Jornal Digital Regional
Nº 380: 8/14 Mar 08 (Semanal - Sábados)
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FERREIROS DEIXARAM UMA MARCA MADE IN
VILAR DE MOUROS

GEPPAV apresentou I Caderno do Património Vilarmourense

Fazendo coincidir o lançamento do 1º Caderno do Património Vilarmourense com o Almoço dos Reis, o Grupo de Estudo e Preservação do Património Vilarmourense (GEPPAV) conseguiu aliar num único dia, uma tradição profissional com "dimensão regional e nacional" com outra de carácter comunitário e lúdico - o Almoço dos Reis.

De manhã, nas antigas Oficinas Fontes, foi apresentada a obra "Ferreiros e serralheiros de Vilar de Mouros", fruto de um trabalho de pesquisa, investigação, recompilação e análise do trabalho dos ferreiros desde, pelo menos, finais do século XVIII, a cargo de quatro membros do GEPPAV.

Tota Fontes, Manuel do "Cabo" e outros antigos operários das oficinas Fontes e Torres marcaram presença no acto de divulgação deste primeiro caderno, entre máquinas e utensílios usados ou fabricados nestes dois alfobres de ferreiros e serralheiros vilarmourenses que simbolizaram as duas oficinas ao longo de alguns séculos.

PRODUTOS COM DIMENSÃO NACIONAL


Foto:GEPPAV

"É surpreendente a dimensão nacional e regional dos produtos aqui feitos", revelou Paulo Bento, um dos integrantes do grupo que esteve na génese desta obra a par de Joaquim Gonçalves, Plácido Souto e António Lages.

Ao efectuar a apresentação deste trabalho, Paulo Bento acentuou que não se encontra no concelho de Caminha nenhuma marca made in como a que surgiu nestas oficinas que exportaram as suas alfaias agrícolas para todo o país.

Os produtos postos no mercado nos dias de hoje, provenientes de todo o mundo numa sociedade globalizada, são bem diferentes dos daqueles tempos -não muito remotos.

Presentemente, "as coisas já não são feitas a este nível", provando-se, contudo, que a "excelência" também é possível em terras pequenas como a de Vilar de Mouros.

Foi este trabalho que os autores pretendem legar aos jovens e pessoas de hoje que serviu de mote à "aula" que este professor de História ministrou aos presentes, chamando a atenção para a necessidade de "guardar e preservar um mundo que está a acabar", perante a "vertiginosa mutação" a que se assiste actualmente.

"NOÇÃO INTEGRADA DO PASSADO"

Sónia Fernandes, presidente do CIRV, agradece o trabalho do GEPPAV

A musealização deste património constituído por duas oficinas próximas uma da outra seria o caminho a seguir, apontou este investigador a viver em Vilar de Mouros há pouco mais de uma década, lamentando o interregno verificado no campo das publicações regionais e da museologia no concelho de Caminha nos últimos 20 anos, depois de suspensa a revista Caminiana e iniciado o processo de constituição do Museu Municipal.

"Antes que desapareça tudo isto, há que passar a outros conceitos de preservação desta memória", sugeriu Paulo Bento, apelando aos "dinheiros públicos" dos impostos arrecadados aos contribuintes do concelho para que sejam investidos neste "desafio muito grande", caracterizado pelas duas oficinas e pelos seus dois últimos representantes de uma "dinastia" de ferreiros - "Totas" Fontes e Manual do "Cabo".

Entrando no livro propriamente dito, este membro do GEPPAV enfatizou a importância desta aldeia industrial no século XIX, em que além dos ferreiros, pontificavam a Fábrica de Cerâmica, serrações e engenhos e fornos da cal, a que não eram alheios a existência de um rio que atravessa Vilar de Mouros e a sua ponte.

Assinalou que nele se descreve o grande boom das duas oficinas nos anos 20 do século passado -aproveitando a chegada do comboio a Caminha e Lanhelas em 1878-, os Fontes com as suas alfaias agrícolas e os Torres com as ferramentas para estucadores, vendidas em todo o país e Galiza.

LNEC VEIO CÁ COMPRAR FERRAMENTAS

Como forma de dar relevo à fama que os produtos aqui forjados possuíam em todo o país, anunciou que descobriram entre a diversa documentação contabilística das oficinas, que o próprio Laboratório Nacional de Engenharia Civil encomendou ferramentas em Vilar de Mouros que utilizou nos seus trabalhos.

Paulo Bento aproveitou para agradecer em nome do GEPPAV o contributo de muitos para que esta obra pudesse ter sido publicada, não esquecendo o trabalho gráfico voluntário em prol da cultura local de Carlos Torre, bem como as entrevistas efectuadas com antigos ferreiros, como Ângelo Torres e Eduardo Gomes, o trabalhador mais antigo das oficinas falecido há um mês atrás.

Não esqueceu o apoio concedido pela Câmara Municipal e Junta de Freguesia e prometeu uma II Edição destes Cadernos do Património Vilarmourense para o próximo ano, porque "ainda há tanta coisa para trabalhar…"

"DÚVIDA LEGÍTIMA"

Da parte da Junta de Freguesia, pela voz de Carlos Alves, vieram palavras de apreço pelo trabalho desenvolvido pelo GEPPAV, embora tivesse havido muita "expectativa" quando foi criado há quatro anos atrás.

Muitos se interrogavam sobre se "iria dar frutos ou definharia ao fim de pouco tempo", dada a falta de recursos e apoios num país "em que se esbanja dinheiro no supérfulo para escassear no que é mais importante", pese embora "todos reconhecêssemos a necessidade de tal grupo", admitiu o autarca.

Afirmou que a autarquia vilarmourense sempre acreditou nas capacidades destes "quatro mosqueteiros de antes quebrar que torcer", cooperando com eles, destacando, contudo, o papel de Paulo Bento, um vilarmourense por adopção e que "já fez mais por esta terra do que muitos de nós em toda a vida", admitiu.

Citou como exemplos o seu contributo na edição da obra dedicada ao arquitecto José Porto e na contestação à obra do IC1, pelo que a Junta "nunca duvidou da sua capacidade de liderança".

Carlos Alves considerou "de toda a oportunidade e justiça" o trabalho de recolha desta indústria vilarmourense, agora espelhado em livro, quer pela importância que ela representou para a aldeia, quer por se tornar numa forma de homenagem aos trabalhadores que passaram pelas oficinas.

Comungou da ideia de ser importante preservar o património, muito embora tema que ele se perca, tal como o próprio GEPPAV refere, daí a importância da existência destes grupos, referindo que "só conhecendo o passado conseguiremos saber quem somos e construir o futuro".

Antes de prometer continuar a apoiar o GEPPAV, mostrou-se seguro que o lançamento desta obra "foi o começo de um longo processo repleto de êxitos", na divulgação de um passado no qual Vilar de Mouros se revê.

Apelou ainda à Câmara para que apoie estas iniciativas, face às incapacidades financeiras que assistem à Junta.

"HÁ MUITO PARA FAZER"

Da parte da Câmara, representada pelo vereador da cultura Paulo Pereira, apenas foi assegurado que o projecto de constituição de um núcleo museológico dos ferreiros não está esquecido, "apenas aguardando a sua vez", registando que o assunto "não está esquecido mas envolve muito dinheiro".

Saudou o GEPPAV e expressou a sua "enorme satisfação" por estar presente no "início de uma colecção de cadernos", cujo primeira publicação foi dedicada aos ferreiros -uma marca de Vilar de Mouros, salientou.

Totas Fontes entrevistado pelo GEPPAV
Foto:GEPPAV

"Sem este trabalho e registo, este património perde-se", sublinhou o autarca, admitindo que "acompanhei o trabalho voluntário desenvolvido" pelos seus elementos, conforme o ia pondo ao corrente Plácido Souto, elemento do GEPPAV e que denotava "orgulho" naquilo que tinham entre mãos.

Após admitir que a Câmara se encontra "sensível para a questão do património" e reconhecer que "há muito trabalho a fazer", competindo à autarquia acompanhar este tema, deu como exemplos as aquisições das casas de Ventura Terra e Sidónio Pais e o próprio Cine-Teatro Valadares e a recuperação da Torre do relógio já em curso, de modo a criar aí um núcleo museológico.

"Queremos mais cadernos", afirmou Paulo Pereira, fazendo votos para que todos tenham acesso a este trabalho sobre o património vilarmourense, terminando a sua alocução com uma felicitação ao GEPPAV pela iniciativa e prometendo o apoio camarário.

"ALDEIA DE GENTE LABORIOSA"

Esteve também presente neste lançamento do livro, Pita Guerreiro, governador civil de Viana do Castelo, filho de um vilarmourense e ele próprio frequentador habitual das oficinas quando ainda criança e ligado "por relações afectiva fortes a Vilar de Mouros".

Recordou o carácter "afável e educado" que todos os ferreiros com quem privou revelavam, tendo palavras de congratulação pela iniciativa do GEPPAV.

Aludiu inicialmente à facilidade de comunicação existente nos dias de hoje, e como forma de fazer frente a esta globalização crescente, apontou o exemplo do GEPPAV ao "assegurar a especificidade da sua comunidade, porque é o seu património que o distingue dos outros", numa tentativa de "sabermos quem somos, de onde viemos e para onde queremos ir".

Também felicitou o grupo pelo seu labor voluntário -não há aqui interesses monetários", sublinhou-, existindo sim "uma grande consciência cívica pelo trabalho que estão a desenvolver", no seguimento, aliás, do voluntarismo de "muita gente que fez o mesmo no passado em estreita colaboração com a Câmara Municipal, cuja justiça a história se encarregará de fazer".

Incentivou este grupo de vilarmourenses a não desistir, porque a importância dos ferreiros "extravasou as fronteiras do próprio concelho devido à qualidade dos artistas que aqui trabalhavam o ferro como ninguém, embora com grande esforço físico, porque fazê-lo naquelas condições da época era duro".

Apontou às gerações mais novas estes exemplos a seguir, "pois só com muito esforço conseguimos atingir os objectivos", porque, aduziu, "o país precisa disto e só interiorizando que conseguiremos sair da cauda da Comunidade Europeia é que o faremos", rejeitando a ideia de o conseguir "com medidas avulsas, com subsídios ou outros apoios do Estado, da União Europeia ou das autarquias".

Não deixou, contudo, de pedir uma reflexão à autarquia no apoio a conceder a estas iniciativas, já que essa é uma das suas competências, nomeadamente a criação de um núcleo museológico dedicado aos ferreiros.

Não prometeu apoios financeiros da parte do Governo Civil, dado não possuir verbas pata tal, mas garantiu a aquisição de alguns cadernos.

Destacou finalmente que a presença de tão elevado número de pessoas neste lançamento representava o "interesse e preocupação pelas questões culturais"

O LIVRO ESTÁ À VENDA NA:
- Livraria Pára e Lê, em Vila Praia de Âncora
- Tabacaria Gomes, em Caminha
- Tabacaria Atenas, em Caminha
- Café Central, em Vilar de Mouros

ROTA DOS LAGARES DE AZEITE DO RIO ÂNCORA
Autor
Joaquim Vasconcelos
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