A primeira linha de caminho-de-ferro em Portugal, de Lisboa ao Carregado, foi inaugurada em 1856, no reinado de D. Pedro V. Em 1867, após uma década de estudos, foi publicada a legislação que criava a Linha do Minho para ligar a cidade do Porto a Valença e à fronteira com Espanha mas somente em 1872 a construção foi autorizada pelo governo, tendo-se então iniciado os trabalhos. Em maio de 1875 era inaugurado o primeiro troço, do Porto a Braga, e em fevereiro de 1878 os comboios chegariam a Darque, enquanto se concluía a ponte metálica sobre o rio Lima, projeto da responsabilidade do engenheiro francês Gustave Eiffel.

Em simultâneo, sem dificuldades de maior pela ausência de grandes obras de arte, era construído o troço de Viana do Castelo a Afife, com 8397 metros. De Afife a Âncora, "o traçado situa-se entre a estrada real nº 4 e o mar", num total de 5576 metros, atravessando neste pequeno troço o rio de Afife, em ponte de alvenaria, e o rio Âncora, exigindo a travessia deste último obra de maior monta. Concretamente, uma ponte metálica com um vão de 30 metros — "projectada com tabuleiro inferior e, portanto, sem contraventamento superior" — cujo concurso de adjudicação, por convite, seria realizado em conjunto com o das pontes do rio Coura e do ribeiro Mira, em Valença. Apresentadas as propostas das casas Eiffel, Fives-Lille e Harkort, para a ponte do rio Âncora foi preferida a solução da casa Eiffel, adjudicada a 22 de agosto de 1876 por 27.500 fr. (1).

De Âncora a Caminha, a linha tinha 6400 metros, sempre entre a estrada e o mar, um troço considerado "em excelentes condições técnicas e económicas", com apenas três curvas (1). Imediatamente antes de Caminha, a cortina nascente da muralha foi cortada — e parte da sua pedra aproveitada — para a construção de um túnel de 410 metros de extensão. Como acertadamente reconheceria o contemporâneo Figueiredo da Guerra, "é ao distinto engenheiro o sr. Diogo de Barros que se deve a variante do túnel, salvando assim a vila de ser completamente cortada pela linha de ferro" (2). Em plena obra, corria o mês de setembro de 1876, o engenheiro João Diogo de Barros enviava um ofício à Câmara Municipal de Caminha onde referia ser "urgente estabelecer uma linha provisória que tem de atravessar o Largo da Senhora da Agonia para conduzir para o rio os produtos da trincheira e do túnel" (3).
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A ponte do rio Coura, que vinha a seguir na linha, seria adjudicada à casa Fives-Lille — foi então ponderado que Eiffel tinha em execução demasiadas pontes nas linhas do Minho e do Douro, "o que podia acarretar demoras de execução afinal de todas elas" (1) —, tendo sido inicialmente projetada com uma extensão de 100 metros, em dois tramos. Aprovado em 21 de novembro de 1876, apenas quatro dias depois um acaso da natureza obrigou à alteração do projeto. Sucedeu que no dia 25 houve uma grande cheia, tão fora do vulgar que, ao destruir vinte postes de cantaria, fez abater quase uma centena de metros da ponte rodoviária sobre o Coura (de 1839), cujo madeiramento foi arrastado pelas águas (4). O infeliz acontecimento pode ter sido providencial para a segurança da futura ponte ferroviária, já que um novo projeto foi de imediato pedido à casa construtora, agora com três tramos e uma extensão total de 164 metros, que seria aprovado em 1 de fevereiro de 1877 (1). Mais cara (410.000 fr) e exigente tecnicamente, o tramo central da ponte metálica sobre o Coura ficou com 60 metros —"um dos maiores do país, só excedido mais tarde pelos tramos centrais das pontes de Valença e do Dão...[na] linha da Beira Alta" — e dois dos seus pilares foram fundeados, um a 10 e outro a 17 metros, com caixões de ar comprimido (1).

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Enquanto prosseguia a construção da nova ponte ferroviária sobre o Coura — que viria a ser inaugurada no dia 15 de janeiro do ano seguinte — era dada como pronta a sua congénere do Lima, possibilitando a desejada abertura do troço de Darque a Caminha. Em consonância com o governo, o ato oficial ficou marcado para 30 de junho de 1878, um dia largo de verão para uma jornada de festa que se antecipava grande para as populações alto-minhotas. Três dias antes, na habitual reunião da Câmara de Caminha, presidida por José Maria Rego, davam-se os pormenores do evento: "Devendo ter lugar no próximo domingo, 30 do corrente, a inauguração do Caminho de Ferro do Minho, desde a freguesia de Darque até Caminha, resolveu a Câmara em satisfação de tão importante melhoramento, ir esperar à estação de Gontinhães o comboio que conduz os Exmºs Ministros da Guerra e Obras Públicas; e para tornar mais pomposo e brilhante a solenidade da inauguração, se convidarão todas as autoridades locais a acompanharem a Câmara, oferecendo-lhes carro para a ida, e lugar no mesmo comboio para a volta; que como demonstração de regozijo se colocassem bandeiras e galhardetes em algumas ruas e mais lugares próprios da Vila, na entrada da qual se fizesse subir ao ar algumas dúzias de fogo, logo que fosse chegado o comboio, e que na noite desse dia se iluminasse o edifício da casa das sessões da Câmara e Administração, e que, enfim, para recreio dos habitantes se façam ouvir variadas peças de música, e nos intervalos algum fogo do ar" (5).
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Para os menos conhecedores da política de oitocentos, diga-se que o Ministro das Obras Públicas em questão era Lourenço António de Carvalho, antigo chefe dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste, e que o Ministro da Guerra, por esses dias, era o próprio Presidente do Conselho, António Maria Fontes Pereira de Melo (1819-1887),
a chefiar o seu segundo governo regenerador. Foi pois o mais destacado político português da segunda metade do século XIX que no dia 30 de junho de 1878 veio no primeiro comboio que atravessou o concelho de Caminha, e parou na
estação da Praia de Âncora, onde se lhe juntaram José Maria Rego e demais autoridades locais, após o que prosseguiu até à
estação de Caminha por entre vivas e foguetes. Aqui seria servido um "
lunch", oferecido pelo município a Fontes e a Lourenço de Carvalho — cujo
cartão de convite se constitui como um valioso documento iconográfico —, pondo fim a um dia inesquecível que terá também ficado registado para a posteridade com, pelo menos, uma
imagem fotográfica da autoria de Joaquim Roriz (6).

REFERÊNCIAS
(1) Frederico de Quadros Abragão. No Centenário dos Caminhos de Ferro em Portugal . Gazeta dos Caminhos de Ferro, nºs 1740 e 1741, 16-6-1960 e 1-7-1960.
(2) Figueiredo da Guerra. Caminha II. Pero Gallego, I, 23, Agosto 1882.
(3) Ata da Câmara Municipal de Caminha de 21 de setembro de 1876.
(4) Ata da Câmara Municipal de Caminha de 30 de novembro de 1876.
(5) Ata da Câmara Municipal de Caminha de 27 de junho de 1878.
(6) Integrada no Espólio Fotográfico Português, uma coleção particular.
Um agradecimento especial é devido ao Dr.Manuel de Sousa Rêgo, que teve a amabilidade de nos disponibilizar a reprodução digital do valioso cartão de convite de 1878 aqui exibido.
Apelo — Ao contrário da ponte da Fives-Lille sobre o rio Coura que foi reforçada e renovada à entrada do século XXI, a ponte Eiffel sobre o rio Âncora foi infelizmente desmantelada e alienada nas últimas décadas de novecentos. Havendo conhecimento recente, por diligências efetuadas pela Junta de Freguesia de Âncora, da localização das suas peças constituintes em território nacional e não muito longe do concelho de Caminha, exigir-se-ia das autoridades municipais o encetar das disposições necessárias ao seu regresso à origem ancorense, não faltando depois certamente oportunidade para o seu reaproveitamento.