www.caminha2000.com - Jornal Digital Regional - - Semanário - Director: Luís Almeida

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CIDADANIA

Comunicação Social

Tradicionalmente, considera-se na organização política do país a existência de três poderes: legislativo, executivo e judicial que, constitucionalmente, desenvolvem, separadamente, as respectivas competências. Num Estado de direito democrático, a consagração da separação dos poderes é um imperativo constitucional e também ético.

À margem desta organização considera-se, hoje, informalmente, a comunicação social como o quarto poder. O exercício deste poder, contrariamente aos outros, não dispõe dos meios de coação, no sentido de fazer cumprir as suas deliberações, todavia, beneficia de um instrumento poderosíssimo, que ele próprio ajuda a formar, praticamente no sentido que mais lhe convém: seja a descoberta da verdade; seja a notícia rigorosa, independente, objectiva e oportuna - trata-se da opinião pública - que, se formada com bases sólidas, exerce uma enorme influência nos destinos da sociedade, a partir das decisões que se tomam, precisamente, ouvindo (quando se ouve, obviamente) a opinião pública.

A comunicação social, ao longo das últimas décadas, tem vindo a ganhar um estatuto de verdadeiro poder, que não sendo directamente instituído como poder coercivo, tem potencialidades e meios para se impor em todos os domínios da sociedade, formando ou deformando as opiniões individuais e colectivas.

No presente trabalho considera-se a comunicação social, através dos seus órgãos representativos, como um sector da sociedade absolutamente necessário, aliás, não se saberia hoje viver sem os serviços que são prestados por esta actividade tão influente nas vidas individuais.

Em capítulo anterior, considerou-se a comunicação social como um, entre outros, elemento constituinte da sociedade e referiram-se apenas três órgãos tradicionais: imprensa, rádio e televisão, sabendo-se embora, que existem outros, igualmente poderosos e influentes, nomeadamente, o cinema, a informática associada à Internet, esta com incomensurável poder, eficácia e influência, para o bem e para o mal.

Nesta parte do trabalho, interessa abordar a comunicação social em geral, enquanto interveniente na formação do cidadão, que ao longo das páginas se tem procurado caracterizar, formar e preparar para o futuro. Considerar-se-á a vertente formativa deste poderoso instrumento da sociedade, podendo-se, num ou noutro aspecto, referenciar algum pormenor que, do ponto de vista da formação, se julgue ser prejudicial.

Acredita-se nos relevantes serviços que têm sido prestados à comunidade, ao Estado e aos múltiplos sectores da sociedade, o que não invalida, alguma observação, sobre um ou outro acontecimento, que se reputa inadequado na "construção" deste cidadão do futuro. Sobre a comunicação social muito se tem escrito e falado, ela própria se tem submetido ao debate, à crítica e até à auto-crítica, o que é salutar num regime democrático, onde não há lugar à censura prévia.

O cidadão aqui proposto não tem que ser jornalista, cronista, editor ou director de informação, mas deve estar preparado, não só para consumir a notícia que lhe chega pelos órgãos de comunicação social, como também interpretá-la, isentamente, e transmitir aos seus concidadãos os relatos das diversas situações que lhe chegam.

É muito importante que todo o cidadão esteja informado do que se passa à sua volta, que tenha uma versão dos factos sujeitos à sua verificação para formação posterior da sua própria opinião, o mais correcta e isenta possíveis. Evidentemente que o mesmo acontecimento pode chegar com versões diferentes, a partir de fontes diversas, com causas e consequências díspares o que torna difícil formar opinião segura e definitiva sobre um determinado acontecimento.

Assumir posições públicas ou privadas, apenas e só a partir da informação veiculada é algo de muito complexo e melindroso, contudo, em certas circunstâncias, tem que se mostrar uma atitude, o mais fundamentada possível e, neste sentido, a comunicação social pode dar uma ajuda.

A credibilidade da informação depende mais de nós do que do órgão que a faz chegar porque a responsabilidade pela interpretação é sempre de cada um. Infere-se, assim, quão difícil é para o novo cidadão posicionar-se face a um acontecimento, a partir, apenas, da informação que lhe é transmitida.

Imputar responsabilidades ao cidadão que, passivamente, recebe e divulga uma dada informação, através da comunicação social, não exclui idêntica ou maior responsabilidade aos respectivos órgãos dessa mesma comunicação, na medida em que, numa perspectiva ética e deontológica eles devem informar com verdade, isenção, rigor e simplicidade, usando uma linguagem inequívoca, objectiva e direccionada a um determinado público, face ao qual poderá utilizar terminologia específica da área de formação desse público-alvo.

A qualidade da informação é tanto maior quanto mais se aproxima da realidade, e permite ao cidadão comum formar uma opinião credível e convincente para o próprio. Por outro lado, não devem os órgãos de comunicação social ceder a pressões que, por interesses diversos, deformam o facto que se pretende noticiar.

A informação deve ser livre e responsável, num Estado que se pretende democrático: "Um dos factores de maior significado, na existência real do pluralismo político, é o que se refere aos meios de comunicação social. O seu papel é decisivo na formação e informação da opinião pública. Numa constante procura da verdade objectiva e na justa avaliação das responsabilidades sociais e morais que lhes cabem, devem eles reflectir o reconhecimento da liberdade de expressão das opiniões legítimas dos indivíduos e dos grupos." (ARAÚJO, 1974:43).

E se há trinta anos, já no final do regime que usou e abusou da censura, que impediu a liberdade de imprensa, alguém se insurgia, ainda que de forma um pouco eufemista, hoje, início do século XXI, em plena democracia e liberdade de expressão, há razões para uma relativa satisfação, na medida em que, por vezes, eventualmente em sentido contrário, a comunicação social e os cidadãos, tendem a exceder-se na divulgação de opiniões, de factos, de situações que, neste caso, pecam por falta de rigor, pela nítida subjectividade que se detecta em algumas apreciações e comentários jornalísticos.

O novo cidadão certamente que estará atento a possíveis desvios de informação e, responsavelmente, auxiliará no esclarecimento de um determinado acontecimento, naturalmente se dele tiver conhecimento objectivo e dos factos que o integram. Ajudar a esclarecer a opinião pública e contribuir para a busca da verdade, será uma função nobre que se reivindica para este novo cidadão, isto é, uma pessoa que pelo rigor, pela verdade, pela desmistificação de certos mitos noticiosos, será capaz de se assumir e impor-se, frontalmente, de rosto descoberto, contra o boato anónimo e cobarde.

Tal como a maioria das actividades humanas, a comunicação social tem progredido e alterado métodos, estratégias e objectivos, num esforço de actualização, porque os conceitos não são imutáveis e muito menos dogmáticos. Os órgãos de comunicação social, através de algumas das principais características, como a oportunidade, a rapidez e o impacto, procuram construir novas imagens, novas definições da sua própria actividade.

Recentemente, a comunicação social é entendida como um conjunto de meios, que se ampliou para uma denominação mais abrangente, e que algumas teorias chamam de "meios de difusão colectiva" cuja descrição parece pertinente: "Os meios de difusão colectiva reflectem e amplificam mais do que transformam. Mais comummente, os seus efeitos reconhecem-se no comportamento tanto dos grupos como dos indivíduos. Assumem particular importância os programas de informação e distracção, dimensões fundamentais da participação Sócio-Cultural que uma adequada política colectiva pode implementar." (ALVES, 1983:1035).

Anotam-se já ideias importantes sobre a noção e objectivos da comunicação social, e pode-se avançar para a discussão sobre a influência e as funções que ela exerce na sociedade contemporânea, que se reconhece como sendo de grande relevo.

Interessa mais aqui a influência que, através das suas funções, pode provocar no cidadão e que, desejavelmente, se pretende seja positiva, embora sabendo-se que, a notícia e a informação são um produto de consumo, que se aproximam de um bem de primeira necessidade. Nesta perspectiva, não se estranhará a intensa rivalidade e concorrência que existe entre os vários órgãos.

Admite-se que a quantidade prejudique a qualidade; que a rapidez e oportunidade, dificultem o rigor e a objectividade, designadamente no que respeita aos órgãos de comunicação privados; todavia, não se compreenderá e rejeitam-se procedimentos idênticos nos órgãos do serviço público que, sendo pagos por todos os contribuintes, devem proporcionar qualidade, verdade, rigor e isenção.

A formação do cidadão para o século XXI, passa também pelo contributo que os órgãos de comunicação social dão, no sentido de: informar, alertar e formar a opinião; para os valores da liberdade de expressão com responsabilidade; respeito pela ética e deontologia profissionais; no sigilo das fontes.

São valores que o vulgar cidadão pode e deve adoptar na sua actividade profissional, qualquer que ela seja. Porque a comunicação social, não sendo uma escola no sentido tradicional do termo, isto é, não ensina nem educa por processos didáctico-pedagógicos, promove o conhecimento de situações diversas em todo o mundo e quase sempre em tempo real e simultâneo à ocorrência do acontecimento: "Se quisermos, é uma espécie de escola de normas de conhecimento e de conhecimentos normalizados. As regras do jogo valem para a informação. O que o jornal dá dos acontecimentos é a sua visão média, compreensível pelo cidadão médio; raramente os interessados encontram na informação a complexidade das situações e dos acontecimentos que permite julgar e agir em conhecimento de causa e com responsabilidade."" (RODRIGUES, s.d.:30).

O novo cidadão estará, permanentemente, atento às possíveis distorções que a comunicação pode comportar e se assim proceder, assumirá posições cautelosas e eximir-se-á a proferir juízos precipitados. Um cidadão responsável, prudente e, em certa medida, sábio, na circunstância, evitará as posições públicas, ainda que provisórias. Um cidadão com estas características, certamente ganhará a confiança dos seus pares e reunirá condições para conduzir, neste domínio, não só a sua vida como também estimular, para o mesmo comportamento todos os restantes indivíduos da sua comunidade.

A atitude moderadamente céptica do novo cidadão, não significa alheamento, desinteresse ou cobardia. Bem pelo contrário, revela-se cautelosa e de grande tranquilidade. E se é certo que todos os dias se recebem conhecimentos importantes, até para melhor condução das vidas e salvaguarda de direitos fundamentais, através da comunicação social, também é verdade que certas notícias conduzem a situações de latente conflituosidade entre pessoas, instituições e nações.

Por isso mesmo ninguém se deve deixar impressionar por certas informações, mesmo que acompanhadas de imagens e sons verídicos. Os contextos em que são transmitidas, as fontes utilizadas, os objectivos a atingir, constituem por si sós, motivos suficientes para uma postura defensiva e recatada.

As dificuldades que se encontram para procedimentos cautelosos são diversas: desde logo quando se é ou não directamente afectado; a própria espectacularidade da notícia; o efeito surpresa; a tentação de, a quente, ripostar quando se é atingido; a ânsia de divulgar o ponto de vista próprio; o preconceito da preocupação com o que os outros possam pensar a respeito, por via da notícia divulgada. Mas é contra tais dificuldades que o novo cidadão será preparado, de forma a resistir em tempo e modo de se pronunciar. Os resultados deste comportamento sensato, mais tarde ou mais cedo aparecerão com todas as vantagens para o cidadão que se está a formar.

É neste enquadramento que se considera a comunicação social como um importante interveniente na formação do cidadão, na medida em que é proporcionada a possibilidade de confrontar várias versões sobre o mesmo facto e, a partir delas, encetar as próprias investigações para se chegar a uma posição, tanto quanto possível, correcta e objectiva, do ponto de vista da opinião que se vier a formar.

O homem é produtor e consumidor da sua própria cultura e nesta cabem, perfeitamente, todas as actividades verdadeiramente humanas, abordadas sob a perspectiva antropológica, independentemente da natureza, meios e fins de cada uma delas.

A comunicação social com os órgãos que a divulgam, é hoje uma actividade que se considera nobre, se e enquanto pressupõe valores humanistas que se transportam nos seus mais directos actores, pelo menos na esmagadora maioria deles.

Todavia, não se pode ignorar que tais actores são, como o novo cidadão, seres humanos, sujeitos ao erro, à falha, ao desgaste. Estas são as principais razões para este cidadão ser cauteloso na apreciação, formação e divulgação da sua opinião a partir da notícia, revelando assim autocontrole e compreensão para com os agentes da informação veiculada.

Acontece que este cidadão aqui defendido, se porventura algum dia vier a ter responsabilidades em qualquer órgão de comunicação social, já vai estando preparado para agir, para que possa suscitar cada vez mais confiança em quem o ouve ou lê e, ao fim de algum tempo, todos estarão em condições para melhor se entenderem ,e acreditarem nas opiniões que uns e outros vão emitindo.

Quer se goste, ou não, dos meios de comunicação ou de difusão colectiva mais utilizados, a televisão vem desempenhando um papel cada vez mais penetrante nas vidas das pessoas e a influência que exerce é igualmente profunda, ao ponto de a todos subjugar como se fossem autênticos consumidores compulsivos, com influência na harmonia familiar e de outros afazeres diários.

Mas também não se pode deixar de anotar que ela constitui, actualmente, um elo de ligação, um veículo de solidariedade, uma companhia permanente, uma janela aberta para o mundo. Por isso, tal como em relação aos restantes órgãos de comunicação social, é preferível ficar-se com uma opinião positiva porque sempre se encontrarão benefícios, porventura em maior número do que os prejuízos.

Também aqui o novo cidadão do futuro não deve ser radical, mas moderadamente optimista, positivo, sensato. Neste sentido e para finalizar este ponto, no seu aspecto positivo, e na relação que existe entre a televisão e a família, considera-se muito interessante a seguinte análise: "A televisão pode ser um meio eficaz para favorecer a unidade da família à volta do lar, não porque seja capaz, nem muito menos, de substituir outros meios indispensáveis de carácter espiritual e moral, susceptíveis de criar e de fortificar os laços de amor e de fidelidade entre os membros da sociedade doméstica. Bem meritório seria aquele instrumento que conseguisse reter em casa grandes e pequenos (…) O espectáculo oferecido pela televisão pode contribuir para este fim, congregando toda a família à volta do televisor; mas para que esta reunião inesperada actue em sentido construtivo, é necessário que os redactores de programas se preocupem cada vez mais com o seu nível artístico, no respeito evidentemente devido aos justos critérios da moral humana e cristã." (PEREZ, 1985:28).

O cidadão do futuro deverá estar sensibilizado para conviver com os órgãos de comunicação social e preparado para compreender as razões de certas notícias, imagens e opiniões editoriais, sabendo ser crítico e construtivo quando o deve ser, sempre que possível, apontar os aspectos positivos e estimular, com os meios ao seu alcance, todos aqueles que têm responsabilidades na comunicação social.

Bibliografia
ALVES, Aníbal, (1983). Comunicação Social (Meios de), in Polis Enciclopédia Verbo da Sociedade e do Estado, Antropologia, Direito, Economia e Ciência Política, Lisboa/S. Paulo: Verbo, Vol. 1, Col. 1035.
ARAÚJO Miguel de, (Dir. /Coord), (1974). Dicionário Político. Os Bispos e a Revolução de Abril. Lisboa: ISPAGAL, pp. 98-99.
RODRIGUES, Adriano Duarte, (s.d.). A Comunicação Social, Lisboa: Edições Conhecer, Colecção Hoje e Amanhã - Temas Sociais, (12).


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