De pouco valeu a luta de quatro anos das populações, autarquias e ambientalistas, contra a construção da ligação do IC1 desde Vilar de Mouros até Gondarém, junto à EN13, atravessando Lanhelas.
As máquinas começaram a actuar no passado dia 3, em Gouvim, Gondarém, dando-se início a uma obra que registou um dos mais fortes processos de contestação verificados em Portugal.
O Ministério das Obras Públicas, através do Instituto de Estradas, tinha emitido no último dia da passada semana a competente licença de construção da estrada, através da qual foi possível ao consórcio da Euroscut arrancar com os trabalhos, após esforçadas pressões sobre o Governo para que o processo se desbloqueasse.
Recorde-se que o Governo aprovara o traçado da ligação há cerca de cinco meses.
"Estamos muito desalentados com este desfecho", lamentou José Gualdino, presidente da Corema, após ter acreditado que "vivíamos num país civilizado, onde os valores culturais, as pessoas e o ambiente contassem, por cima de interesses económicos".
Este dirigente associativo considera que "se aprovou um crime ambiental, patrimonial e social inqualificável", além de serem "mais que duvidosas as vantagens inerentes, quando se sabe que a A28 vai ser prolongada até Valença".
JUNTA E COREMA DESACOMPANHADAS
Acrescentou que se está a "delapidar o erário público, com uma obra inútil, numa altura em que o país está numa situação económica conhecida de todos", além de tecer críticas à comunidade científica, designadamente à Universidade do Minho e aos Serviços de Arqueologia que "nunca se dignaram vir ao local e falar connosco" sobre as gravuras rupestres, apesar de toda a informação encaminhada.
O património arqueológico vai ficar "praticamente aniquilado" assegurou o ambientalista, ao receber "impactos directos e indirectos que atingirão toda a zona envolvente", pondo em causa qualquer projecto de musealização.
Referiu que uma providência cautelar interposta no Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga a 1 de Junho, tentando impedir a obra, por "ser ilegal, ao ter sido aprovado um projecto novo sem discussão pública", ainda não teve decisão, "apesar de ter um carácter de urgência".
"É UMA ILEGALIDADE"
José Gualdino adiantou ainda que o Tribunal, "estranhamente", ainda vai ouvir testemunhas, "quando o que está em causa é uma questão de legalidade".
Reafirmou que a situação é ilegal, dado que se está perante um projecto novo, "sem ter sido submetido a discussão pública, nem feito um novo relatório de conformidade ambiental do projecto de execução".
Apesar desta situação, a Corema promete ir "esgotar todos os mecanismos legais e continuar a denunciar isto perante a comunicação social, para que se conheça o atentado gravíssimo que foi cometido aqui" e a opinião pública "julgue a actuação miserável do Ministério da Cultura", nomeadamente o IPPAR e IPA que "tiveram a faca e o queijo na mão para decidir ou não da construção desta via".
A estrada terá 5 km, um túnel falso de 480 metros, uma rotunda e viadutos no entroncamento com a EN13, duas vias no sentido descendente e três no ascendente e ficará concluída dentro de um ano.