|
ALMIRANTE RAMOS PEREIRA "A FIGURA DO SÉCULO NO VALE DO ÂNCORA"
Não existem dúvidas sobre a notoriedade do Almirante Ramos Pereira a nível do vale do Âncora e do concelho de Caminha, nem do reconhecimento que a própria Armada ainda hoje evidencia, como foi demonstrado através da cerimónia que decorreu na Academia da Marinha, em Lisboa, e dos depoimentos de ancorenses que com ele privaram.
 |
Ao completarem-se 100 anos sobre o seu nascimento (6/4/901), a Armada realizou na véspera, uma cerimónia evocativa dessa data, com a presença de cerca de uma centena de altas patentes desse ramo das Forças Armadas, a que assistiu Manuel Marques, presidente da Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora, e a que fez alusão no dia seguinte, aquando |
da colocação de uma coroa de flores junto ao busto do Almirante, na Praça da República, em Vila Praia de Âncora, numa homenagem conjunta com a Câmara Municipal de Caminha.
Então, o autarca ancorense, ao usar da palavra, afirmou perante algumas dezenas de pessoas, que ficara satisfeito por o Almirante "não ser apenas conhecido em Vila Praia de Âncora", e em que todos os oradores (oficiais da Marinha) "se referiram com muito respeito ao seu carácter" e à sua competência profissional. Manuel Marques deu também relevo à sua obra bibliográfica, às suas capacidades de comando à frente do navio "João Lisboa" e aos seus conhecimentos de rádiotelegrafia, sem esquecer o seu papel em prol dos mais desprotegidos da sua terra natal. |
 |
Segundo o presidente da junta ancorense, o Almirante "notabilizou-se no plano científico, e também pelo seu altruísmo, sempre atento aos problemas locais.
 |
Após esta cerimónia, a que se incorporaram o Comandante da Capitania do Porto de Caminha e o Comandante da Delegação Marítima de Vila Praia de Âncora, os Bombeiros Ancorenses, orgãos autárquicos, Cooperativa Ancorensis e Escola EB 1,2 e forças políticas, realizou-se cerimónia idêntica junto ao túmulo do Almirante, no cemitério local. |
Augusto Sá, em nome da autarquia caminhense, delegou em Francisco Sampaio o papel de destacar algumas facetas mais marcantes da vida do homenageado.
FUNDAÇÃO RAMOS PEREIRA
O actual presidente da Região de Turismo do Alto Minho recordou a primeira vez em que recebeu um convite para ir à Casa do Monte falar com ele, respeitante à Fundação Ramos Pereira, surgida em 1965 e destinada a custear os estudos de jovens com capacidades intelectuais, mas cujo agregado familiar, por si só, não tinha posses para custear uma formação liceal ou universitária. |
 |
Desde esse momento, "fiquei prendido à figura do Almirante Ramos Pereira", sublinhou Francisco Sampaio, constatando a partir daí o número de pessoas -sobretudo da classe piscatória- que se lhe dirigiam pedindo emprego para os filhos, uma colocação na pesca do bacalhau ou na Marinha, ou solicitando as mais diversas diligências a que ele nunca dizia não.
A preocupação pelo ensino dos jovens, desde sempre patenteada por este oficial superior da Marinha, e consubstanciada na sua Fundação, veio a estar na "génese" da criação do Ciclo Preparatório em 1972, e, mais tarde, da própria Ancorensis, assinalou.
FORMAÇÃO ACADÉMICA
 |
O presidente da RTAM aludiu ainda à "impressão" favorável causada pela sua formação académica, "tendo recebido um convite para ir aos Estados Unidos especializar-se em electrónica e telecomunicações", sendo prova da sua competência a criação da estação rádio naval da Apúlia que ele comandou e considerada uma das melhores da península. |
Como homem de vastos conhecimentos, a sua importante biblioteca deveria merecer uma atenção especial por parte das autarquias, como sugeriu Francisco Sampaio, reunindo todo o seu espólio, de modo a "relembrar essa fase da sua vida", em que teve como braços direitos o seu velho amigo António Fernandes (Poipa), a D. Nem-Nem e o Delegado Marítimo, em cuja sede se distribuíam os livros aos estudantes carenciados.
O orador acrescentou que apesar de o Almirante dizer que havia muitos associados a contribuir para a Fundação, ele sabia que os contactos estabelecidos por este oficial junto das diferentes embaixadas onde possuía inúmeros amigos, é que possibilitavam os apoios mais importantes.
O desvelo com que Ramos Pereira acompanhava a evolução dos estudos dos alunos apoiados pela Fundação, não deixou de ser salientado por F. Sampaio.
REFERÊNCIA OBRIGATÓRIA
A preponderância que o agora homenageado postumamente, exercia sobre Vila Praia de Âncora era tal, que mesmo a nível turístico e da praia, a referência principal era ele, sabendo distrinçar perfeitamente as funções que cada uma das colectividades da vila (Associação e Sociedade) exercia no meio, delas retirando o máximo de dividendos para a sua terra natal. |
 |
O lado militar não poderia ser escamoteado, referindo-se à passagem do oficial pelos EUA, África e Índia, designadamente aquando da crise das antigas colónias portuguesas no Oriente, e em que o barco em que seguia se dirigia com determinado destino e foi interceptado por um cruzador indiano. Ao tentar impedir a sua progressão, o Almirante Ramos Pereira informou o vaso de guerra de que era ele que estava a comandar o navio português e que não se desviaria da sua rota e "a verdade é que quem se desviou foi o próprio cruzador..", recordou F. Sampaio.
Lembrou ainda o seu contributo nos anais do Clube Naval -a revista mais prestigiada da Marinha-, a sua acção pela direcção do Museu da Marinha onde fez grandes remodelações e lançou projectos de recuperação de navios abandonados -mas com história na Armada-, ou de barcos de pesca da região.
Por último, aludiu ao seu espírito de diálogo, herdado do velho ideal republicano de seu pai, o médico Luís Inocêncio Ramos Pereira, possuindo um sentido de democracia plena, e aderindo à oposição ao regime, integrando a candidatura a deputado por Viana do Castelo em 1969.
DESAPROVEITADO
 |
Dentro deste ideal de liberdade referenciado na ocasião por este antigo colaborador e amigo do Almirante, revelou que em algumas conversas mantidas já no fim da ditadura, o almirante se mostrava disponível a estabelecer um diálogo com a finalidade de resolver o problema do ultramar, mas "nunca quiseram aproveitá-lo", adiantou F. Sampaio. |
Pegando no programa das comemorações, congratulou-se pelo facto de estar previsto um concurso escolar direccionado ao ensino secundário, tendo como objectivo a vida do Almirante Ramos Pereira, assim como a publicação de uma biografia anunciada para o dia 28 deste mês, da autoria de uma historiadora (Glória Marreiros) casada com um sobrinho de tão ilustre ancorense.
"UMA PORTA ABERTA PARA OS ANCORENSES"
De entre as pessoas que com ele privaram de perto, algumas delas não quiseram deixar de estar presentes nesta homenagem, como foi o caso do comerciante Luís Gomes, considerando-o "uma porta aberta para os ancorenses e para todo o vale do Âncora", relembrando um episódio de uma senhora de Soutelo que tinha um filho na Índia havia vários |
 |
anos, sem que tivesse notícias dele. Dirigiu-se ao Almirante pedindo a sua intervenção, e no mesmo dia veio com ela à D. Sarinha que estava cá de telefonista, telefonando para um amigo dele na Índia e, três dias depois tinha notícias do filho".
Acrescentou que ele estava "incondicionalmente aberto a toda a comunidade do vale do Âncora", conhecendo-o " a fundo", razão porque sabia o que afirmava, tendo-o visitado muitas vezes quando esteve internado no Hospital da Marinha, considerando-o " mesmo muito meu amigo".
"UM HOMEM EXCEPCIONAL"
A sua morte a 16 de Março de 74, foi muito sentida pelos pobres de Vila Praia de Âncora, considerando-o a "maior figura do vale do Âncora", lamentando, contudo, que pouca gente tivesse aderido a esta homenagem e se já se esqueceram dele, "não o deveriam ter feito, porque ele foi uma figura nacional, um amigo de Vila Praia de Âncora, sem se preocupar com a classe social das pessoas", sublinhou.
AMIGO DOS AMIGOS
 |
Luís Gomes Fernandes, filho de um grande amigo e colaborador deste oficial superior, do qual a Armada portuguesa se pode orgulhar, relatou-nos um episódio revelador do seu carácter e da amizade sincera: |
-"Quando me encontrava na Polícia Militar, em Lisboa, ia todos os domingos visitar o Almirante a sua casa. Houve uma ocasião em que não fui lá. Pois apareceu logo no meu quartel na semana seguinte, inteirando-se de mim ! Imagine-se um Almirante a perguntar por um soldado!", sublinhou.
HONESTO, NOBRE..."
Um antigo cabo da Marinha, José Amorim, também de Vila Praia de Âncora, conhecendo-o de perto do Instituto Naval Militar, sintetizou em escassas palavras o perfil do oficial: - Honesto, nobre, desinteressado, dedicado, simples, digno e íntegro. |
 |
"SEM ELE NÃO POSSUIRIA UM CURSO"
 |
Um dos jovens daquele tempo (72) e que beneficiou do apoio da Fundação criada pelo Almirante, foi Jorge Caçador, considerando-o uma pessoa "espectacular, e que gostava que fossemos a casa dele, recebendo-nos sempre bem". Este professor de educação física confidenciou-nos como ainda guarda os postais que "nos mandava, porque queria conhecer os |
nossos resultados escolares", reconhecendo que "se não fosse ele, não teria tirado o curso de educação física".
"LIA-LHE LIVROS PARA ADORMECER"
Na altura um jovem marinheiro, de Caminha, colocado na Armada por influência do Almirante, a quem sua mãe, viúva, lhe fora pedir o seu ingresso, por se tratar de um mancebo com problemas físicos, o que impossibilitaria a sua admissão sem um "empurrão imprescindível", era César Pereira. |
 |
Relembrou esses tempos em que o Almirante voltou a aceder a um pedido seu, para que lhe conseguisse autorização para entrar e sair à civil do quartel de Vila Franca de Xira, coisa impensável, pois de tal regalia somente usufruíam os oficiais. "Pois ele consegui-o", disse-nos César Pereira.
Recorda ainda que quando o Almirante Ramos Pereira já se encontrava internado no hospital da Marinha, ele também foi hospitalizado a fim de ser submetido a uma intervenção cirúrgica. Pretendendo visitá-lo, deparou com enormes dificuldades, dado tratar-se de um oficial de alta patente. No entanto, conseguiu informar o Almirante da sua presença na mesma unidade hospitalar, tendo este dado logo ordem para que lhe franqueassem a entrada, passando a partir daí a conviver com ele assiduamente. Dado que ele já não conseguia ler, pediu-lhe que lhe lesse livros, o que sempre fazia até que ele adormecesse.
"Um dia, como conversava muito com ele, disse-lhe que queria abandonar a Marinha, tendo-me dito imediatamente para ter juízo e propôs-me a permanência em funções no Hospital Militar, para que pudesse estudar à noite e dentro de alguns anos seria sargento". "Mas como não aceitei essas regras, perdi essa oportunidade" declarou-nos este actual pescador, a pessoa que mais tempo conviveu com ele, nos últimos dias da sua vida.
|

| |