Na idílica paisagem da Foz do Lima, a cidade de Viana do Castelo vive durante três dias a Festa mais colorida de Portugal. Romeiros, turistas e forasteiros aos milhares (prevê-se meio milhão de pessoas) convergem para o santuário de Nossa Senhora d’Agonia em cumprimento de promessas e em devoção à Virgem, que os pescadores recebem sobre tapetes de flores nas suas ruas da Ribeira, em festiva procissão ao rio e ao mar.
Mas a Romaria d’Agonia é, também, a alegria das alvoradas, as Feiras Francas, para quem gosta de "feiras", as revistas de gigantones e cabeçudos, gaiteiros e grupos de bombos no centro cívico vianês, ali, na vetusta Praça da República (dias 19, 20 e 21, às 12,00 horas).
É o Cortejo da Mordomia (dia 19 às 10,00 horas), as Rainhas da Romaria que vão cumprir o dever de apresentar cumprimentos ao Governo Civil, à Edilidade e ao nosso Bispo.
É a Procissão Solene da Senhora d’Agonia organizada pela Real Irmandade. (dia 19, pelas 17,00 horas).
No dia 20 (o dia que marca a partir de 1783 a devoção á Senhora da Agonia e que a Sagrada Congregação dos Ritos concede faculdade e licença para todos os anos celebrar no dia 20 de Agosto uma Missa Solene e que por vontade da Edilidade e das gentes de Viana dies festus aceitaram desde essa data como Feriado Municipal), é a tradicional Procissão dos Pescadores com os andores de Nossa Senhora d’Agonia e Nossa Senhora dos Mares em direcção ao cais dos Pilotos, onde depois da alocução será dada a Benção ao Mar e ao Rio. O retorno será feito pelas ruas da Ribeira, primorosamente atapetadas e decoradas pelos seus moradores que, com bairrismo que os caracteriza mostram a sua devoção à Padroeira dos Pescadores.
Às 16,30 horas – o Cortejo (A História do Bordado de Viana) com as bençãos de Santa Clara de Assis, padroeira dos Bordadores e das Bordadeiras – o Bordado de Viana - na sua longa "estória" que a Mulher de Viana, desde menina e moça, casadoira ou já mãe de filhos soube cuidar em honestos linhos caseiros, com um elevado sentido artístico que a Mãe Natureza inspirou: no traje, nos lenços de amor, atoalhados, panos decorativos, no bragal, gastronomia, festa, arte floral, na cultura Vianense (1ª Exposição de Bordados / 1917), nas peças de oirar, na "chieira", num vira geral.
Às 22,00 horas – Festa do Traje - a glorificação do fato à "vianesa". A consagração da rapariga de "Viana" que soube dar colorido, mimo, riqueza, alegria e dó ao seu trajar, vestindo os fatos que em sua terra usa, de cotio, na veiga e no campo, no rio, no monte e no mar, para ir ao arraial, à missa do Senhor, ao terço, em tardes de namorar, para carpir os lutos e a saudade dos que partiram para não voltar!...
Dia 21, o grande encontro das Concertinas e Cantares ao Desafio (às 15,30 horas), logo seguido da Tourada (18,00 horas).
E são os fogos: Preso, logo no primeiro dia da afamada técnica dos fogueteiros do Alto Minho; do Meio ou da Santa na noite de Sábado, em pleno arraial do campo da Senhora d’Agonia com as lágrimas, as silvas e as girândolas.
E é a Serenata... (no último dia, 21, pelas 22,00 horas) iniciada com o Festival do Jardim e depois no Rio Lima com o espectáculo e o "ballet" aquático na magia do som, de cor e de luz, no rio prateado em fantasmagórico cachão de luz, que a cachoeira da velha Ponte Eiffel nos traz e leva como sonho e fantasia, como apoteose da Romaria da Senhora d’Agonia – a Rainha das Romarias de Portugal.
E é o "cartaz" e a "voz" da Romaria.
A Romaria de Nossa Senhora d’Agonia é já o grande cartaz que encerra em si toda a importância de um passado que queremos presente não como uma imitação postiça do antigo mas com a consciência de que somos diferentes, sem remorsos ou pieguices.
Por isso, o cuidado que Mordomas e Festeiros devem ter ao prestar este serviço à comunidade. Os turistas, os forasteiros, vêm a Viana porque sabem que aqui, na Romaria, vão ter um encontro fiel e rigoroso com um calendário e um tempo que as Mordomias consagraram. Inovar sim, mas com um fundamento na tradição, seja nas procissões da Cidade e do Mar, no Cortejo Etnográfico, no Desfile da Mordomia, na Festa do Traje, nos Zés P’reiras, Gigantones e Cabeçudos, nos fogos, no cartaz! Então, a colectividade sente-se, mais forasteira, mais turista, mais romeira, mais Vianense. E cada ano virá mais público, mais gente.
É isto a "Romaria", a "Festa". Uma ruptura com o presente em que a "menina da cidade" vira lavradeira e põe brincos "à rainha"; em que todos nós queremos ser "meia senhora" num regresso à infância, a esse universo mágico da natureza-mãe, à nostalgia dos "paraísos perdidos", no retorno às origens.
Cortejo "A História do Bordado de Viana" – A Festa do Traje
Os Bordados de Viana (panos de mesa, toalhas, vestidos, camisas, sacos de trabalho, caixas de amêndoas, capas para álbuns etc), nascem do "traje" e não o contrário, como por vezes se pensa.
São, sem dúvida, a fonte inesgotável de motivos originais e a executar nos pontos mais variados. Umas peças são bordadas a lã; outras a algodão. No primeiro grupo temos as saias, os aventais, as algibeiras e os coletes, cujos bordados são enriquecidos com o emprego de "ruches", missangas, vidrilho e lantejoulas sendo todos contornados por um "fio de brilho", ou seja, um fio grosso de algodão branco, em volta da qual se enrola em espiral, uma delgada lâmina metálica.
No segundo grupo temos a camisa, o lenço de amor, o lenço de balbinete, as chinelas.
A cada um destes trajos estão cometidas diversas funções e que passo a referir:
Traje de Mordoma Preto – vestido de pano
Destina-se às grandes cerimónias – Cortejos das Mordomias – cumprimento às Autoridades, tendo como emblema representativo as palmas ou palmitos;
Nos actos religiosos, com vela votiva, missa solene/procissão pois no caso de se apagarem as velas será na voz do povo sinal de falta de pureza da Mordoma;
Traje de Mordoma – Vermelho – Fato de Luxo – Fato da Festa
A obrigação de erguer o arco festivo; preparar com as amigas o cesto de flores (ex-votos);
"Fazer o peditório" acompanhadas pelos festeiros e uma tocata (concertinas e Zés Pereiras), levando consigo "balaios" para o transporte das "esmolas" de milho, centeio, ovos, prendas para o bazar e os festeiros , varas rijas de carvalho para o transporte de chouriços e fumeiro;
Levar em tabuleiros o leilão dos "bichos" e o leilão das "roscas";
Levar os tabuleiros de segredos e serem responsáveis do bazar;
Eram, também, zeladoras das comedorias do "Santo" ou da "Santa", já que o comer e o dormir junto da igreja, capela ou mosteiro (quartéis), reforçam no minhoto os rituais de presença.
Mas a Festa do Traje não trata só das Mordomias. O traje de trabalho, o traje de domingar, o traje de feira, o traje do peditório, o traje do espalho e o traje de morgada, também, tem a sua função específica:
Traje de trabalho (sargaceiras, ceifeiras, roço do mato, erva);
Traje de trabalho (candeio, polvo, rapões, roçadores de junco, lenhadores, sulfatadores, podadores, vindimadeiras, grupos (espadelada – malhada com "Borrega"), grupos de serão com "contra dança" / desfolhada;
Ida para a Feira / romeiros / peditório para a romaria para o bicho bravo);
Sem esquecer os grandes actos da família minhota:
o conversar, o namoro, o noivado,
O casamento, o baptizado (o vestido, o bragal) o vestido da noiva, o ourar, os padrinhos);
A Festa e a Romaria, os andores, a mordoma;
O compasso pascal, o beijar da cruz, o folar do Senhor Abade, o Juiz, os rapazes da caldeira e da campainha, as lavradeiras.
Os Lenços de Namorados / Lenços de Amor
O Lenço de Namorados tem origem nos lenços das Senhoras do Séc. XVII e só eram usados nas grandes cerimónias. Tal como aconteceu com o Traje de Mordoma e de Noiva foram as "nossas" raparigas que os adaptaram no Serão e os incutiram no Bragal.
Diverso, pois, seria o lenço da moça do campo, da fidalguinha de brasão, o lenço do dia a dia, do lenço da festa da aldeia, ou ainda, o lenço da Mordoma e da Noiva, do lenço de ombro dos andores das nossas romarias. Pouco a pouco, o lenço individualizou-se, carregando-se de ornatos, monogramas, bainhas, entremeios, rendas, recortes e símbolos muito próprios (cruzes, custódias, ramos de flores, as pombas, o par de namorados, o trevo de folhas, a estrela de salomão, os nomes dos destinatários). E passam a ser designados por lenços de namorados ou lenços de amor ou lenços de pedidos.
Confecção e Bordados
Originalmente confeccionados em linho fino ou cambraia (o linho caseiro não era o material mais indicado devida à irregularidade dos fios para a contagem). Nos inícios do séc. XX aparecem os lenços bordados em algodão industrial – os lenço de "compra". Com barras marcadas ou lenço da "tropa" (por serem idênticos aos dos militares), que durante algum tempo foram procuradas pelas bordadeiras. De início. bordavam-se a vermelho, branco e preto, únicas cores existentes no mercado. Depois, surgiu o azul e só a partir da década de 30 nos concelhos de Ponte de Lima, Ponte da Barca e Vila Verde se assistiu a uma grande profusão de cores utilizadas onde as moças se sentiam menos inibidas pela tradição erudita. O ponto mais antigo era o "ponto de cruz", mais delicado, mais conventual, mas muito mais moroso. Os primeiros motivos – grecas, silvas, evocam as escolas dos conventos femininos onde as meninas fidalgas aprendiam a arte de bordar. Para acelerar a sua confecção foram-se introduzindo novos pontos, em especial, o ponto "corrido", o que permitiu obter outros efeitos decorativos e recorrer à improvisação pessoal. Porém, são sem dúvida as quadras com versos rimados (um dos pormenores mais destacados), onde a ingenuidade das moças fica bem espelhada nos erros de ortografia e de pontuação.
Abre-te lenço e amostra / Catro ramos feloridos / Que no meio encontrarás / Nossos corações unidos.
Por ti suspiro / Por ti dou ais / por ti dou a vida / Que queres mais.