altos da Freguesia a água chegava com pouca pressão, apenas um fio de água. Os poços pouca água tinham. Os baldes estavam em fila contendo alguma água para prevenir mesmo o pior. As cisternas civis começavam a mobilizar-se. Até que lá iam chegando mais viaturas para tentar limitar o fogo, atenuar a ansiedade das pessoas e dando-lhes mais esperança. Mas os meios tardaram em chegar.
Com tudo isto o Sr. Francisco Lírio da Quinta do Cruzeiro oferecia aos bombeiros e civis bebidas e comida, disponibilizando as suas instalações para descanso de todos nós. O alojamento da família que ficou sem a barraca foi assegurado pela Câmara de Caminha. Foi horrível o que se viveu neste fim de dia 13, noite e madrugada de 14 de Agosto de 2005. Mas o fogo continuou, pondo em desassossego Riba de Âncora e Vila Praia de Âncora.
Após este desastre, que a todos nos afecta, e que terá implicações futuras na Nossa Comunidade, nas linhas de água, nos rios, no fundo na nossa saúde e ambiente do concelho, interessa colocar algumas questões: - Porque é que quando o fogo se encontrava no cume do monte, não vieram meios aéreos para o combater ali? - Porque é que, com esta dimensão de fogo, pondo casas e pessoas em perigo no Vale do Âncora, não houve meios aéreos de apoio? - Os meios aéreos a operar no nosso Distrito são e serão suficientes? - Que tipo de apoios vão ter estas Comunidades do Vale do Âncora para repor o verde nos seus montes? - Que tipo de ajuda vai haver para quem perdeu os seus haveres ? Humberto Domingues
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