EM TERRA DE CEGOS QUEM TEM UM OLHO É ... CICLOPE.
Aguarda-se que os "doutores" em geodinâmica e hidrodinâmica, que consideraram que os pareceres técnicos que previam a destruição da praia de V.P. de Âncora, devido à construção do portinho, não apresentavam " base científica", reconsiderem e procurem, admitindo o erro, apresentar algum estudo que minimize os efeitos negativos que estão a destruir esta praia.
Como todos são responsáveis, ninguém quer admitir que os 200000m3 de areia que desapareceram da praia de Âncora, se devem à referida construção.
Foram feitos todos os esforços para chamar a atenção para o que se ia passar com o desequilíbrio da massa líquida, mas os "objectivos cegos" daqueles que aparentemente são especializados na matéria (que o diga, quem conhece a costa portuguesa), tentam fazer crer que tudo se deve aos temporais.
Além de tudo isto, embora o decreto o exigisse, nunca estiveram preocupados com a monitorização, nem se aperceberam que desde Junho que o cordão dunar estava a "emagrecer".
Por diversas vezes, chamou-se a atenção para o crime ecológico que ia ser cometido, mas não quiseram admitir que neste País ainda existem técnicos competentes.
Mais uma vez, os "tecnocratas de gabinete" conseguiram iludir um conjunto de pessoas, fazendo-os acreditar que iriam solucionar todos os problemas económicos dos pescadores de Vila Praia de Âncora. Foi como se vendessem a "banha de cobra", e as pessoas caíram como no conto do "vigário".
Mas já há quinhentos anos, Galileu foi preso pela "Santa Inquisição", que na altura eram os "donos da sabedoria!...", só por defender as teorias de Copérnico - que dizia que era a Terra que andava à volta do Sol. Em Portugal, embora se reconheça a nível mundial que os esporões ou portos que saem da linha de costa, são obras tecnicamente erradas, continuam a fazer-se, e os "sábios do presente" vão facturar nos projectos, de seguida fazem um EIA, e logo a seguir podem começar a projectar os esporões necessários para manter alguma areia nas praias. Chama-se a isto "um projecto em três". É mais barato e dá milhões.
E embora se refiram que o litoral está a desaparecer, que se tem de tomar providências para evitar que isso aconteça, permitiram a execução deste porto de mar, com pareceres favoráveis do próprio Ministério do Ambiente, mesmo depois de se lhe ter chamado a atenção do que iria acontecer se executassem esta obra.
É o mundo em que vivemos. "Camões", possivelmente, iria referir que o litoral português está a ser destruído por "monstros ciclópicos", porque parece que ninguém vê o que está a suceder, a não ser os ditos "monstros".

No entanto, a justificação é aparentemente simples, porque obedece a técnicas da "escola de geologia" interligadas com leis físicas, que, de facto, permitem criar o cenário das destruições que estão a acontecer na praia de Âncora.
O que se vai passar a seguir, será extremamente grave, e para quem garantia que só ia existir uma pequena redução da duna dos Caldeirões que logo iria ser recuperada, que me perdoem, mas seria aconselhável fazerem uma reciclagem técnica.
De acordo com dados que se continuam a obter no terreno, pode-se avançar que o topo Sul da praia de Âncora, apresenta um "degrau" acentuado, que pressupõe o início de nova "ripagem" do cordão dunar, seguindo um trajecto de desgaste de Sul para Norte que tem origem numa corrente que se manteve em equilíbrio ao longo dos séculos até à execução do cais do portinho.
A degradação do cordão dunar vai continuar, até atingir o reequilíbrio. Tendo em atenção as "marés vivas" que estão a verificar-se, os efeitos são potenciados e se a foz do rio Âncora passar para onde existe a duna dos Caldeirões, as situações que se vão passar, tornar-se-ão extremamente graves. Se os responsáveis desta obra não assumirem a realidade dos factos, com formas de minimização, o pior ainda está para vir. Quanto mais tarde actuarem, pior.
Neste momento, os grupos dos "sábios" consultores, podem tentar "descartar-se", no entanto, começa a temer-se que esta inércia em solucionar este problema, demonstre desconhecimento de como minimizar a situação.
Se entretanto nada for feito, e sem especificar o tempo de duração, depois de se dar a rotura no sistema dunar, irão suceder os impactes indirectos, que trarão consequências materiais e sociais imprevisíveis. E quando começarem a ter a percepção do que foi feito, possivelmente irão ter consciência, de como e quem gasta mal o dinheiro, porque depois de romper a duna dos Caldeirões, serão criadas condições de inundação da Junqueira e a salinização de uma faixa de terrenos agrícolas.
Entretanto, a Mata Nacional da Gelfa sofrerá graves alterações e o campo de futebol do Âncora Praia, possivelmente, pode vir a desaparecer. O cordão dunar irá continuar a "emagrecer" até se dar o seu reequilíbrio.
As construções localizadas junto das margens do rio Âncora, no lugar das Águas Férreas, ficarão sujeitas a constantes inundações pondo em perigo vidas humanas.
A linha do caminho-de-ferro será sujeita a inundações mais frequentes, que podem vir a fragilizar aquelas infra-estruturas.
Os níveis freáticos também irão subir, ampliando a zona de cheias, criando condições propícias a inundações mais frequentes e em áreas nunca atingidas.
Se existir a conjugação da praia-mar com chuvadas fortes, as redes de águas pluviais poderão entrar em "carga", originando também inundações ainda mais a montante.
A ante praia continuará a reduzir-se devido a ter sido travado o "abastecimento sedimentar" pelo esporão do portinho. Como o abastecimento sedimentar não é feito, e está a haver um transporte acentuado de detritos sólidos para a plataforma continental, a "lámina líquida" ou batimetria, na pré-praia, começa a ficar mais espessa, aumentando a energia da ondulação, provocando um impacto maior contra a Av. Dr. Ramos Pereira e contra o cordão dunar.

Tudo leva a crer que para Norte da "meia laranja", na Av. Dr Ramos Pereira, devido ao afloramento rochoso ser superficial, o efeito da energia do mar, em dias de tempestade será minimizado. No entanto para Sul, como parece estarmos perante uma zona com uma camada arenosa acentuada, depois da areia desaparecer, o local ficará mais profundo, criando uma situação em que a energia da água só será travada quando bater contra uma superfície rochosa. Os efeitos irão ser de tal maneira agravados, que muito possivelmente, a Av. Dr. Ramos Pereira poderá vir a sofrer destruições sucessivas. Os prédios da Avenida também irão sofrer investidas do mar.
É então que o erário público irá ser agravado com obras de contenção do mar.
Com a destruição da praia irá haver uma redução da procura turística, que afectará o escoamento do pescado. Os responsáveis políticos que referiam estar preocupados com os pescadores, vão finalmente ter a percepção, que era essa praia, que está a desaparecer, que muitas vezes funcionava quase como actividade principal e a pesca como complemento de verbas, para equilibrar o orçamento familiar. Mas a cadeia de alterações não termina. Como os veraneantes rumam para locais onde existem praias, e aí vão adquirir habitações ou alugar casas de férias, a construção civil sofre um decréscimo, o desemprego por sua vez começa a sentir-se e, uns terão que migrar e outros que aguentar.
Perante este cenário, os comerciantes que tinham o seu "S. Miguel" no Verão irão começar a sentir a redução dessa procura turística. Mas a situação poderá agravar-se mais, porque os produtos agrícolas do Vale do Âncora, por sua vez, começam a ter mais dificuldade de escoamento, diminuindo também o seu poder de compra etc. .. etc. ..
Por causa de duas dúzias de iates, os responsáveis locais e Nacionais podem ter originado uma cadeia de problemas, com graves consequências sociais futuras. Mais uma vez, a história da galinha dos "ovos de ouro" sucede, desta vez em Vila Praia de Âncora.
Agora cabe aos responsáveis desta obra solucionar a situação que está a ser criada.
Conforme já referi noutros trabalhos, só nos debruçámos sobre este EIA, porque sabíamos que o parecer final seria feito pelo mar e todos iriam conhecer o resultado. O assunto era extremamente delicado, para ser tratado por outro Juiz.
Lamenta-se que os responsáveis se tivessem esquecido que o comportamento hidrodinâmico e hidromorfológico da envolvente de um porto de mar carece de investigações profundas sobre alegadas interferências permanentes com o transporte sólido litoral, coisa que não aconteceu com a obra que nos temos estado a referir.
Mesmo uma solução de minimização que possam utilizar, a fim de mitigar os aspectos negativos mais marcantes, relacionados com os efeitos que se estão a fazer sentir no cordão dunar, é improvável que resulte porque não conhecem as características mínimas dessa área, embora seja fundamental que satisfaçam os dois princípios:
1 - Não contrariar a dinâmica litoral actual ( a natureza para ser comandada deve ser respeitada).
2 - E proteger integralmente a ante praia, proibindo actividades agressivas.
Se estas regras não forem aceites o desequilíbrio hidromorfológico que se verifica na Faixa Costeira em análise, irá continuar. Nem as acções de conservação ou estabilização das dunas, por si só, conseguirão introduzir uma estabilização ou mesmo uma inversão da situação de erosão.
E Agora...
Está a acontecer a destruição de uma praia que durante quatro meses dava emprego a centenas de pessoas e cujo bucolismo trazia milhares de visitantes todos os anos, criando uma animação intensa durante esse período.
|