CONCELHO DE CAMINHA



UM MOSAICO DE PAISAGENS

Jornal Digital Regional
Nº 198: 14/20 Ago 04 (Semanal - Sábados)

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Cortejo Etnográfico / Pedro Homem de Mello – O Folclorista e o Poeta

Em homenagem a Pedro Homem de Mello, o Cortejo Etnográfico a realizar no próximo dia 21, pelas 16 horas, tem como tema os versos da "Canção de Viana" e do "Povo Que Lavas no Rio". É a melhor homenagem que podemos prestar ao Poeta de Cabanas, trazendo até nós aquilo que ele tem de melhor na sua poesia, o lirismo coevo da poesia Medieval, do nosso Rei D. Dinis, do povo, das festas e das romarias; a mulher "namoradeira(mordoma/noiva/mãe" a grande Mãe, a Matriarca, o paralelismo e o refrão, as cantigas ao desafio.

Foi nos trabalhos e funções do campo: vessadas, malhadas, espadeladas, vindimadas, isto é, em trabalhos colectivos das comunidades agrárias. Nos serões, nas comédias e nas feiras!

Rapazes e raparigas, mais velhos (toda a parentela) a desfolhar o milho; o aparecimento do milho rei; a troca de abraços e beijos. As cantigas e já no final com a concertina a ensaiar os primeiros acordes surge, naturalmente, a dança, a pândega, o serão.

É, também, destas canções que surgem as cantigas ao desafio, pois é este o segredo das paralelísticas. Dois temas, dois cantadores (rapaz / rapariga) e, ainda, com coro ou seja o estribilho ou refrão que nos aparece na Gota, na Chula ou mesmo na Rosinha e que mais não é que o leixaprem, ou seja, a ideia previamente exposta pelo cantador, como na gota, a marca (figura), sempre da responsabilidade do primeiro dançador. Assim, poderíamos considerar as paralelísticas como a forma mais antiga das cantigas ao desafio.

Pedro Homem de Mello sintetizou, admiravelmente, esse agradecimento ao Povo. Não por instinto, não por ter um "Dom" fácil, mas depois de calcorrear a partir de Cabanas todo este Alto Minho pedibus calcantibus por tudo quanto era arraial, promessa, contadores de história e dias de feira. Era aí que estava o instinto, a inspiração. Não no Cenóbio do Convento de Cabanas, antes na investigação permanente, nos apontamentos que recolhia, na vontade de aprender com o povo, as danças (Ofélia das Cachenas); a concertina (Nelson e Artur); com os cantadores ao desafios, as rusgas, nos romeirinhos.

Di-lo, claramente, tendo como referências a "Lusitânia no Bairro Latino" (in Nobre-Só – 1896), no momento em que ANTO dirige à consciência nacional apelo supremo nos seguintes versos:

"Qu’é dos Pintores do meu país estranho

Onde estão eles que não vêm pintar?"

e que representam, entre nós, como que o primeiro sinal de alarme: mais tarde ou mais cedo o nosso património artístico-popular naufragasse para todo o sempre na maré crescente da industrialização!

Di-lo, irreverentemente:

"Tudo aquilo que, até hoje, escrevi ou mostrei, resultou, apenas do que sentiram durante meio século, os meus olhos, os meus ouvidos, os meus pés (e o mesmo será dizer o meu corpo e a minha alma), de bailador" (in Mello, palavras de abertura "Folclore" – Cabanas, 1970)

Pedro Homem de Mello – O Folclorista

É Pedro Homem de Mello o fidalgo rústico – poeta que, também, quer ser folclorista e, por isso, entender as artes do povo: o ritmo dos viras do litoral Minhoto; os viras do Minho interior (fandango serrado de Ganfei), a chula picada; o malhão de roubar, já na zona de Braga; a vareira chula de Lousada; a cana verde picada de S. Martinho do Campo.

Por isso, porque foi bailador de terreiro assume-se folclorista apaixonado ao eleger a dança como expoente da arte folclórica. Daí a sua tese baseada em função das danças folclóricas que ele apreendeu e que no seu entender correspondem a um novo mapa espacial, subordinadas as bandeiras coreográficas do (facto folclórico), ainda patente nos inícios do Séc. XX, nas comunidades rurais (in Melo – Folclore – Cabanas, 1970).

Nasceu Pedro Homem de Mello há 100 anos. Menino e moço conviveu com Manuel Couto Viana e da escola de Abel Viana soube aprender o ritmo dos viras carrecenses na Sociedade de Instrução e Recreio.

Aí conheceu Domingos Enes Pereira, "o bailador do fandango" (in Mello "Pecado" – Cabanas 1942):

Sua canção fora a gota
Sua dança fora o vira
Chamavam-lhe "o fandangueiro"
Mas seu nome verdadeiro
Quando bailava, bailava...
(...)
Fandangueiro? Fandangueiro?
(Nem sei que nome lhe dar)

Mas vai ser de Viana, tagarela e bailadora, esta Viana que não é de ninguém, nem de si própria... com o coração ao pé da boca, aqueles lábios cereja, o ar prazenteiro de falar, de horta e capela que são a sua graça e o seu noivado, que Pedro Homem de Mello se vai enamorar (Canção de Viana – Pecado – 1942).

Eu sou de Viana Cidade.
Eu sou de Viana que é Vila.
Sou de Viana e sou da aldeia
Sou do Monte e sou do Mar.
A minha Terra é Viana!
Quem diz Viana diz Cerveira,
Quem diz Cerveira diz Arga...
- Só dou o nome da Terra
Onde o da minha chegar!

O poeta das nossas romarias, das ermidas perdidas, do sol, poeira, tanta gente. Da Ofélia das Cachenas; o Cácio e o Maiato; da Octávia das Pintas; a Graziela do Leonardo; a Berta da Cantoneiras; o Raúl, o Marques, o Manuel Enes; do Nélson, de Covas, do Vilarinho, da Menina de Segadães; da modinha "de três", de Ganfei; S. João D’Arga, da Peneda, do S. Bento de Seixas, das Feiras Novas, de Ponte; da Senhora da "Bonância", da Senhora d’Agonia (in Mello – Degredo – Pecado – 1942)

Friestas, Paçô, Venade
Vilar de Moiros, Carreço
Santa Cristina de Afife
E lá no fundo... Cabanas?
Rio Minho, Rio Coura
Rio de Ponte da Barca
(O mar começa em Vi-Ana).

Nascido no Porto, vivendo em Águeda, estudando em Coimbra mais tarde residente em Cabanas e no Porto apaixona-se pelo Alto Minho. Enamora-se pelo rural, pelos espaços - limites, pelas palavras – ritos, pelos cultos locais (genius loci), pelas estações do ano (Primavera, Verão, Outono e Inverno), solstícios e equinócios, pelos quatro elementos que dão significado à vida: Fogo... sol, luz e amor; Terra... árvores, raízes, chão e casa; Água... chuva, fontes, rios e mar; Ar ... vento, ideias, folhas, golpe de asa.

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida, não!

Que o trazer da Mensagem do Poeta a esta Terra "Viana" no número mais representativo deste "povo que lavas no rio" em dia de Cortejo Etnográfico, da Senhora d’Agonia, seja o começo desse preito de gratidão e homenagem que Viana e o Alto Minho devem ao Pedro, de Cabanas.

Se o meu sangue não me engana
Como engana a fantasia
Havemos de ir a Viana
Ó meu Amor de algum dia
Ó meu Amor de algum dia
Havemos de ir a Viana
Se o meu sangue não me engana
Havemos de ir a Viana

Festas de Nossa Senhora d’Agonia na Televisão Alemã

Uma carta extremamente amável de Willi Dillschneider und Diemut, informa-nos do seguinte: "na altura do ano em que Viana estará já a preparar, de novo, as Festas de Nossa Senhora d’Agonia, não vamos esquecer Viana e todas as pessoas que colaboraram connosco para este trabalho. Foi um grato prazer trabalharmos com a Comissão de Festas e a Região de Turismo do Alto Minho porque nunca encontramos tanto apoio e tanta simpatia. Podemos, já, dizer a hora precisa quando a ZDF irá emitir a nossa reportagem – Domingo dia 15 de Agosto – Dia de Nossa Senhora d’Assunção, às 13,50 horas. O título é "Die Fischer und ihre Liebe Frau – Ein Marienfest in Portugal" (Os Pescadores e a sua Virgem – Uma Festa Mariana em Portugal).

Desejamos que a Romaria de Nossa Senhora d’Agonia ‘2004 seja um novo fascínio, um clamoroso êxito".

a) Willi und Diemut

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