Depois de uma campanha eleitoral que terá contribuido muito pouco para o esclarecimento dos caminhenses sobre as grandes questões do concelho - com a excepção meritória dos dois debates organizados pelo Bloco de Esquerda, quase nada mais se fez nesse sentido - e que não primou sequer pela mínima pedagogia cívica - que triste imagem de democracia a distribuição de bolas e balões à porta e dentro (!) das escolas e, sobretudo, os ataques pessoais que marcaram a campanha e o período pós-eleitoral - tomam agora posse os autarcas que nos próximos quatro anos gerirão os destinos de Caminha.
Na pessoa da nova Presidente da Câmara de Caminha deve aplaudir-se a eleição de uma mulher, a primeira no Alto-Minho, para o cargo de maior responsabilidade municipal com o significado que tal facto comporta em termos histórico-culturais. Na vitória do Partido Social-Democrata, saúde-se a alternância democrática depois de vinte e cinco anos ininterruptos de gestão do Partido Socialista.
Contudo, alternância não implica necessariamente alternativa e, sendo ainda obviamente prematuro (e injusto) avaliar quem ainda só agora começa a trabalhar, há já fundadas razões para temer que o modelo de gestão que tem caracterizado a política autárquica concelhia - assente, genericamente, num modelo de desenvolvimento que privilegia o imediato ao futuro, o superficial ao profundo, o acessório ao essencial - não mudará substancialmente: iludindo os tremendos impactos ambientais necessariamente em causa (para já não falar da simples racionalidade económica), não foi a construção de uma nova ponte na foz do rio Minho, no preciso momento em que se inicia a construção de uma idêntica obra pública meia dúzia de quilómetros a montante, a grande bandeira eleitoral da nova equipa camarária ?
Num regime representativo caberá naturalmente à oposição partidária eleita (neste caso, na vereação e na Assembleia Municipal), ou não eleita, cumprir o seu papel de controlo do legítimo poder autárquico e de construção paulatina das propostas que em altura oportuna apresentarão ao eleitorado. Reconhecer tal facto, não significa no entanto aceitar que se esgote aí a participação cidadã como, salvo raras excepções, tem sido prática local ou nacional num contexto, já por demais identificado, de crise global do sistema democrático que, entre outras causas e consequências, tem permitido a subida constante dos níveis de abstenção e o progressivo afastamento dos cidadãos da causa pública.
Bem pelo contrário, uma cidadania atenta e exigente que não aceite este estado de coisas, precisa urgentemente de encontrar os fóruns que permitam alargar a participação dos cidadãos para além dos períodos eleitorais e a expressão regular da crítica fora dos restritos quadros partidários. Num momento decisivo para o concelho, quando se nos deparam importantes opções estratégicas que determinarão em grande parte o futuro de quem aqui vive e trabalha - o traçado e as ligações do IC 1, resolver o problema do assoreamento da foz do Minho e impedir o desaparecimento do areal a sul, iniciar o processo de revisão do Plano Director Municipal, decidir definitivamente o que fazer com o Teatro Valadares, etc - talvez desse modo se possa iniciar o caminho de uma nova cidadania, também em Caminha.