Vão comer pães com manteiga à qual adicionam canela, acompanhados do inseparável copo de vinho branco, mantendo uma tradição que remonta, no mínimo, aos princípios do século passado.
Segundo nos revelou Luís Rego Fernandes, descendente de uma família ligada ao ramo da panificação, a origem da expressão popular "alminhas de merda" dada às sêmeas que seu pai vendia nos anos 30, barradas com manteiga "feita à mão por habitantes da Serra d'Arga", terá resultado da própria data (Dia de Todos os Santos).
Na véspera do dia 1 de Novembro, os agricultores da Serra d'Arga desciam até à vila a fim de venderem os seus produtos (trazendo a manteiga) na Feira de Todos os Santos, abrigando-se durante a noite na padaria situada paredes meias com a Cova da Onça, dormindo junto ao forno, sobre a gravanha utilizada na cozedura do pão.
Pelas quatro horas da madrugada, logo que saíam as primeiras fornadas de sêmeas (equivalentes a cinco pães), começavam a comê-las repletas de manteiga, servindo-se dos pipos de vinho da taberna situada ao lado, à qual tinham acesso directo através de um arco que a unia à padaria.
De madrugada, regressavam por essa quelha as pessoas que tinham passado a noite a velar os mortos no cemitério, trazendo consigo candeeiros acesos e ao serem avistadas por alguns dos que se encontravam na padaria, terão originado algum temor e alguém exclamara que eram "alminhas", logo aproveitado por outro para parodiar a situação, dizendo que eram "alminhas…mas de merda", daí resultando a denominação que se manteve até aos nossos dias.
José Torres e Manuel Presa, ambos de Vila Praia de Âncora, vêm à feira todos os anos e "damos sempre cá um salto", realçando o primeiro, um antigo serralheiro, que "só falhei uma vez porque estive doente e, noutra ocasião, avariou-se a motorizada e pedi boleia para não faltar", apenas não concordando com o nome dado ao petisco matinal, "num dia santo como este!".
Outros três amigos de V.P.Âncora, Alcides Amorim, Cesário Lagido (ambos prestes a cumprir 90 anos) e Armando Rachão marcam presença anual na típica Cova da Onça.
"Desde os 8 anos que frequento esta casa", referiu o primeiro, quando vinha à missa das 10, na Capela da Misericórdia, acompanhado de seu pai e bebia sempre um golinho de branco, porque "às crianças e aos padres, dá-se meio copinho abafado…"
Alcides Amorim reconheceu que o pão (do tamanho de duas carcaças) e a manteiga actuais não são tão bons como quando eram feitos artesanalmente, numa época em que se gastava uma arroba (!) de manteiga, conforme recordou Isabel Ribeiro, viúva de outro dos proprietários da padaria/taberna - o João da Cova da Onça.
Este ano, o forno eléctrico desta casa de pasto, não dava vazão às encomendas…em dia de casa cheia, em que a tradição é quem manda.