A propósito da insegurança, tantas vezes referida na comunicação social, tivemos recentemente um episódio grotesco com a destruição do cemitério de Âncora. Distanciado das habitações, pela calada da noite mais de duzentas sepulturas foram barbaramente vandalizadas.
Que motivação poderá ter o autor de semelhante "obra", se atendermos que foi o acto de uma pessoa só, o que até me custa a acreditar. Será loucura, fanatismo, crendice ou apenas uma fúria destruidora que nada respeita?
Mas a insegurança, outrora urbana, hoje disseminada um pouco por todo o pais, continua a aumentar, apesar de estatísticas bem elaboradas nos quererem convencer do contrário.
Também é certo que a comunicação social está hoje mais atenta que antigamente, tem outros meios e sabe explorar o filão da desgraça alheia como ninguém. Hoje tudo o que seja noticia tipo "faca e alguidar" ou "homem a morder o cão" tem de imediato honras de primeira página, abertura de telejornal ou edição especial. Enfim!...
Voltando à questão da insegurança, que é a meu ver um cancro moderno que corrói (a par da corrupção) o velho conceito de democracia em liberdade e que suscita verdadeiras paixões nas discussões intermináveis desde o 25 de Abril. É curiosa a forma como a esquerda e a direita analisam a situação com argumentos mais ou menos poeirentos e com soluções que (pelos vistos) não dão resultados palpáveis.
Para a esquerda trata-se de uma questão de injustiça social. Ao semear desigualdade e desespero, a nossa sociedade vê-se a braços com o seu corolário inevitável, a delinquência. Por isso advoga que é sobre a raiz do problema que é preciso actuar. Por outras palavras, é preciso diminuir as desigualdades económicas e sociais. Liquidada a miséria, geradora de violência desaparece o agressor e a agressão. Algo semelhante dizia Brecht: "a violência da corrente é proporcional à violência das margens que a encurralam".
Para a direita o mal está na abstracção e no laxismo das políticas de segurança. Uma legislação insuficientemente repressiva deixando impune a quase totalidade dos delinquentes, incitando-os a continuar, em vez de os dissuadir. Em paralelo, as forças policiais desmoralizam e desmotivam sendo frequentemente interrogadas sobre a proporcionalidade da força utilizada, os meios envolvidos e os direitos dos (alegados) delinquentes.
A bolorenta bandeira da xenofobia também não é esquecida pela direita, com laivos (discretos) de racismo sempre pronto para encontrar um bode expiatório: o negro, o cigano, recentemente os europeus do leste e à falta do clássico judeu de serviço, serve o brasileiro.
Outro caminho será, sem duvida o do neoliberalismo económico, base e sustento doutrinário do mercado global que apenas nos tem conduzido para uma civilização cada vez mais policiada, cujo propósito último é defender uma minoria cada vez mais privilegiada contra uma maioria cada vez maior de desfavorecidos.
A repressão não acaba com a miséria, apenas consegue disfarçar as suas manifestações superficiais e fomentar formas mais complexas e profundas de violência. Os gangs organizados e as máfias nas grandes metrópoles do Terceiro Mundo são exemplo disso.
Porém, este discurso, em Portugal ou além fronteiras, colhe junto da opinião pública e reconforta o sentimento de raiva e de impotência das vítimas da violência. Porque essas vítimas existem, estão por aí, sobretudo mulheres e idosos que mostram as suas cicatrizes e as suas carteiras vazias, a humilhação do esticão de rua, o roubo da viatura na ponta da navalha.
Valerá a pena fazer de conta que isto não existe? Valerá a pena invocar com paternalismo a falta de esclarecimento e até ignorância do "povão"?
O cidadão abdicou de garantir a sua segurança pessoal a favor do Estado apenas com a condição de ser ele a assegurar. E na verdade o Estado não está a cumprir esse compromisso. Nem ontem nem hoje, seja com o mosaico das direitas ou com a esquerda no poder. A diferença é que a direita pensa poder corrigir o lapso à cacetada, só isso.
Na origem deste impasse está a dicotomia ideológica, já pertença da história. Não é à cacetada que se estabelece a justiça social, mas também não há justiça social que resista à insegurança. Sob pena de ineficácia, como provou estes últimos trinta anos, é preciso atacar a causa e a consequência.
As duas, em simultâneo. Tratar de uma ou de outra separadamente pode (temporariamente) alimentar o discurso demagógico dos políticos, mas não conduz certamente à segurança.
Perguntem aos Ancorenses que viram os jazigos de família serem vandalizados.