|
![]() |
O CIRCO NO VALE DO ÂNCORA
O traçado da IC1, através do Vale do Âncora, parece ter sido uma má opção dos responsáveis do ordenamento e planeamento do País. Devido a uma falta de prevenção, este traçado, entre Viana do Castelo e Caminha, que se encontra em fase de construção, tornou-se no troço mais mediática da IC1. Aqui, a prevenção da poluição e a gestão sustentável dos recursos, factores-chave das políticas de ambiente, que deviam estar presentes no ordenamento e planeamento do território, foram descuradas não tendo em consideração os factores de erosão que se estão a fazer sentir nesta fase de execução. Mas como o povo diz " a procissão ainda vai no adro"…
São estes "descuidos (!) " que dão origem a autênticos espectáculos circenses. E como os procedimentos para minimizar a erosão e escorrimentos das águas pluviais, parecem não ter sido ponderados, deram origem à poluição do rio Âncora, pondo em dúvida a qualidade da água, na estação de adução do abastecimento a Vila Praia de Âncora, Sta. Maria de Âncora e Vile. Foi assim que este rio, que sempre foi o ex-libris deste Vale, cujas águas cristalinas complementavam a procura turística da praia de Vila Praia de Âncora, tendo sido até objecto de projectos para a sua protecção, vê o seu curso sujeito a obras que eliminaram a transparência, e estão a colocar sérias reservas à pureza das suas águas.
Nesses trabalhos de protecção da " Bacia Hidrográfica do Rio Âncora" davam-se sugestões para um desenvolvimento cuja metodologia tinha em vista:
Mas a juventude que marcou uma época ambiental, e defendeu acerrimamente esse projecto, dispersou-se; neste momento, a maioria milita em partidos políticos. Mas existe uma disciplina partidária, que tem de ser respeitada, para se ir subindo a escada do "estrelato político", e talvez devido a isso, a concentração de esforços para evitar a que a IC1 atravessasse este Vale, não sortiu efeito. Foi considerado como uma peça de desenvolvimento da região sem terem em conta, no estudo deste traçado, as características geológicas e hidrológicas deste Vale.
Agora, em face da técnica adoptada, e depois de realizada a desmatação do terreno e o movimento de terras, teve lugar uma autêntica alteração à topografia do local. A área desmatada fazia prever que quando viessem as chuvas, algo de anormal viesse acontecer. As entidades responsáveis eram alertadas, quer a nível de Ministérios como de Autarquias. A comunicação social começava a servir de veículo de alerta da opinião pública, mas ninguém fazia caso dos " fundamentalistas do ambiente(!)". Foi assim que o "circo " assentou arraiais, neste pacato Vale do Âncora, ou melhor, no concelho de Caminha, porque irão existir vários pontos de escorrencias e erosão. Nas linhas de água que vão ser aterradas, os caudais vão-se concentrar nas PH (portas ou entrada de galerias de escoamento de águas pluviais) originando o aumento acentuado da velocidade e o consequente espectáculo de agravamento da erosão a jusante destas galerias cujas consequências poderão vir a ser agravadas com as impermeabilizações do terreno. Depois dos solos atingirem um ponto de saturação, as diversas linhas de água que secam no Verão irão agravar ainda mais a situação do rio Âncora, com o transporte de terras doutras áreas da IC1 escavadas. Entretanto os aquíferos subterrâneos ficarão poluídos. É por isso que todos os dias o espectáculo irá ser diferente. Possivelmente iremos ter "espectáculos" durante longos meses, ou quem sabe anos, conforme os "cenários que se forem criando". Embora muitos dos apoiantes deste "circo", agora se apresentem como opositores intransigentes da "nudez do espectáculo", houve tempos em que não se opuseram às intenções que deram origem à execução desta via. Foi a falta de planeamento, e os diversos interesses políticos e económicos que deram origem a um dos mais degradantes episódios ambientais, do Vale do Âncora. Qualquer partido político tem culpa nesses acontecimentos, por que uns participaram e apoiaram na sua concepção (projecto) e os outros, estão a permitir o seu parto. Só um " aborto", "com ou sem barco", é que poderia ter de facto salvo o Vale do Âncora. Agora já é tarde… E este local que devia ter sido tratado como um "santuário", viu-se perante uma derrocada incontrolada, porque o projecto que solicitava a sua protecção não se enquadrava com nenhum grupo político. Foi pena, porque quando não se quer fazer figuras tristes em que toda a politica fica desacreditada, é necessário que obras com esta dimensão, sejam objecto de estudos, que prevejam situações extremas, para que depois não se dê origem a este "circo". De facto a "imagem que passa", é de como se gere mal o erário público. Se tivessem analisado a viabilidade e ordenamento do território, possivelmente a execução deste projecto, não iria atravessar este Vale ou seria adoptada outra técnica construtiva. Este percurso da IC1, além de ter originado a poluição do rio Ancora, causou um grave problema de descontinuidade ecológica, cujas consequências são imprevisíveis. E quer acreditem quer não, a culpa não é da natureza, nem tão pouco dos funcionários públicos, mas sim de quem permitiu que esta obra se concretizasse. Agora já temos garantido a : - Destruição de parte de uma área integrada na "rede Natura 2000", embora andem a colocar placas a proibir a passagem, por baixo dos pilares do viaduto, quando nunca o deviam ter autorizado. Pura demagogia...
- Falta de sistemas para minimizar as escorrências e erosão que estão a acontecer, devido a toda aquela área desmatada, de vários hectares, começar a debitar lamas para o rio Âncora, quando chove.
- E por fim a poluição do troço final do rio Ancora. Agora o que nos espera é beber água barrenta porque nem a água da Retorta vai escapar (!)…. Joaquim Vasconcelos 21/10/2004 |
|
![]() |