 
|
VALE DO ÂNCORA VIVE MAIOR CRISE AMBIENTAL DE SEMPRE
OBRAS DO IC1 PODERÃO TER ESTADO NA ORIGEM NA INTERDIÇÃO DO CONSUMO DE ÁGUA DA REDE PÚBLICA DO VALE DO ÂNCORA
BOMBEIROS ABASTECEM DE ÁGUA A POPULAÇÃO
A delegada de saúde de Caminha decidiu interditar o uso de água para consumo humano em quatro freguesias do concelho de Caminha, como medida de precaução, a fim de evitar "efeitos eventualmente negativos".
Nem um mês tinha decorrido sobre a realização das Jornadas de História, Ambiente e Urbanismo de Vila Praia de Âncora, organizadas pela Junta de Freguesia e Câmara Municipal de Caminha, e em que a qualidade e as potencialidades do Rio Âncora foram postas em destaque, e já o Vale do Âncora estava a sofrer o pior atentado ambiental de que há memória.
Âncora, Riba d'Âncora, Vila Praia de Âncora e Vile foram as freguesias afectadas por esta medida desde o final da tarde de Quarta-feira (dia 11), baseada na observação "macroscópica" da água, até que resultados das análises comprovem a necessidade efectiva desta medida.
Desde o passado dia 6 que a Câmara de Caminha acompanhava a evolução de uma "turvação visualmente anormal" da água junto da estação de captação da Valada, no Rio Âncora, verificando-se ainda um baixo caudal das águas e um "aspecto acinzentado".
CÂMARA CONVOCA IMPRENSA
Segundo deu a conhecer Júlia Paula, presidente da Câmara, no decorrer de uma conferência de imprensa convocada apressadamente ao fim da tarde de Quarta-feira, a autarquia tinha vindo a monitorizar a águas e as lamas, não tendo sido detectados problemas "químicos ou bacteorológicos", tendo procedido no entanto, ao reforço do caudal do rio, "através da abertura de comportas, operação facilitada pelas chuvas".
Nesta conferência de imprensa estiveram presentes todos os presidentes de Junta do Vale do Âncora, cujas freguesias se encontram afectadas pela situação.
Na manhã dessa Quarta-feira, a água, nas imediações das captações de Vila Praia de Âncora, evidenciava um "aspecto lamacento e uma turvação bastante acentuada", voltando a ser alertada a Delegação de Saúde, Brigada do Ambiente da GNR e a Empresa de Águas do Minho e Lima.
Nesse mesmo dia, também de manhã, entrámos em contacto com a Delegação de Saúde, Direcção Regional do Ambiente e Câmara de Caminha, a fim de obter informações.
A delegada de saúde tinha acabado as férias na véspera e não possuía qualquer informação sobre problemas no Rio Âncora, enquanto que o Ministério do Ambiente nos referiu não ser da sua competência o acompanhamento das águas nas estações de captação.
"PROBLEMA GRAVE"
Por seu lado, a Câmara optou por convocar a imprensa, concluindo que pela "observação" feita durante estes dias e pelas fotografias recolhidas, "tudo aponta para que os problemas tenham como origem as obras do IC1, agravado pelo efeito das chuvas, anormais no mês de Agosto, que arrastaram lamas pelo leito do rio", afirmou a autarca.
Escorrências de lamas resultantes da obra em fase de terraplanagens, foi outra das hipóteses adiantadas pela presidente para o agravamento da situação.
Júlia Paula admitiu ainda que a empresa que está a levar a cabo as obras do IC1 poderá não estar a executar os trabalhos de acordo com o que estaria aprovado no caderno de encargos, designadamente no que se refere aos tanques de decantação.
A delegada de saúde também desaconselhou a utilização da água na confecção de alimentos, até que obtenham os resultados das análises realizadas, prevendo-se que isso aconteça na próxima Segunda-feira, dia 16.
BANDEIRA AZUL EM CAUSA
Eventualmente, a Bandeira Azul da praia de Vila Praia de Âncora, poderá estar também em risco "com este precedente", admitiu Júlia Paula.
Entretanto, a partir das onze horas da noite desse dia, autotanques dos Bombeiros de Caminha e Viana do Castelo dirigiram-se para Vila Praia de Âncora a fim de preparar o abastecimento de água à população.
|
A Presidente da Câmara Municipal de Caminha, enquanto autoridade concelhia de protecção civil, vem, desta forma, informar relativamente a problemas verificados no abastecimento de água às freguesias de Vila Praia de Âncora, Âncora, Vile e Riba de Âncora, bem como das medidas de salvaguarda da saúde pública e do bem-estar das populações entretanto tomadas:
1- Por motivos ainda não totalmente clarificados, verificou-se uma acentuada degradação da qualidade da água do rio Âncora, ontem, dia 11 de Agosto. Na medida em que tal degradação pode afectar o abastecimento público de água a partir da captação da Valada, em coordenação com a autoridade sanitária do concelho foi recomendado às populações que se abstivessem de ingerir directa ou indirectamente água da rede pública
2- Esta medida deve ser entendida como preventiva, porquanto não há informação segura quanto ao risco sanitário associado à ingestão de água proveniente da captação de Vaiada.
3- Vai ser comunicado o sucedido ao Ministério Público para investigação e actuação junto dos responsáveis por este crime contra o ambiente e saúde pública.
4- No sentido de minimizar os problemas da população, foram coordenados de imediato os meios disponíveis do concelho para garantir, dentro do possível, a segurança e a saúde das populações.
.
5- Em resultado dessa coordenação que envolveu, para além da Câmara Municipal de Caminha e das Juntas de Freguesia, a autoridade de saúde, a Guarda Nacional Republicana, a Capitania do Porto de Caminha, os Bombeiros Voluntários de Caminha e Vila Praia de Âncora, Águas do Minho e Lima, passamos a divulgar as principais informações de utilidade para a população:
a) Estão disponíveis dois auto-tanques com água potável fixos no Campo do Castelo e no Centro Coordenador de Transportes, na freguesia de Vila Praia de Âncora. Neste particular, cumpre-nos agradecer a colaboração dos Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo pela cedência de dois auto-tanques de grande capacidade.
b) Circulam pela restante área abrangida desta freguesia e por todas as outras freguesias atingidas, Âncora, Vile e Riba de Âncora, vários auto-tanques igualmente com água potável.
c) Está disponível, desde a noite de ontem, no quartel dos Bombeiros Voluntários de Vila Praia de Âncora e no posto da GNR de Vila Praia de Âncora água engarrafada para distribuição gratuita e racionalizada.
d) Ontem mesmo foi já distribuída água engarrafada aos Lares de Vila Praia de Âncora.
e) Hoje de manhã foi feito o mesmo tipo de distribuição aos Centros de Dia, ATL e jardins de infância.
f) A coordenação dos meios operacionais foi confiada ao senhor comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila Praia de Âncora.
6) Qualquer informação complementar poderá ser obtida na Câmara Municipal e nas Juntas de Freguesia que, para o efeito, estão coordenadas com a autoridade concelhia de protecção civil.
7) Em função da avaliação que se for fazendo da situação serão tomadas medidas adicionais. Neste sentido foi, desde logo, alertada a autoridade distrital de protecção civil para a colocação dos meios necessários de prevenção.
8) O acompanhamento da situação mostra, em termos visuais, uma evolução positiva, evidente desde a madrugada, e confirmada pelos aparelhos de medição de turvação.
9) Solicitamos a melhor compreensão da população, cujo civismo e serenidade são essenciais, desde logo, na utilização cuidada da água que está a ser distribuída.
Câmara Municipal de Caminha, 12 de Agosto de 2004
|
QUERCUS, NUCEARTES E COREMA ACUSAM CÂMARA E MINISTÉRIO

A alteração das propriedades da água de abastecimento da população de Vila Praia de Âncora, Vile, Âncora e Riba de Âncora, verificada nos últimos dias e apresentada publicamente pela Câmara Municipal de Caminha como uma ocorrência fortuita, configura um cenário há meses anunciado. Com efeito, associações ambientalistas e moradores tinham já expresso a sua preocupação. Por diversas vezes, os órgãos de comunicação social foram solicitados a noticiar o risco de contaminação que as obras do IC1/A28 constituíam para a qualidade da água do rio Âncora.
Duas associações subscritoras desta nota de imprensa dirigiram em 30/04/2004 uma exposição ao Ministério do Ambiente, com conhecimento do Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, alertando para a eventualidade da contaminação da água de consumo. Este alerta fundava-se nas obras em curso na freguesia de Freixieiro de Soutelo, levadas a cabo sem qualquer tipo de monitorização e observância das medidas de minimização impostas pela Comissão de Avaliação com vista a acautelar os interesses ambientais em presença.
O volume de escavações e aterros realizados, a destruição do coberto vegetal das encostas e margens do Âncora, o desvio do seu curso principal e de alguns afluentes, a transposição do rio por veículos pesados através de uma passagem construída pela Euroscut Norte sem protecção adequada, criaram todas as condições para a ocorrência de constantes deslizamentos de terras para o rio. Bem como propiciaram a escorrência de resíduos potencialmente contaminantes provenientes da própria obra. Nomeadamente lubrificantes e resíduos dos equipamentos e materiais utilizados na construção. Estas situações viram-se agravadas com a diminuição do caudal do rio em consequência da captação diária de centenas de milhar de litros de água para utilização na obra.
Apesar dos sinais serem por demais evidentes, as entidades com responsabilidades nesta matéria remeteram-se à passividade e ao laxismo. O Ministério do Ambiente provou, mais uma vez, não passar de uma figura de estilo, alheando-se completamente da defesa de uma zona por ele indicada como local de interesse comunitário, integrada na Rede Natura 2000.
O que está agora a acontecer no vale do Âncora vem, uma vez mais, demonstrar que o ambiente e a qualidade de vida das populações estão intimamente ligados. O presente atentado ambiental vem gerar fortes impactes negativos nos recursos naturais, na saúde pública, repercutindo-se, igualmente, na economia local e, em particular, no turismo.
Porque os condicionalismos impostos pela Comissão de Avaliação ao Relatório de Conformidade Ambiental do Projecto de Execução não estão a ser cumpridos e nem se verifica, aparentemente, qualquer monitorização, é de recear que a situação agora verificada no rio Âncora se venha a generalizar ao conjunto das linhas de água e aquíferos das freguesias atravessadas pelo ligação do IC1/A28 a Vila Praia de Âncora (Riba de Âncora, Vile e Vila Praia de Âncora). Águas que alimentam as minas utilizadas para consumo e regadio, como é o caso da fonte da Retorta, muito requisitada pela população. Um receio mais do que justificado, tanto mais que nem sequer existe um projecto de execução para alguns troços da rodovia em questão.
Importa sublinhar ainda que, em caso de incêndio, as consequências poderão alcançar outro grau de gravidade, já que as populações afectadas pela interdição do consumo da água da rede pública estão a ser abastecidas pelos auto-tanques das corporações locais de bombeiros.
Os acérrimos defensores da construção do IC1/A28 a qualquer preço - Governo e Câmara Municipal de Caminha -, entidades que têm assumido ao longo do processo uma atitude de enorme indiferença para com o Ambiente e a qualidade de vida das populações são os principais responsáveis pela grave situação ora verificada.
Os sucessivos alertas das associações ambientalistas, denunciados pelas referidas instituições como advertências fantasiosas e infundadas, afinal tinham razão de ser !
Vila Praia de Âncora, 13/08/2004
COREMA - Associação de Defesa do Património
NUCEARTES - Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora
QUERCUS - Núcleo de Viana do Castelo
Actualização Dia 12/8 - 18H
|
PARTIDO SOCIALISTA TOMA POSIÇÃO
INTERDIÇÃO DO USO DE ÁGUA PARA CONSUMO HUMANO
O Partido Socialista, tem vindo a acompanhar com muita preocupação, o grave problema com que as populações de Vila Praia de Âncora, Âncora, Vile e Riba de Âncora (Lugar da Ponte) se têm deparado nos últimos dias, devido à interdição do uso de água potável para distribuição pública.
Tal situação, que afecta profundamente a imagem de qualidade de Vila Praia de Âncora como destino turístico, tem provocado fortes transtornos na tranquilidade da vida dos ancorenses e dos milhares de veraneantes que aqui passam as suas férias, bem como, causado significativos prejuízos económicos aos comerciantes, industriais e hoteleiros.
O Partido Socialista , embora considerando pertinentes as medidas entretanto tomadas com vista à protecção da saúde pública, não deixa de assinalar que entende ter havido falta de celeridade na reacção e divulgação de informação sobre este problema por parte quer da Empresa de Águas Minho e Lima, quer da Câmara Municipal de Caminha - entidades responsáveis pela captação, tratamento e distribuição de água ao domicílio.
Atento ao desenrolar da situação, não promovendo a especulação, sem aproveitamentos de índole partidário e com elevado sentido de responsabilidade, o PS procurou informação junto da Autoridade de Saúde Pública, expressando à Sra. Delegada Concelhia toda a disponibilidade e colaboração para a resolução desta delicada questão.
Sendo conhecido que a principal origem do problema está nas obras de construção do IC1 importa que, de imediato, a Câmara Municipal de Caminha passe a acompanhar e a intervir de forma mais efectiva e exigente junto dos responsáveis deste empreendimento no sentido de as Medidas de Minimização e Plano de Monitorização destas obras sejam implementados.
Aproximando-se os tempos chuvosos de Outono e Inverno urge promover acções adequadas para evitar a repetição deste caso, ou ainda, uma mais grave situação que poderá pôr em risco, por tempo indeterminado, o normal funcionamento público de água no Vale do Âncora.
Vila Praia de Âncora, 14 de Agosto de 2004 O Secretariado da Secção do PS de V. P. Âncora Comissão Política Concelhia de Caminha
|
FONTE DA RETORTA FOI SALVAÇÃO
A água cristalina da Fonte da Retorta nunca teve tanta procura como durante estes últimos dias, constituindo uma "autêntica romaria" assim definiu a situação Armando Araújo, morador há 70 anos neste local.
Longas filas se vêm formando e muitos desistem de esperar pela sua vez, optando por se abastecer nas nove viaturas dos bombeiros colocadas a circular no Vale do Âncora, ou nos super-mercados, cuja venda de água engarrafada também registou forte aumento.
 |
A maioria das pessoas que optou pela Fonte da Retorta era de Vila Praia de Âncora e freguesias afectadas pela interdição, como foi o caso de Joaquina Santos, que veio recolher água da bica "para fazer o almoço e lavar algumas coisas", habituada que está a socorrer-se desta água do monte, tal como "já o faziam a minha mãe e avó". |
Lamentou ainda os problemas constantes que afligem a vila nesta altura do ano, "com esgotos no rio e na Praia das Crianças", o que é "prejudicial para o turismo".
"UMA AUTÊNTICA DESGRAÇA"
Cristóvão Silva, veio "à água" porque a sua mãe lho pediu logo que soube da caso pela manhã, o mesmo sucedendo com João Torres, um ancorense em férias e a residir em Torres Novas e que já dela usufruía "antes desta confusão toda", dando-se conta do sucedido pela "cor da água e pela comunicação social", não duvidando que esta situação "prejudica V. P. de Âncora e quem vem cá". É uma autêntica desgraça".
Mas os receios que pairam sobre este manancial de água potável estão cada vez mais presentes, decorrente da mesma obra do IC1 que agora terá contaminado o Rio Âncora, pois o ramal de ligação à EN13 passará a escassos 100 metros da fonte.
Os autarcas têm exigido sem sucesso a apresentação do projecto e caderno de encargos da obra, bem como medidas de protecção admitidas pelo próprio Ministério do Ambiente.
Alfredo Pinto, presidente da Assembleia de Freguesia de Vila Praia de Âncora e da comissão de acompanhamento da obra de ligação do IC1 à EN 13, nesta vila, ressaltou o facto de a fonte se ter revelado essencial neste período de crise. |
 |
FONTE É "TÁBUA DE SALVAÇÃO"
 |
Perante este constante movimento de pessoas recolhendo água de fonte, chamou a atenção para o papel relevante que a sua água poderá desempenhar futuramente, quando a via rápida entrar em funcionamento, perante eventuais acidentes e derrames de hidrocarbonetos e outros produtos contaminantes, pelo que insistiu na necessidade imperiosa de a preservar. |
Assim, e porque os donos da obra não terão cumprido com o estabelecido numa reunião mantida com o director de estradas de Viana do Castelo, em como não avançariam com os trabalhos (preliminares) em Vila Praia de Âncora, sem que antes avisassem a Junta de Freguesia, está disposto a accionar uma acção (providência cautelar) sancionada pela Assembleia de Freguesia, depois de terem destruído um dos canos em cantaria do Regadio do Real, entrando uns 30 metros em território ancorense.
Este clínico, lamenta a lógica de "construir auto-estradas em cima das populações", dando como resultados situações graves como as que as quatro freguesias estão a viver. |
 |
Reconheceu que após uma deslocação ao local, constatou que o aspecto turvo da água se verificava a jusante da ensacadeira construída em Soutelo, pela qual passavam os camiões
|
EMPRESA DE LACTICÍNIOS EM RISCO DE FECHAR

A Empresa de Lacticínios Âncora, com 25 funcionários, a principal unidade fabril ancorense, pertencente a um importante consórcio espanhol, suspendeu a produção de queijo (6 toneladas diárias) desde o final da tarde de Quarta-feira, logo que detectado o problema com a água, tendo-a retomado pela meia noite do dia seguinte, a fim de minorar os "enormes prejuízos já causados".
Foi preciso limpar os dois tanques de água de 40000 litros cada um e que tinham depositados no fundo cinco cm de lama, e em seis silos de recolha de leite, existiam 100.000 litros em risco de se deteriorarem devido ao calor.
Necessitando diariamente de 120 m3 de água, o seu fornecimento dependeu dos auto-tanques dos bombeiros -designadamente um com 30 mil litros dos Bombeiros de Viana do Castelo-, recorrendo ainda ao trabalho extraordinário dos trabalhadores para tentar recuperar o leite e a produção.
Roberto Casas, director-geral da fábrica, afirma ser impossível continuar nestas condições, criticando o facto de o preço da água, a partir de Março, ter quintuplicado, pagando mensalmente 9000€, para um serviço de fraca qualidade.
Recorda o grande o investimento feito quando foi reposta a laboração há cerca de três anos e o perigo que representa parar a produção de queijo de bola e prato a que se vêm dedicando.
Elogiou o papel dos bombeiros e dos próprios trabalhadores ("são de 10 estrelas") que se dispuseram a fazer horas extras logo que foi possível recomeçar a fabricar queijo, de modo a tentar retomar uma normalidade, pese embora os prejuízos resultantes desta situação, os quais ainda não tinham sido contabilizados.
|
Vila Praia de Âncora e a freguesias limítrofes de Vile, Âncora e Riba d'Âncora têm vindo a ser percorridas desde a manhã de Quinta-feira por auto-tanques e outras viaturas, num total de nove veículos pesados, com capacidade de armazenamento total de água na casa dos 80 mil litros.
Distribuídos por pontos fixos ou percorrendo os diversos lugares das freguesias, as viaturas dos bombeiros forneceram de água as populações afectadas, depois de terem sido desinfectados os seus tanques, operação a cargo da Empresa de Águas do Minho e Lima.
|
MÁ PROPAGANDA PARA O TURISMO

Mário Costa, dono do restaurante Verdes Lírios, em Vila Praia de Âncora confirmou que havia já dois ou três dias que notava algo na água, agravando-se na passada Quarta-feira, quando as máquinas de lavar roupa "entupiram devido a uma lama preta", vendo-se obrigado a limpar filtros e todas as torneiras.
A partir de então, passou a confeccionar a comida com água engarrafada (a sua cozinheira foi obrigada a deitar fora a comida confeccionada no dia 11, devido ao aspecto amarelado da água), lamentando esta situação, num ano em que o movimento de verão apenas tinha começado no passado dia 8 e "toda esta publicidade negativa é má para o negócio", confidenciou.
Referiu ainda que fora alertado para a interdição, por um funcionário que ouvira algo na rádio, dado que nem a Câmra nem a Junta emitiram qualquer esclarecimento público à população, com excepção das notícias vinculadas pela comunicação social, de acordo com um pedido expresso nesse sentido pela própria presidente da Câmara, no decorrer do encontro com os jornalistas.
|
CÂMARA DIZ QUE VAI APRESENTAR QUEIXA
Entretanto, a Câmara distribuiu água engarrafada aos centros de dia, jardins de infância e ATLs do Vale do Âncora e apelou ao "civismo e serenidade" da população, além de ter prometido apresentar queixa ao Ministério Público, com a finalidade de averiguar quem foram os causadores do maior atentado ambiental ao Rio Âncora e que ela própria apontava como tendo origem nas obras do IC1 entre Soutelo e Riba d'Âncora.
|

Há mais de 10 anos que se tem vindo alertar a comunidade do Vale do Âncora dos inconvenientes que a execução do ramal da IC1 até Vila Praia de Âncora iria trazer pelo traçado escolhido, tanto no presente como no futuro. Os promotores dessa via, desconhece-se se pressionados ou não (!), conjuntamente com algumas forças políticas, apostaram no ramal Norte (ver peça da semana anterior), apostando na via de destruição da água da Retorta.
Esgrimiram argumentos disparatados. Fizeram crer às claques que os elegeram, (isto é como uma "claque futebolística"), de que esses trabalhos eram imprescindíveis, e sem eles a terra pararia! Neste caso a terra não parou, mas a água vai ficar toda poluída, incluindo a da RETORTA.
Os disparates são uma constante em projectos de "concepção/execução" em que podemos colocar o dono da obra e o empreiteiro num mesmo nível de interesses pouco aconselháveis na execução de uma obra de qualidade.
Por um lado, neste caso o dono da obra (o IEP), procura que a obra seja o mais barata possível, situação com a qual estamos todos de acordo, porque se trata de uma boa politica de gestão. Mas como quem lança a obra é que paga as expropriações - neste caso é o IEP - vai procurar fazer o papel do empreiteiro, planeando o traçado da via por vezes, por locais que não são os mais apropriados. Entretanto o empreiteiro também vai procurar as soluções mais baratas, visto que é a condição de adjudicação mais importante. Como as únicas condicionantes colocadas pelo dono da obra, são um traçado aproximado e a definição dos nós, o empreiteiro vai procurar fazer a obra da forma mais barata mesmo que para isso utilize técnicas de construção pouco abonatórias em termos ambientais originando a poluição dos aquíferos subterrâneos.
Portanto, o lucro do IEP ou do empreiteiro, vai penalizar uma população que por desconhecimento ou interesses dos grupos políticos, vai optar por fazer aterros em vez de viadutos em zonas de talvegue originando escorrências aleatórias para os terrenos circundantes a estas vias. A qualidade é relegada para segundo plano.
Como estamos a trabalhar com empreitadas em que impera o preço global, a situação torna-se demasiado limitada porque não podem existir erros nem omissões, porque senão, havia derrapagens.
No entanto, os estudos realizados e até mesmo cadastrados foram insuficientes havendo pelo menos uma zona extremamente sensível, em que não foi feito qualquer estudo talvez para garantirem a não execução de um viaduto, isto nos montados de Vila Praia de Âncora.
Perante este cenário a qualidade de vida dos residentes é literalmente colocada em segundo plano. Em vez de se investir na qualidade de vida, e minimizar a criação de efeitos que originem doenças de toda a ordem quer a nível de alergias ou oncológicas, procura-se realizar a obra sem pensarem que devemos planeá-la tendo em conta diversos parâmetros para que a "acção-efeito" se apresente com uma abrangência que garanta qualidade durante um prazo dilatado.
Conclui-se que o acto de cidadania é um trabalho inglório para quem o faz, com transparência, sem interesse políticos ou pessoais, porque existem interesses variados e até poderosos que na maioria das vezes, se conseguem sobrepor à qualidade, quer ambiental, quer da obra.
Entretanto, os condicionalismos impostos pela C.A. ao R.C.A.P. lançam fortes dúvidas à razoabilidade dessa mesma peça de análise ambiental. Quem está por dentro de certos valores e regras técnicas, por vezes, é levado a pensar que existem fortes interesses desconhecidos que tornam certas peças de análise ambiental, meros documentos para dar satisfação ao legislado, mas sem dar satisfação ao conteúdo do diploma.
De facto, torna-se extremamente estranho que certos locais sensíveis não aparecessem estudados nesse RECAP, o que leva a pensar que foram situações delicadas que foram excluídas dessa análise, desconhecendo-se qual a razão! No entanto, colocam-se três hipóteses:
- Ou descuido, situação que num projecto desta dimensão só é possível neste País.
- Ou procurar ver se ninguém se apercebia, por desconhecimento, e para evitar fazer um estudo de cadastros da zona, situação muito vulgar no "Zé reguila" à portuguesa, mas também impensável no mundo onde os "lóbis" são controlados;
- Ou estamos perante uma situação cujo traçado ficaria mais caro ao IEP, embora tecnicamente mais correcto, e que, por isso, foi abandonado, juntando o "útil ao agradável", para que determinadas áreas construtivas não pudessem vir a ser condicionadas pelo traçado da referida via.
Qualquer uma destas situações é pouco abonatória para quem projecta, mas também é a subversão do próprio decreto, quando o Ministério refere que os aterros não podem ultrapassar os 20m, ou que os terrenos têm de ser devidamente cadastrados, contudo como os terrenos são adquiridos ao preço da chuva, o Decreto é para mandar ás "urtigas". Mandam "bugiar" os viadutos porque o ambiente é "para os parvos". Ou a própria monitorização de acompanhamento da obra, para dar satisfação ao parecer da C.A., foi literalmente abandonada.
Agora, os habitantes a jusante do Vale do Âncora desta obra vêem o rio todo poluído, cor de saibro, mas procuram esconder a situação. É o descalabro ambiental. Afinal quem são os responsáveis….
Joaquim Vasconcelos - 12-08-2004
|
|
MEMÓRIAS DA SERRA D'ARGA |
 |
Autor Domingos Cerejeira |
| |