|
| ![]() |
|||||||
![]() |
CINE-TEATRO VALADARES CONCENTROU DURANTE DÉCADAS OS FOLGUEDOS DO CARNAVAL
Sucessivas gerações de caminhenses tiveram como ponto de referência no período do Entrudo, o centenário edifício do Cine-Teatro Valadares, que durante décadas albergou os mais famosos bailes de Carnaval do Alto Minho. Cegadas, máscaras, partidas de Carnaval, sacos e sacos de confétis e serpentinas, balaio, expressões como "no Entrudo passa tudo" "assalto", "tabela", "joelho queimado", "damas de chicote", "dominó", faziam parte de um universo hilariante nesses momentos de diversão sem barreiras que Caminha soube preservar, mesmo antes do aparecimento do "Valadares" mas que acabou por se tornar no símbolo dos folguedos do Entrudo.
Encerrado há vinte anos, anseia-se agora pelo projecto de reabilitação que correrá a cargo da Câmara de Caminha, após a sua aquisição no decorrer do período pré-eleitoral autárquico do ano findo. Pedimos a alguns dos mais entusiastas do Carnaval caminhense que recordassem o ambiente vivido nesses dias de verdadeiro "escape" festivo, após um ano de severa contenção nas manifestações sociais e recreativas. Um sorriso de saudade aflorou nos lábios de todos eles, quando lhes propusemos recuperar do baú da memória, alguns dos momentos inesquecíveis das suas vidas, quando o "Valadares" repleto de balões, serpentinas, confétis e demais decoração colorida, se apinhava de gente proveniente de todo o Minho, em que aquela mole humana compacta "mais pulava para cima e para baixo do que dançava, pois não havia espaço para mais nada", como citou João Manuel Santos, um dos entrevistados pelo C@2000.
Víctor Terleira:
"…Em 1959,tinha eu 18 anos, quando eu e o João Cláudio Silva, num baile de Carnaval, fomos abordados pelo já falecido guarda Arnaldo, que nos ordenou que nos vestíssemos, casa contrário dava-nos ordem de prisão. Resumidamente e concluindo: Eu e o Cláudio andávamos nus, apenas vestidos com os dominós. Mas não fomos presos." …Noutra altura, vestimos umas ceroulas abertas, mas ao contrário…com a carcela para trás. ...Mas a melhor de todas, foi num Sábado de Carnaval, em que me mascarei com uma farda pertencente ao Fernando Reis quando ele esteve na tropa em Moçambique e que a minha tia Rosa me emprestou. Vim para o Terreiro fardado e a determinada altura, junto do Chafariz, chega o cabo Crispim (mais conhecido por "Mau-Mau") à minha beira e dá-me ordem de prisão. Gerou-se uma confusão dos diabos e a determinada altura raspei-me e fugi, livrando-me de ir para a cadeia. ...Recordo ainda os bailes de assalto ou da tabela no sábado à noite e os de Terça-feira. Nestes, aparecia de tudo e o melhor é nem falar neles. Recordo que numa altura, estava a ver dançar e noto uma mão na frente - e não vou agora dizer o sítio -, reparando então que era o S..... que já tinha dado uma volta ao palco a apalpar o cú a uma gaja… e que provavelmente se enganara comigo. Num ano, até metemos um pipo de vinho lá dentro. ...Numa altura, eu fazia parte de uma comissão organizadora do Baile de Assalto composta por mim pelo João Cláudio, António Cepa e Carlos Nascimento e contratámos uns músicos de Guimarães mas não chegaram cá a horas e tivemos de dar saída àquilo. Acabou por seu um baile fantástico, porque entre os convidados encontravam-se o Ruy Valença, o Noya e creio que também o Végar, todos músicos, arranjando-se ali uma orquestra que foi um sucesso até de madrugada. ...Mas a animação destes bailes era fantástica. Recordo aqui com muita saudade pessoas como o Jorge Saraiva, o Abel Lopes, a Fatinha do Alípio.
Fernanda Barreiros:
"…Ai, o "Valadares"! Que saudades que eu tenho do "Valadares"! Se ainda houvesse hoje "Valadares", eu ia ao baile de máscaras… …Para mim, ainda hoje, o Carnaval é a melhor festa do ano. E quando ainda vejo a minha nora e o meu filho a irem disfarçados, fico aqui com um nó…de não ir com eles, mas tenho medo de os deixar ficar mal. ...Eu ia sempre ao Baile de Assalto, mascarada, vestida de preferência com um dominó e nunca tirava a máscara. Mais tarde, arranjei umas vestimentas muito boas que as Vitais me emprestaram. ...Mesmo depois de casada, íamos aos bailes de assalto. Numa altura, dancei muito com o Pedra mais novo, amigo do meu filho a quem lhe pedi depois para lhe perguntar se eu dançava bem. Ele ficou muito espantado e disse-lhe "como é que vou saber se a tua mãe dança bem?!". Então o meu filho perguntou-lhe se ele não tinha perguntado à máscara se não era a "tal" - uma rapariga de Vilarelho, pensava ele -, tendo então associado esse pormenor com a pergunta do meu filho e ficou muito envergonhado por ter andado a dançar comigo. …Noutra altura fui buscar para dançar o professor do meu filho e disse-lhe que era aluna dele, mas só tiraria a máscara quando me fosse embora. O meu filho, quando passava por mim, dizia-me: "Oh mãe, se o professor soubesse que andava a dançar com uma velha, ia-se já embora para casa!". ...Recordo que vinham rapazes de Viana do Castelo e Póvoa de Varzim para estes bailes e a minha mãe não queria deixar-me ir mas o sr. Lino (Comandante dos Bombeiros) disse-lhe que eu iria integrada num grupo muito grande de máscaras e que ela poderia ficaria num camarote a ver o baile. Mas chegada a meia-noite, a minha mãe começava a tentar fazer-me sinal para me ir embora e a Linda do Luís Matos avisava-me, pelo que eu lhe pedia para não olhar para cima e assim ficava mais umas duas horas. …Os bailes de assalto de Caminha tinham ganho fama em todo o lado e vinham rapazes de toda a parte, e até me recordo que numa ocasião, estava cá um grupo de raparigas de Coimbra. ...Noutra ocasião fui meter-me com um grupo de estudantes de Coimbra e eles só me pediam para que tirasse a máscara para me identificarem, respondendo-lhes que não o fazia porque tinha vindo de Coimbra, levando-os a comentarem entre si: "Eu não vos dizia que ela era de Coimbra…", acreditando que eu era universitária. ...O "Camões", por exemplo, estava sempre a dar-me empurrões e a dizer-me: "Vai-te embora, porque eu não danço com homens!". …E a meio da noite ia-se comer e beber aos camarotes, para onde eram levados os farnéis, embora houvesse alguns grupos que viessem comer ao João Ratão ou ao Daniel Carneiro.
Carlos Fernandes (Nascimento)
"…Eram ranchos (cegadas) enormes, com cerca de 200 pessoas mascaradas que se juntavam cá fora, no Terreiro, entravámos nos cafés e, depois, íamos todos para o bailarico. Bastava começarmos a contactar as pessoas uma a uma pelas ruas, designadamente pela R. dos Pescadores, e já apareciam todas. ...Vinha gente do Porto, de Guimarães, Felgueiras aos bailes de Caminha, muitos deles organizados por mim, pelo Terleira e o Henrique Costa. ...Ainda me recordo que numa ocasião, ainda solteiro, me atirei de um camarote abaixo, mas não me recordo quem fez o mesmo e, doutra vez, fui de cuecas com o cú à mostra, numa terça-feira de Carnaval. ...A festa, a diversão, a camaradagem, o respeito, eram o segredo do êxito dos Carnavais de Caminha. ...Uma das curiosidades destes bailes de máscaras, eram as tentativas dos mirones em descobrirem a identificação das máscaras e quando as mulheres casadas iam buscar os homens que esperavam de pé nas partes laterais do salão e estes as topavam, diziam logo: "Olha, outra do joelho queimado!". Eu e o Lima, dono do teatro, "matávamos" quase todas as pessoas mascaradas, devido à forma como dançavam e se divertiam. ...A contratação de conjuntos muito caros e a opção da malta nova pelas discotecas, contribuíram para o fim dos bailes de Carnaval, mas gostaria que os bailes regressassem, um dia.
João Manuel Santos:
"…A partir de 21 de Janeiro já começávamos a sair mascarados aos fins de semana, à noite, visitando os bares e entrando em algumas casas e, por altura do Domingo magro (Sábado), realizavam-se grandes cegadas, com mais de 100 pessoas, compostas em grande parte por mascarados da R. dos Pescadores e que se vestiam numa antiga fábrica do Daniel Carneiro, na R. Barão de S. Roque, em que os principais animadores eram, além do dono da indústria, o Jorge Saraiva e o Abel Lopes. ...Uma das coisas engraçadas foi a Ida à Lua, um desfile carnavalesco que percorreu a vila e, chegado ao Terreiro, foi lançado o foguetão com o fogo de artifício que eu próprio fui buscar a Lanhelas. ...Numa dessas cegadas, levamos uma banheira e baldes de água e pusemo-nos a dar mergulhos para a "piscina" no Bar do João e molhando o falecido sr. Pestana, que trabalhava no Tribunal, o que provocou fortes protestos da sua parte. ...No próprio Domingo Magro, realizava-se o primeiro baile no "Valadares" e já era de arromba. A partir daí, quase todos os dias havia saídas de máscaras à noite, até ao Sábado de Carnaval, em que o "Valadares" se enchia no Baile da Tabela e também era habitual haver zaragatas com os de Viana. ...Os balaios não faltavam e a meio da noite havia pic-nics desde a parte de trás dos balcões, passando pelos camarotes até à geral. ....No Domingo Gordo havia outro baile fantástico à tarde e, à noite, as máscaras enchiam a vila. Na Segunda-feira, realizava-se o baile na Assembleia Caminhense, terminando com mais dois na Terça-feira à tarde e à noite no "Valadares". ....Este ambiente carnavalesco já vinha do século XIX, quando se realizavam bailes afamados em certas casas de Caminha e corsos em que as pessoas chegavam a ir para cima da Torre do Relógio atirar confétis e serpentinas, como a minha mãe me contava. ...O último baile que se realizou no "Valadares", foi, salvo erro, em 1985, organizado pelo Daniel Carneiro e pelo filho, em que à meia noite se foi buscar as mesas repletas de comida à casa do Toné, correspondendo às multas que cada uma tinha de pagar. ...O Carnaval morre em Caminha por duas razões: A extinção do Cine-teatro Valadares - a catedral do Carnaval de Caminha - e a influência das discotecas. Uma maior facilidade de deslocação dos mais jovens possuidores de automóveis, levaram-nos para outras paragens assim como o aparecimento da televisão contribuíu para o enfraquecimento do Carnaval. Há agora outro ambiente, embora a Segunda-feira na R. Direita tenha muita animação. (Seu pai, Domingos Santos, em meados dos anos 30, participou pela primeira vez num baile de Sábado, no Cine-teatro Valadares, disfarçado apenas com uma pele de carneiro que estava a fazer de tapete na casa de uma tia dos Menezes que morou na Calçada de Stº António, e de tal maneira se transfigurou apesar de ir com a cara destapada, que um colega dele, José Augusto Ramos, não o reconheceu).
Sebastião José Torres:
...Não poderia falar no Carnaval no "Valadares", sem evocar os meus camaradas já precocemente desaparecidos, com quem integrei o conjunto "Akuarup" que actuou nos Bailes de Carnaval de Caminha, em meados dos anos 70. ...Mais do que a qualidade musical do conjunto, o importante era o ritmo, constando do nosso repertório muita música latino-americana, música espanhola por influência das orquestras do país vizinho e rapsódias brasileiras que atravessaram gerações. ...Até espontâneos vinham tocar connosco, recordo aqui o também desaparecido Luís Agostinho, que chegou a tocar nos teclados.
...O ambiente que se vivia em Caminha por alturas do Carnaval, ia para além dos próprios bailes a abrangia todas as classes sociais, podendo mesmo dizer-se que era transversal à sociedade caminhense. ...Havia uma grande participação popular que se manteve após o 25 de Abril e só esmoreceu devido a modificações sociológicas. ...Nunca mais esquecerei um episódio que aconteceu com o nosso grupo, quando após a conclusão do Baile de Assalto em que fora contratado outra orquestra, e nos preparávamos para montar a nossa aparelhagem, a fim de a deixarmos pronta para o baile de Domingo à tarde, o qual seria animado pelo "Akuarup", e vêm até junto de nós o Carlos Barros e o Toné e nos pedem para retomarmos o baile de Sábado, porque tinha acabado muito cedo. Assim foi, e tocámos até de madrugada…quase em sessão contínua. ...Também participei em algumas saídas de máscaras, desde o pátio da antiga Escola Primária de Caminha e da casa do Zé da Fana e recordo também que se chegaram a realizar Bailes de Micareme. ...Como estava tanta gente no salão, só se dançava na vertical. Isto é: apenas pulavam. (Se os leitores do C@2000 quiserem dar mais algumas achegas - incluindo fotos - sobre os carnavais no Valadares, poderão enviá-las por Email, a fim de as publicarmos).
|
|
![]() |