O bom funcionamento, na perspectiva multidimensional, de qualquer instituição, pública ou privada, depende de vários factores, destacando-se, a título exemplificativo, o melhor relacionamento possível com e entre todos os agentes que directa e/ou indirectamente mantêm contactos, negócios, acordos e relações, ainda que informais, com a organização, revelando-se de importância fundamental as parcerias que, entretanto, se estabelecem, desenvolvem e frutificam.
As Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia podem ser incluídas nesta última dimensão, a parceria que, natural e legalmente, podem (e devem) manter entre elas, independentemente de quaisquer posições pretensamente hierárquicas, preconceitos, orientações político-partidárias, princípios filosóficos e ideológicos. A razão essencial, supremamente válida e dignificante, prende-se com, pelo menos três objectivos fundamentais: bem-estar; desenvolvimento sustentável e felicidade das populações, servidas por estas duas autarquias, sempre com esta convergência de finalidades.
No actual quadro constitucional da organização político-administrativa de Portugal, o Poder Local Democrático, que integra Regiões Autónomas e Autarquias Locais, neste caso: Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia, tem-se revelado um poderoso instrumento, na resolução dos muitos problemas que envolvem as populações, principalmente nas pequenas localidades, dada a proximidade de um poder com rosto humano, oriundo (embora nem sempre assim aconteça) do próprio povo dessas mesmas localidades.
Neste contexto, é óbvio que a conjugação de: esforços, recursos, solidariedade, lealdade e cooperação entre as duas autarquias - Câmara Municipal e Junta de Freguesia -, constitui uma das melhores fórmulas para o sucesso das intervenções que aquelas instituições realizam, bem como para o conforto das populações. O desentendimento entre estes dois tipos de autarquias, apenas serve o divisionismo, o exacerbar dos ânimos e o prejuízo, imediato e incalculável, para a comunidade, porque nem a Câmara por si só resolve todos os problemas, nem a Junta consegue realizar os projectos de desenvolvimento que se comprometeu executar, sem a colaboração, a todos os níveis, da respectiva Câmara Municipal, da qual depende em variadíssimos aspectos.
O bom relacionamento entre os autarcas destas duas instituições - Câmaras e Juntas - é a "Pedra Filosofal" para o sucesso do Poder Local Democrático e a garantia para as populações de que as suas dificuldades, anseios e situações menos boas, terão maiores possibilidades de serem analisados e resolvidos. A fórmula para tal relacionamento é constituída por alguns valores de referência, essenciais, genuinamente humanos, exigíveis numa moderna comunidade, dos quais se destacam: lealdade, solidariedade, respeito, cooperação, tolerância e amizade, embora outros se possam adicionar como: a liberdade de expressão e de opinião; ainda que divergentes e quando manifestadas em local e tempo próprios, com respeito e humildade, flexibilidade e compreensão recíprocas.
Eventualmente, poderá tratar-se, à partida, de um problema de comunicação, talvez porque: "A comunicação é um processo complexo, porque envolve muitas formas de manifestação e de expressão, com diferentes finalidades. Ela é resultante da expressão do conhecimento, da inteligência e da emoção, e pode ser afectada por diversos factores ambientais. A comunicação está presente em todas as situações da vida - na convivência familiar, no trabalho, na participação comunitária, no amor e na amizade, nos negócios e no lazer, no ensino - e, em cada uma delas, requer diferentes maneiras de expressão." (RESENDE, 2000: 85-86)
Partindo da realidade existente e da análise efectuada, afigura-se pertinente avançar para medidas concretas ao nível da reorganização ou, caso já exista, do pelouro que contemple, de forma inequívoca e através de uma actuação eficaz, a parceria horizontal entre a Câmara Municipal e as Juntas de Freguesia, que a ela estão ligadas, institucional e democraticamente, para cooperarem em benefício das respectivas populações. Nesse sentido a criação e funcionamento, a tempo inteiro, do Gabinete de Apoio e Solidariedade às Juntas de Freguesia, parecendo não ser nada de inovador, a verdade é que ele não existe em muitos municípios portugueses, admitindo-se que possa haver outras formas, eventualmente mais explícitas, porém com menos dignidade e consideração daquelas que são devidas às Juntas de Freguesia.
Uma estrutura ao nível de Gabinete de Apoio às Juntas de Freguesia, seria suficiente para melhorar as intervenções das Câmaras Municipais e das próprias Juntas de Freguesia, desde que os técnicos das diversas áreas e os políticos - Presidente e Vereadores -, tivessem assento e, sempre que solicitados, emitissem os pareceres técnicos, necessários à tomada de decisão: quer por parte da Câmara; quer ao nível da Junta. O que habitualmente ocorre, em muitas vilas e aldeias, é que os membros da Junta, quantas vezes têm de saber sobre economia, gestão, engenharia, direito, administração, concursos diversos e tantas outras matérias, ou seja, têm de ser polivalentes, generalistas, e que apesar das melhorias nos sistemas: educativo e de formação profissional, ainda não é a realidade existente na constituição dos órgãos autárquicos, na maioria das freguesias portuguesas.
Por outro lado, os problemas de natureza social, com toda a carga emotiva que por vezes os caracterizam, levam os membros das Juntas de Freguesia a não decidirem ou a decidirem inadequadamente e, nesta última hipótese, eles vão arcar com todas as críticas e violências diversas, desde as psicológicas às agressões físicas como já tem ocorrido. (ainda recentemente se verificou o esfaqueamento de um Presidente de Junta de Freguesia - Fevereiro-2008).
Também nestas circunstâncias, o Gabinete de Apoio e Solidariedade para com a Junta de Freguesia teria uma função importantíssima, até no desanuviar de tensões populares. No entanto, o que muito frequentemente ocorre é algum abandono da situação, deixando à sua sorte os membros da Junta de Freguesia, justamente por alguns titulares dos restantes órgãos dos diversos poderes, inclusivamente, por aqueles que são nomeados pelo Poder Político e nem sequer se submetem a eleições, não dando a cara em nome de coisa nenhuma.
Urge, sem mais delongas nem preconceitos hierárquico-financeiros que as duas instituições - Câmara Municipal e Juntas de Freguesias, em cada Concelho, dêem as mãos e, solidariamente, enfrentem as dificuldades da governação autárquica, porque também ocorrem actos em que as Juntas de Freguesia acusam a respectiva Câmara Municipal de certas situações menos boas, com a agravante de o fazerem em público, desencadeando-se, depois, inevitavelmente, uma troca de acusações que só conduz ao extremar de posições, com prejuízos directos para o bem-estar e tranquilidade das populações.
Cumpre aos responsáveis das instituições tudo fazer, para que problemas e situações resultantes das dificuldades de relacionamento sejam resolvidos no local próprio, com lealdade e respeito, porque, também aos autarcas, se exige o dever de reserva, a fim de se evitarem conflitos institucionais, conforme a opinião de MAX NETLAU, (1929), in RODRIGUES, (s.d.165): "Fundar e manter a paz, equivale à criação e ao respeito de um mínimo de condições essenciais e favoráveis à coexistência das colectividades humanas, base do seu desenvolvimento individual próprio e de sua cooperação útil e fértil como resultante. Isto é, pois, uma das múltiplas evoluções da Humanidade que conduzem da sujeição e da força bruta, à convivência e tolerância mútuas; do egoísmo à solidariedade; (…) em resumo, da autoridade de direito, consagrada e perpetuada nas instituições, à liberdade vivida dentro do espírito e do coração dos homens, para que isto se torne a alma viva de todas as suas actividades."
Havendo um certo consenso, segundo o qual o poder local desenvolve-se no seio do povo, a responsabilidade dos autarcas é assim acrescida, porque eles, na grande parte das situações, são oriundos da comunidade local onde exercem as suas funções, por isso a sua influência sobre as populações é bem superior a qualquer outro nível do poder. O autarca vive com o seu povo, sente e emociona-se com as dificuldades, com os sucessos e os fracassos. O povo, até haver motivos para o contrário, confia nos seus autarcas e, por isso mesmo, não pode haver disputas político-partidárias que conduzam à desestabilização da comunidade.
Um esforço de contenção, nas palavras e nos actos, é o mínimo que se exige aos autarcas e candidatos aos diversos lugares das autarquias, bem como a todos quanto exercem funções públicas de responsabilidade, extensivamente ao sector privado que, naturalmente, continuará a ser um parceiro fundamental no desenvolvimento e progresso da sociedade, porque: "Sem a felicidade de todos ninguém pode ser feliz" ("A Vida", 1905, in IBID). Na verdade: "Este pregão dos redactores de "A Vida", partindo do Amor Fraterno e da liberdade consciente, do bem-estar colectivo, do respeito mútuo, era e será (se é que a humanidade quer realmente a paz) as ferramentas capazes de forjar e caldear os elementos humanitaristas que servirão de alicerces para um mundo novo sem vinganças, sem ódios e sem temores." (IBID)
O Gabinete de Apoio e Solidariedade às Juntas e Freguesia, ou qualquer outro Departamento com designação diferente, pode constituir-se numa excelente ferramenta para: não só apaziguar certos comportamentos entre políticos, partidos, movimentos e instituições; como também para relançar a esperança, recuperar a imagem e a dignidade que são devidas a toda a pessoa humana em geral e, na circunstância, a alguns titulares de determinadas funções em particular, devendo-se compreender, com tolerância e consideração que a fragilidade da condição humana, conduz, frequentemente, ao erro e que as probabilidades de errar são muito maiores naqueles que têm de tomar decisões, naqueles que exercem uma actividade, porque quem nada faz, também acaba por errar: primeiro, porque tinha a obrigação de participar, colaborar, trabalhar, produzir; segundo, porque quem critica tem a obrigação ético-moral de apresentar melhores alternativas e soluções para as situações e pessoas criticadas.
O exercício de boas-práticas de relações humanas, a partir da institucionalização de parcerias sólidas, leais e unidas, entre Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia, poderá ser parte da solução, para a maioria dos problemas e dificuldades. Numa postura ética e de total lealdade, nada justifica as "guerrilhas" que, por vezes, se lêem e ouvem nos meios de Comunicação Social, entre autarcas, entre políticos de outros níveis do poder, entre pessoas que, na verdade e com sinceridade até desejam o melhor para as suas comunidades.
No que às autarquias respeita, afigura-se, pois, da maior utilidade, o lançamento de um projecto de desenvolvimento de Relações Humanas, precisamente a partir do Gabinete de Apoio e Solidariedade às Juntas de Freguesia. Iniciado um tal projecto, este poderá ser sustentado, por exemplo, em acções de sensibilização a serem ministradas a todos os autarcas do Concelho - Executivo, Legislativo, Juntas, Assembleias de Freguesia -, bem como aos funcionários que, livremente, assim o desejem.
A convivência sadia entre autarcas, funcionários e comunidade é o método correcto para se obterem os melhores resultados, em todos os domínios da intervenção humana. Os legítimos e justos interesses das populações não são compatíveis com as frequentes quezílias entre políticos, independentemente das suas orientações ideológicas e filiação partidária. Consumada a eleição devem ser arrumados dos escaparates da propaganda eleitoral todos os utensílios materiais e inscrições psico-ideológicas. O povo precisa de paz, de bem-estar, de ver os seus problemas resolvidos, com justiça, compreensão, tolerância e apoio amplo.
O Gabinete de Apoio e Solidariedade às Juntas de Freguesia, ou qualquer outra estrutura similar, constituirá um instrumento de relações humanas de uma mais-valia incalculável, porque a ausência de diálogo, a inexistência de uma sã convivência, a carência de atitudes, comportamentos e acordos leais, entre outros aspectos, revela-se, certamente, um entrave nas boas relações que sempre devem orientar a sociedade.
Afinal, quer se queira ou não, segundo WILLIAMS, (1978: 11): "O homem é um ser social que, em sua busca do significado e orientação na vida, inevitavelmente encontra os problemas de auto-realização. Esta auto-realização como um indivíduo não depende, como pode sugerir o termo, de uma auto-contemplação solitária, mas basicamente de uma interacção com outros indivíduos. Para conhecermos a nós mesmos e sermos nós mesmos, para pôr à prova e desenvolver nossos valores pessoais, precisamos viver e trabalhar com outras pessoas."
Para além do objectivo primordial - desenvolver e consolidar boas relações pessoais e institucionais, entre os membros do executivo municipal e os autarcas das freguesias -, o Gabinete de Apoio e Solidariedade às Juntas, funcionaria, também, como o centro coordenador das actividades das freguesias, no qual se centralizariam planos de actividades, projectos, controle de despesas, encaminhamento de assuntos específicos para técnicos e entidades especializadas nos respectivos temas.
Neste Gabinete de Apoio e Solidariedade às Juntas de Freguesia, conceber-se-ia toda a estratégia que conduzisse ao cumprimento dos respectivos manifestos eleitorais de cada Junta de Freguesia, independentemente da força política que tivesse ganho as eleições, o que iria contribuir para a dignificação dos políticos-autarcas, em particular, e a credibilização do Poder Local Democrático, em geral. É justo e eticamente correcto que um Executivo Municipal apoie uma Junta de Freguesia do seu Concelho, mesmo que essa Junta tenha sido ganha, em eleições livres, justas e democráticas, por outra força política diferente.
Numa perspectiva de maior democratização do Poder Local, tendo por objectivo fundamental o tratamento equitativamente proporcional para cada Junta de Freguesia, cujos critérios e delegação de competências, bem como as transferências das correspondentes verbas, serão estabelecidos entre, e com todos os interessados, o Gabinete de Apoio e Solidariedade às Juntas de Freguesia deve ser presidido, supervisionado e conectado à Presidência da Câmara Municipal, directamente na pessoa do Presidente.
Aos objectivos já mencionados, alia-se, assim, o facto da importância e dignidade que devem merecer as Juntas de Freguesia e os legítimos titulares dos respectivos cargos, incluindo-se, aqui, os membros das Assembleias de Freguesia. Entre outros processos, este será um daqueles em que, inequivocamente, e de uma vez por todas se reconhece, pública e legitimamente, os relevantes serviços que as Juntas de Freguesia prestam às populações do país, em geral e às suas comunidades em particular, logo toda a solidariedade que lhes seja manifestada nunca será de mais.
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