CONCELHO DE CAMINHA



UM MOSAICO DE PAISAGENS

Jornal Digital Regional
Nº 251: 20/26 Ago 05 (Semanal - Sábados)

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TRIBUNA
Espaço reservado à opinião do leitor


Aos bravos de 13 de Agosto
Vile, Vila Praia de Âncora e Riba de Âncora

Dos olhares absortos na cortina fumegante que se sobrepôs às linhas de fogo, emanaram as chamas firmes, numa torrente de labaredas mortais. Assim começou o flagelo no passado sábado, 13 de Agosto, nas freguesias de Vile, Vila Praia de Âncora e Riba d'Âncora. Apanhado na ocorrência, na freguesia de Vile, de onde mais não sai até à acalmia, lá pela madrugada, registei o final de tarde tenebroso, com uma noite sem espaço para a descrição imaginativa, porque não se tratou de ficção. Mais real e dolorosa que qualquer retrato dantesco; mais luminosa e quente, por momentos, que os melhores dias de Verão; mais asfixiante que as atmosferas anóxicas. Mas de tudo o que de mal se viu, surgiu o extraordinário que imprime a vontade deste relato. Entre os Ai quem me acode, os clamores, as preces e os gritos de desespero, regados pelas lágrimas aflitas de quem previa o fim dos seus e das suas coisas, foi a solidariedade entre os conterrâneos, os seus amigos e visitantes, o que de mais digno se sentiu. Sem dar crédito às promessas de ajuda, já adivinhando a falta de efectivos disponíveis para atacar o fogo em Vile, e vendo o avanço do fogo sobre as casas, das ordens soltas rapidamente se alinharam todos, num compromisso espontâneo de entrega à comunidade, indiferente às pertenças individuais. Assim foi em Vile. Durante mais de três horas foram os populares que evitaram o pior. De ramas na mão, enxadas baldes e mangueiras, tudo se reuniu para enfrentar o incêndio. Mas o mal trazia o pior. Com o fogo à porta, era preciso regar as zonas envolventes, os telhados, o mato... mas não havia água suficiente da companhia. Mais água! Gritavam uns. Não há! Respondiam outros, enquanto fios de água corriam para os baldes com a demora triste que desesperava ainda mais quem queria ajudar.

Mas não vem ninguém? Ninguém chama os bombeiros para salvar estas casas? Não atendem! Dizem que não têm efectivos! Estão dois carros presos. Coitados dos homens! Passou para baixo. Saí daí. Está alguém lá atrás? Depressa à casa da... Já tiraram os velhotes da casa? Essas garrafas de gás para longe. Não há nada a fazer, vamos sair daqui! È cortar esses pinheiros antes que o fogo lhes chegue. Como está do outro lado? Está mal, já entrou no quintal da... Ardeu o barracão? Não sei, diz que sim. Ai a minha casinha! Eu daqui não saio...

Já não eram palavras, eram sentimentos saídos pela boca. De repente as moto serras fizeram-se ouvir. Só no dia seguinte se viu que essa acção salvou, pelo menos, três casas.

Estão aí os bombeiros. Tenham calma está tudo controlado, aqui já não arde mais nada!

Mas Serrape estava em chamas; o fogo descia o Perneto, ardia no Calvário e na Quelha. As chamas não se compadeciam. E foi já com os poucos bombeiros no terreno que ardeu um lar. Ardeu o sítio da... Coitada da mulher, e o homem? Já o levaram p'ra baixo.

A força dos homens surgia do nada. Galgavam muros, corriam a acudir, não ouviam as mulheres que gritavam vinde-vos embora! Saí daí. Faltas de ar, pânicos e lembranças muito antigas do fogo que já matou.

Já batemos o fogo deste lado, dai-lhe água aí por trás. Já não estão a deitar água; um tanque descarrega-se num instante! Ide regando por aí. Se desce por este lado vou precisar de mais gente aqui!

Diziam-se coisas mas falava-se pouco. Mesmo assim toda agente parecia saber o que fazer. Com mais valentia ou menos, as chamas foram sendo vencidas. Das lágrimas aos soluços e daí à calma, interrompida por um ou outro alerta, chegou o sossego, não relaxado, mas suficiente para sentar e ouvir o crepitar das chamas de umas quantas fogueiras teimosas.

No rescaldo ficaram as perguntas, quase sempre sem reposta: Como passou o fogo p'ra baixo da estrada (ligação ao IC1)? Com tanta água que se tira do Rio Âncora, porque não se trouxe essa água durante a tarde e se travou o fogo na estrada? Não era de ter aqui militares, se não há bombeiros? Porque que é que as cisternas de água vierem tão tarde? Porque não deram prioridade onde havia casas em perigo? Porque... Mas com as perguntas muitos outras afirmações: Já ninguém conhece esses montes! Antigamente reuniam-se os homens todos e não deixavam o fogo chegar tão perto! Ainda me lembro de "roubar" mato ao vizinho; agora, nem dado o querem! Agora diz que há protecção civil e planos disto e daquilo; se não fossemos nós a tirar as pessoas de casa! Coitados dos bombeiros, os homens foram chamados para todo lado!...

E agora, será que não volta? Podem dormir descansados que nós ficamos atentos; aqui ninguém vai à cama.

Em Vile houve bravura na noite de 13 para 14 de Agosto. Rostos sem história, lembrados apenas em momentos muito particulares foram heróis. Amigos, conhecidos e desconhecidos agiram juntos, alguns pela primeira vez, num combate às chamas que marcará esta freguesia, e integrará a sua história. Vila Praia de Âncora e Riba de Âncora foram também fustigadas pelo fogo. O vale do Âncora perdeu; provavelmente ninguém ganhou.

Joaquim Celestino Ribeiro

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