Jornal Digital Regional
Nº 278: 25 Fev a 3 Mar 06 (Semanal - Sábados)
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QUAL É O DISPARATE QUE SE SEGUE?!...

Afinal a segurança da navegabilidade que se pretendia criar, para os pescadores de Vila Praia de Âncora, não foi assegurada com as obras de ampliação do portinho. Parece mesmo que a natureza se revoltou e no final do mês de Janeiro, um barco de pesca encalhou à entrada desse porto de abrigo.

O assoreamento da entrada deste porto de abrigo teve início desde a construção da sua ampliação. O desconhecimento da dinâmica costeira, quer natural quer a resultante das acções antrópicas, assumida pelos próprios empreendedores, obrigou-os a fazerem novos estudos. Contudo, a comunidade científica e ambientalistas referiam na altura da análise publica do EIA das obras do portinho que aquele:

"Não permite formular, com um mínimo de confiança, a previsão das mudanças que vão, seguramente ocorrer no segmento costeiro, quer provocadas pelos processos naturais (globais ou não), quer como resposta às perturbações provocadas pela introdução de uma estrutura portuária, como aquela a que o EIA, em causa, se refere".

Aqueles pareceres não satisfaziam as pretensões e objectivos, de quem considerou que não passavam de uma provocação aos interesses dos pescadores de Vila Praia de Ancora. No entanto a "cegueira" era tanta, que se gastaram 2,5 milhões de contos, e não solucionaram o problema dos pescadores. Embora as opiniões não fossem unânimes havia uma preocupação muito grande com a autorização da construção deste empreendimento, naquele local.

Uns referiam que iria originar o emagrecimento da praia, outros que o EIA não permitia formular, com o mínimo de confiança, a previsão das mudanças que iriam seguramente ocorrer no segmento costeiro, quer originadas pelos processos naturais, quer devido às respostas das perturbações provocadas pela introdução de uma estrutura portuária, e outros consideravam que não deveria ser aprovada a construção do porto de abrigo, no caso de tais estudos apontarem para a existência de riscos consideráveis de destruição do cordão dunar.

Mas a obra fez-se e as consequências estão à vista de todos, porque as variáveis adoptadas, não podem ser aleatórias para se atingir resultados credíveis, com computadores ou sem eles. O resultado traduziu-se no emagrecimento da praia (neste momento o reequilíbrio parece ter sido reposto), e com o assoreamento da praia junto à foz do rio e da entrada do Porto de mar, criaram-se novas situações de muito perigo para os pescadores.

Os alertas na altura de implementação da obra, originaram uma apresentação pública por parte dos responsáveis do projecto, de forma a acalmar a classe piscatória, com as garantias, de que tudo estava "sobre controle".

A comunicação social, sintetizava as abordagens que eram feitas por parte da comunidade científica e dos ambientalistas, aos grupos políticos, ao Ministério do Ambiente, bem como à própria Comissão Europeia. A Comissão Europeia ainda pediu explicações sobre as obras do Portinho ao Governo, no entanto, os possíveis argumentos utilizados satisfizeram a comunidade europeia e o portinho avançou… E agora, bem agora, as coisas continuam a acontecer, mesmo depois de se ter gasto uma "pipa de dinheiro".

Um trabalho destes, que devia ter sido planeado ao mínimo do pormenor, limitou-se a alguns estudos, insuficientes, porque agora referem que estão a decorrer análises "mais abrangentes" que conduzam a uma intervenção mais correcta para encontrar soluções para minimizar esse assoreamento.

Actualmente, os responsáveis, procuram soluções para minimizar o assoreamento do portinho, sendo uma das hipóteses a execução de dragagens contínuas, o que inviabilizará economicamente o empreendimento. E depois vão surgir os efeitos colaterais, que serão potenciados com o tipo de acção que vai ser adoptado, para evitar o assoreamento do portinho de Âncora.

No fundo as tomadas de posição da comunidade científica e ambientalista deste País, demonstrou, que por não estarem à procura de "tachos", nem se enquadrarem com o tráfico de influências, os seus pareceres já previam quase tudo o que tem acontecido.

Agora pergunta-se pelos responsáveis que garantiam que nada disto iria acontecer?...

Como vivemos num país em que a culpa morre sempre solteira e onde se pagam "rios de dinheiro" a gabinetes, para tornar credíveis certos projectos, pouco mais podemos dizer, a não ser lamentar certas afirmações que se fizeram.

Conclui-se que, de facto, a comunidade científica não está a soldo do poder político, e por isso alertou os responsáveis do que iria suceder, demonstrando uma atitude consciente das responsabilidades que possuem. Estas obras que estão afectar o erário público, demonstram que é a gestão politica está a agravar a economia nacional.

Mas, como tantas vezes foi dito neste jornal, parece não ter havido ninguém, dos responsáveis da obra, que tivesse acreditado que a natureza não tinha nem cor politica, nem estava sujeita a tráficos de influência. Talvez por isso, o resultado dos trabalhos, tecnicamente analisados e devidamente justificados, aconteceram porque os responsáveis não estiveram disposto abdicar da sua opinião, dando origem a uma área assoreada na entrada do portinho, tornando-o extremamente perigoso.

A situação, que se foi agravando desde a conclusão do referido porto, tornou-se de tal maneira perigosa que obrigou o Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos, a pensar em realizar a dragagem da entrada do portinho de Vila Praia de Âncora. Mas as dragagens que se vão fazer, originarão a redução dos detritos sólidos, tanto na plataforma continental como no próprio cordão dunar, criando efeitos colaterais que desenvolverão desequilíbrios ambientais, alguns já previstos em análises já realizadas na consulta pública do EIA.

E como esta obra serviu como forma de pressão para aprovação de um Orçamento de Estado, que teve um fim triste, também a obra se apresenta com um final infeliz. São estes estudos empíricos, muito vulgarizado neste país, que umas vezes dá certo, mas a maioria das vezes sai asneira, como neste caso, que tem dado conta de quase toda a corda litoral. Esqueceram-se que quem fiscaliza estes trabalhos é a "natureza", que devido a não ter contemplações com as asneiras, vai confirmando que a comunidade científica tem razão, nas análises que tem feito sobre o assunto.

Teme-se que os trabalhos que se vão realizar, para eliminar os actuais problemas, venham a trazer outros. Esta obra pode tornar-se numa diversidade de disparates.

Joaquim Vasconcelos

ROTA DOS LAGARES DE AZEITE DO RIO ÂNCORA
Autor
Joaquim Vasconcelos
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