Comissões de moradores, de utentes, consumidores, baldios, regas, termos e limites, apenas vociferavam indignados: - Abaixo a palhaçada!
Deveras confuso, Sua Alteza D. Gambozino exigiu explicações: - Quem é afinal o palhaço? Onde está a palhaçada?
E passaram a esclarecer: - As populações protestaram, não contra o IC, mas contra o traçado do IC. A Comissão de Avaliação reprovou o projecto desse IC. Houve nova proposta que mereceu novo protesto. A Comissão de Avaliação voltou a reprovar. E, apesar disso, as máquinas já invadiram os terrenos, para terraplanagem e construção da via, sem qualquer alteração ao traçado inicial.
- É obra, disse Sua Majestade. - Depois de tantas voltas (só para iludir) tudo ficou na mesma…
- Daí a nossa revolta, D. Gambozino! Para que serviu a consulta pública? De que serviram as nossas opiniões? De que serviu e para que serve a Comissão de Avaliação de Impacte Ambiental? Para que serviram as recomendações dessa Comissão?
- Acalmem-se! Tudo isso serviu para vos ouvir, mas só para vos ouvir, como manda a vossa(in)congruente democracia…
- Ouvir, lá isso ouviram, só que não ligaram nada às nossas opiniões! Ouviram, mas, pelos vistos, já tudo estava decidido, quer concordássemos quer não! Por isso é que nós dizemos que é tudo uma palhaçada. Querem que a gente se acomode, e que, se possível, nem sequer vote, para continuarem a fazer o que muito bem lhes apetece, é o que é!
- Calma! Os vossos (des)governantes são obrigados a ouvir as populações mas não são obrigados a respeitar os seus pareceres; estão ao serviço das populações mas não são obrigados a respeitar as suas vontades. Era o que faltava!
- Como?! A vontade do povo não é para ser respeitada?!
- Vocês esquecem-se que têm um (des)Governo de direita que, para além da vossa vontade, tem de atender outras vontades, que vocês desconhecem mas que se impõem. O IC tem que ser feito, porque há grupos económicos multinacionais, de capitais estrangeiros, que precisam dele, no quadro do mercado ibérico, para as suas gordas e rápidas transacções, e evasões, e não só! E, já que tem que ser feito, o (des)Governo prefere fazê-lo o mais baratinho possível, mesmo que o ambiente e a vossa qualidade de vida fiquem irremediavelmente prejudicados, destruídos. Para eles, só contam os interesses económicos, e nada mais. Nem as pessoas contam!
- Então há vontades de primeira … e vontades de segunda …? - murmuraram cabisbaixos, mas gritando de seguida: - Pois que fiquem sabendo que, nesta Terra, somos nós, e só nós, as vontades de primeira, que sabem muito bem o que querem e o que lhes convém.
- Com certeza! O que está em causa é o vosso futuro. Lutem! Lutem, mas… mas… com este (des)Governo…