Três pescadores de Vila Praia de Âncora dizem ter sido espancados por um polícia marítimo à paisana ao princípio da madrugada da passada Quinta-feira, junto ao pontão flutuante da foz do rio Minho, depois de regressarem de mais uma noite de pesca da lampreia.
Segundo nos relataram, enquanto que dois pescadores procediam à amarração dos dois barcos nos locais habituais, com recurso a um pequeno bote habitualmente utilizado para esse efeito, outros dois companheiros aguardavam-nos em terra junto a uma carrinha onde guardaram as redes, quando foram abordados pelo agente marítimo, perguntando pelo dono da viatura e exigindo os documentos, "sem que se identificasse", precisou Jonas Santos, um dos agredidos.
Entretanto, chegados a terra os outros dois pescadores, foram avisados de que havia problemas com o polícia, o qual já retirara uma rede lampreeira de dentro da carrinha, tendo um deles voltado a repô-la na mesma viatura, alegando que ninguém lhe tinha pedido autorização para tal, "levando então a primeira cacetada", contou o pescador.
A confusão ter-se-á instalado, com mais agressões a outros dois pescadores da mesma família, dizem, tendo surgido outros dois agentes fardados que se terão interposto na tentativa de evitar males maiores, segundo relatou Jonas Santos.
Dirigiram-se depois para o posto da Polícia Marítima a fim de serem identificados, mas "ele continuou a insultar-nos e tentando agredir-me novamente com o bastão e então fugi", prosseguiu Jonas Santos, referindo ainda que no interior das instalações terá "agredido o Carlos Alberto", outro dos pescadores ancorenses.
Foi chamada a GNR e os Bombeiros de Caminha que transportaram os três feridos para o Centro de Saúde de Caminha e, mais tarde, receberam assistência no Hospital de Viana do Castelo, sendo dois dos feridos suturados com sete pontos no couro cabeludo.
"Já comigo dentro da ambulância, o polícia arredou um bombeiro e tentou algemar-me", acusou Jonas Santos, estupefacto com a actuação do polícia marítimo.
Os pescadores ainda pediram que fosse feito o teste de alcoolemia ao agente de autoridade mas sem sucesso, rematou Jonas Santos.
Contudo, a versão da Capitania de Caminha de quem a Polícia Marítima depende, não é igual à dos pescadores.
O comandante João Cabeças referiu-nos que este agente à civil e mais quatro colegas procediam à fiscalização das margens, dado que tinham informações sobre a possibilidade de haver pescadores a apanharem ilegalmente meixões nessa noite, depois da safra desta época já ter finalizado.
Tinha surgido uma petição da Associação de Pescadores do Rio Minho e Mar para que fosse concedida mais esta lua, mas que não mereceu a aprovação da Capitania.
Entretanto, a Polícia Marítima tinha vindo a proceder ao levantamento de todas as redes de meixões ainda existentes na beirada do rio ou no interior dos barcos, de acordo com legislação que concede um prazo para que os seus proprietários, voluntariamente, as guardem.
Segundo o relato da Polícia Marítima, tudo se deveu a que o polícia terá visto os pescadores a mexer numa moto quatro da Polícia Marítima estacionada no local -o que estes negam-, tendo-os abordado e pedido que se identificassem e apresentassem os documentos da carrinha, tendo um deles agredido o agente "numa mão", tentando ainda agarrá-lo por detrás, daí resultando a reacção do polícia na tentativa de se defender e o consequente levantamento de um auto "por desrespeito da autoridade" e apreendida a carrinha, a qual foi devolvida na manhã seguinte.
João Cabeças afirmou ainda tratar-se de "um crime público", tendo sido remetido o caso para o Ministério Público que ouviu os pescadores nesse mesmo dia, constituindo-os arguidos.