A locução inaudita da representação democrática municipal presenteou-nos com novo classificativo - Rapaziada. Quem é, ou deixa de ser, é pouco importante. A subjectividade é mais abrangente, cobre todos os indesejáveis e liberta possíveis equívocos, ou ofensas desnecessárias. É assim encontrado um novo termo para definir todos aqueles que pensam de forma diferente, todos os que se expressam de forma desalinhada com os executivos da Câmara Municipal de Caminha e Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora. Depois do famoso "inimigos da terra", salta o out-door Rapaziada. É este o entendimento democrático local de oposição, ou melhor, e para que as palavras não revelem a típica leviandade dos rapazes, os mesmo que, em bando, formam a rapaziada, da não considerada oposição. A verdadeira oposição, essa sim séria, honesta, dedicada, é a alinhada, por mais confusão que tal importe. Pelo dito, do púlpito da representação máxima do concelho, uma verdadeira oposição é aquela que diz bem do que é feito, mesmo que mal feito, em seu entender. O verdadeiro homem de oposição é resignatário dos seus credos, é avulso de ideias, é concordante, submissível, avesso ao pensamento próprio, fiel ao silêncio. De facto, no Brasil, continuaria a ser um rapaz, que para eles é o mesmo que criado, mas como estamos em Portugal, não classifiquem assim a oposição; desta forma todos duvidaremos daquilo que é o vosso entendimento de democracia, de liberdade de expressão, de direito de oposição. A política é muito mais séria e deve ser dada essa imagem à população em geral.
Discursos descuidados no conteúdo alimentam o descrédito sobre eleitos e sobre todo o funcionamento democrático. Nestes três anos de Junta e Câmara PSD têm sido várias as suas acções concertadas que obrigam à discórdia. A sua forma, os extensos classificativos e tentativas de diminuição de ideias e acções, estimulam a desvalorização gradual de alguns dos seus membros, nas graças dos outros, entenda-se, como o contrário também acontecerá. Mas quando se vê todo o conjunto alinhado no apoio a um discurso que, em opinião pessoal, fere a democracia local e compromete a elevação de discurso nos tempos seguintes, que pensar, como distinguir quem ultrapassa o mero "prescindo"?
O acto político, embora com participações individuais, não o é, ou não o deve ser. É, sobretudo, a acção colectiva, e, por isso mesmo se distinguem, ou se devem distinguir, as relações políticas e as relações pessoais. Pode, eventualmente, haver discórdias políticas profundas entre as pessoas, sem que tal reflicta necessariamente uma má relação pessoal. É nesse âmbito que nutro simpatia pessoal por algumas pessoas que, politicamente, estão nos antípodas do meu pensamento. Mas também deles se torna mais ofensivo ouvir alguma linguagem, ou ver concordar com ela, mesmo que em acções pretensamente políticas.
Cabe a cada um decidir, e porque foram citadas as obras em Vila Praia de Âncora, quem revelou pertencer à "rapaziada". Para esta análise é conveniente a definição clara de rapaziada, como bando, que pressupõe um número elevado e não uns meros dois ou três, de rapazes, ou seja estroinice, com acções levianas, imponderadas, reveladoras de imaturidade. Como o classificativo se dirigia a adultos, deve acrescentar-se bando de rapazolas, isto é, adultos imaturos, ou seja, homens e mulheres com comportamento adolescente. Iniciemos:
Em Setembro de 2004 ocorreu a já famosa reunião de apresentação do que foi entendido como não sendo projecto, ou mesmo anteprojecto, da qual, numa atitude madura, foi excluída a "rapaziada". Quem pensar de forma contrária verá a "rapaziada" incluída e a revolta madura no local e nas manifestações de opinião subsequentes.
As obras arrancaram sem que estivesse resolvido o problema do trânsito, com a questão da rua e Sol Posto, a norte, e ligação a sul, mais complexa, que envolveria obras na Erva Verde, tal como, numa atitude responsável, a Assembleia de Freguesia havia requerido. Apesar disso as obras arrancaram, e não foi a "rapaziada" que deu essa ordem. Quem pensar de forma contrária verá a "rapaziada" a fazê-lo, e as mulheres e homens maduros a assistir, indignados.
Imperceptível, suportado num simples desenho de propaganda, o arranjo da Praça é, aos olhos da "rapaziada", que afinal também é de Vila Praia de Âncora, impreciso e não garante as suas reivindicações, já que não foram ouvidos. Quem pensa de forma contrária verá a "rapaziada", de projecto na mão, num típico "não te deixo copiar", a não querer ouvir a claque madura que vê, e prevê, intervenções futuras, caso não se atenda agora às suas sugestões.
Indiferentes ao clamor popular, prosseguem com a execução. A "rapaziada" sustenta a sua argumentação, e com o desenho em mão fá-lo passar, no mais curto intervalo de tempo, pelo "clube dos 78". Os dirigentes maduros menosprezam esse contributo, ridicularizam o facto de apenas 78 ancorenses terem assinado o documento, o que, para eles, não representa nada, ou ninguém; eles sim representam 4688 ancorenses residentes (censos 2001)... menos os tais "78 inimigos da terra". Quem pensa de forma contrária verá um conjunto de gente responsável a promover a participação popular e a "rapaziada" irritada, aborrecida com a honestidade e dever cívico dos ancorenses.
Depois de acusarem a "rapaziada" de inoportunidade na apresentação de sugestões, a gente responsável do executivo reúne com os comerciantes, e só com eles (serão mais que 78?), para os ouvir. Uma vez mais a "rapaziada" fica de fora. Quem pensa de forma contrária verá a "rapaziada" a manobrar e as mulheres e homens ancorenses a indignarem-se com esta atitude.
Finalmente começa a desenhar-se no local o resultado das obras. As ruas 5 de Outubro e 31 de Janeiro, até à rua do Sol Posto e Travessa 31 de Janeiro, respectivamente, mantêm o trânsito e ganham, os seus passeios, apenas 80 cm. A "rapaziada" não acredita no que vê, principalmente porque a aquisição e derrube de uma casa, acção de elevada monta para o concelho, foi feita na base do escoamento do trânsito, devido, pensou-se, à interdição de circulação automóvel nos troços referidos da rua 5 de Outubro e 31 de Janeiro. O pessoal sério e maduro regozija-se com as obras e orgulha-se de fazer algo que outros não fizeram. Quem pensa de forma contrária verá a "rapaziada" satisfeita e os ancorenses maduros insatisfeitos por se perder uma grande oportunidade de se fazer uma obra melhor.
A "rapaziada" vê ainda com estranheza o desnivelamento do piso na praça, quer em frente à capela de N. Sra. da Bonança, com cobertura parcial de um dos seus degraus, quer no outro lado da praça, com o piso a convidar à saída dos negócios aí instalados. A "rapaziada" contesta e a gente madura esboça sorrisos que mesclam dever cumprido com indiferença à "rapaziada". Quem pensa de forma contrária verá a "rapaziada" nos preparativos do festejo e a madura população ancorense de olhos postos no futuro projecto que colmate as falhas deste.
Cada um, e penas nesta obra, fará a análise que entender. Pessoalmente entendo que nenhuma seria necessária. Discordo plenamente com a utilização do termo "rapaziada" e, neste escrito, a sua utilização abusiva visa o seu desgaste, para que, com a fugacidade da sua entrada saia do léxico político local. Entendo que quem o usou por primeira vez não mediu o alcance feio desse termo, na perspectiva democrática que deve caracterizar a acção de todo e qualquer cidadão que, em democracia, exerce cargos como o de deputado municipal. Creio que as suas intenções foram mais benignas e visavam apenas o uso da ironia para aligeirar, ou até não ofender, os alvos da sua intervenção. Até porque a "rapaziada", num círculo de amizade, e na voz popular, alicerça valores humanos interessantes, como a coesão, a entrega fraterna ou a defesa comum.
O município de Caminha, no geral, e a Freguesia de Vila Praia de Âncora, em particular, são, seguramente, geridos por homens e mulheres maduros, contando com equivalente oposição, bem como com elevada participação cívica popular, e todos assumem as suas responsabilidades, sujeitando-se aos mesmos actos eleitorais, mesmo que nem sempre em igualdade de circunstâncias.