Aquilo que poderia constituir uma benesse para qualquer instituição afortunada que de um momento para o outro se visse contemplada com meio milhão de euros, está a tornar-se numa (saudável) dor de cabeça para os compartes dos baldios de Riba d'Âncora.
Ao atravessar os montados da freguesia, o traçado do IC1/A28 entre Viana do Castelo e Caminha e a variante para Vila Praia de Âncora deceparam 40 dos 500 hectares de floresta que compõem este baldio, objecto de um processo de expropriação que agora se aproxima do fim, resultando em Junho do ano passado no recebimento de uma primeira indemnização de 560.000€ da parte da concessionária da obra (Euroscut), embora ainda existam outras importâncias por definir, incluindo juros, podendo representar mais 220 000€ para os cofres dos Baldios.
O Conselho Directivo (CD) dos Baldios de Riba d'Âncora aplicou esta quantia num depósito bancário a três anos, cujos juros negociados com uma das entidades bancárias contactadas (ainda antes da crise financeira), não mereceram reparos aos compartes reunidos no passado dia 27 de Março para apreciar e definir o seu destino final.
"O momento é singular: exige reflexão, participação, sentido de comunidade para que o legado que vamos deixar seja sustentável e vantajoso", afirmam os responsáveis pela gestão dos baldios de Riba d'Âncora.
APONTADAS TRÊS HIPÓTESES
Francisco Tobias, presidente do CD, apontou três hipóteses de aplicação do dinheiro: - aposta num projecto "ousado" no campo das energias renováveis, aproveitando uma área do montado ribancorense de longa exposição solar, cujo rendimento poderá "dar a tranquilidade financeira necessária" futura; investimento num projecto de equipamento social, com o pensamento virado para a construção ou ampliação do Centro de Dia, actualmente a funcionar no Centro Paroquial ou, como terceira possibilidade, a aposta na habitação social.
O tema foi deveras debatido pelos compartes, tendo chegado a ser sugerida a realização de um inquérito junto deles ou a criação de uma comissão integrando as instituições e forças vivas da freguesia, de modo a estudar a aplicação do dinheiro.
Após muita discussão sobre o "nosso baldio que é uma referência e que se deve manter", conforme destacou o comparte Flamiano Martins, e que está a suscitar vivo debate na freguesia, levando uma das integrantes do corpo directivo a reflectir em voz alta a razão pela qual "quando não havia dinheiro ninguém se preocupava com o Conselho Directivo e, agora, todos querem dar opiniões", os compartes presentes decidiram-se pelo seguinte:
Dar luz verde ao Conselho Directivo para que elabore um pré-estudo de viabilidade de instalação de uma central foto-voltaica nos baldios e, quando o tiver pronto, pedir a convocação de uma reunião extraordinária destinada a analisá-lo.
Entretanto, "vamos amadurecer ideias" sugeriu Luciano Santos, posição semelhante à de Domingos Velho, presidente da Assembleia de Compartes, recusando "acelerar o processo" porque "não temos nada que nos garanta a sustentabilidade" do projecto defendido por Francisco Tobias, adepto de uma maior rapidez na decisão a tomar.
Nesta ordem de ideias, a decisão final só deverá ser tomada no final do ano, altura em que "falaremos nisto novamente", prometeu Domingos Velho.
CASA FLORESTAL E DESTROÇADOR
Esta reunião permitiu ainda discutir o processo de integração na gestão dos Baldios da antiga Casa Florestal e de uma arrecadação, um caso que tem andado ao sabor das diferentes políticas do Terreiro do Paço e sem resolução à vista, e relativamente ao qual os compartes já estabeleceram um tecto de 50.000€ no caso de virem a necessitar de reembolsar o Estado, caso este aceda em vender esse património.
A equipa de sapadores florestais continua a merecer lugar de destaque na gestão destes baldios, a par da construção de mais apiários, pretendendo ainda o CD adquirir um destroçador que importará em 14.500€ e considerado uma "mais-valia" para a eliminação ou aproveitamento de resíduos florestais.
Desta forma, poderão ser reutilizados em compostagem ou atapetamento de jardins, ao invés de serem queimados como vinham procedendo até agora, o que implica custos elevados, explicou Francisco Tobias.