Presdigitadores, mágicos e ilusionistas sempre me fascinaram. Os desafios que colocam aos espectadores, assumidos como estímulos à inteligência; a qualidade estética e a subtileza do jogo manipulador dos sentidos; a verdade nas suas regras de ilusão - proporcionam momentos de prazer extraordinários. Mas, quando o espectáculo se excede no aproveitamento da boa-vontade do espectador e baralha a realidade exterior às suas regras com a sua própria realidade, a sensação é bem diferente. O que acontece nestes casos é deprimente. E por muito elegante e pomposo que se apresente, não valoriza quem o produz.
A recente primeira edição da revista municipal de Caminha vai por aí. Um exercício notável de manipulação mágica de factos e acontecimentos para iludir um vazio estratégico evidente. Uma edição com uma excelente qualidade gráfica, sem dúvida. Com um forte sentido de comunicação global de pendor propagandístico extremo. Desde o tipo de imagens: é quase impossível abrir a revista em qualquer página sem depararmos com os rostos em poses de interessante fotogenia do nosso executivo municipal. Até aos títulos: cuidadosamente elaborados para nos convencer do quanto já mudou neste concelho graças ao saber, à competência e ao arrojo daqueles rostos que nos vão sorrindo ao longo da revista. Mas a realidade é bem diferente.
Esta câmara já percorreu mais de um terço do mandato que os caminhenses lhe confiaram em finais de 2001 na expectativa de uma mudança que melhorasse o futuro do concelho. E quais são as mudanças efectivas? As pessoas? Os protocolos? Os símbolos do concelho? O estilo de fazer política-espectáculo? A satisfação de pequenas vaidades? Um verdadeiro festival de superficialidades em que se mudam formas sem que se vislumbrem conteúdos substanciais. Um desfile de "doutores" na passarele da mediocridade, enquanto o concelho continua a mover-se, quando se move, ao sabor dos acasos conjunturais e dos caprichos de uns poucos.
Caminha continua sem uma estratégia de desenvolvimento. A verborreia das obras infraestruturantes, sem mais, é a resposta mágica de quem não sabe o que fazer, mas sabe o que dizer para iludir os problemas. Questões como a ponte sobre o rio Minho ou o parque industrial de Âncora, são opções óbvias para quem ? O concelho não deveria ter um enquadramento na identidade do seu desenvolvimento para estas situações ? Há quem pense que sim. E também há quem entenda que o fanatismo do cimento e alcatrão, dito infraestruturante, impõe em muitas cabeças uma única lógica de desenvolvimento, primária e uniformizadora, que inibe o concelho de Caminha de alimentar ambições diferentes, construídas a partir do que somos para aquilo que queremos ser. Assumidamente colectivas. Participadas por quantos possam e queiram. Com ousadia nos propósitos e humildade nos protagonismos.
Esta revista municipal é no meu entender, sob diversos aspectos, o corolário de um estilo de política-espectáculo em que este executivo camarário se tem mostrado intérprete entusiasmado. O critério de escolha de alguns temas e a conveniente omissão de outros ajustam o cenário. A realidade política do concelho é reconstruída, sem polémicas, harmonizada por uma ilusão de acções planeadas que, de facto, não o são. Resta-nos concordar com a presidente da câmara quando elogia a sua própria audácia. Resulta óbvia nesta revista. Já sobre a firmeza, de que fala também no seu editorial, temos, entre outras situações, demasiado presente a questão do IC1, que revela tudo menos isso. Pelo que não nos parece de todo. Mas isso fica para futura conversa.