Jornal Digital Regional
Nº 334: 7/13 Abr 07 (Semanal - Sábados)
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MOLEDO

Serração da Velha encheu Centro Cultural
"Teatro também é brincar!"

Terminou já perto das duas horas da madrugada o espectáculo de teatro que um grupo cénico de amadores da freguesia levou ao palco do Centro Cultural de Moledo no passado dia 31 de Março, não deixando morrer uma tradição bem arreigada na aldeia.

Variedades, a comédia "Casa sem Criada", uma paródia ao festival da canção e o julgamento da velha preencheram a noite, durante uma representação realizada a favor do grupo de futebol da terra, o Centro Cultural e Desportivo Moledense, necessitado de verbas para enfrentar a parte final do campeonato e tentar a manutenção na Divisão de Honra.

Um elenco recheado de bons actores, em que voltaram a predominar o Quim Guardão e filha (quem sai aos seus…), animaram o espectáculo e evidenciando todos os seus dotes de bem representar.

As "deixas" que a condenada bruxa destinou a muitos dos seus conterrâneos e instituições locais, a sua leitura no final do julgamento realizado na comarca de Moledo e acompanhado de muito vinho, broa e chouriço, constituíram o ponto alto da soirée.

No entanto, uma das testemunhas (Quim Guardão, pois quem seria?) ainda "atiçou" mais o já picante momento que sempre se vive no final da representação, ao comentar quase todos os "testamentos", para gáudio da assistência, que aproveitava as pequenas folgas entre cada "deixa" para comentar, em pequenos murmúrios com o(a) vizinho(a) do lado o significado e o alcance de muita(o)s dela(e)s, quando não compreendida(o)s num primeiro momento.

A sátira algo corrosiva de muitas quadras lidas pela velha bruxa e os apartes (sempre improvisados) do actor moledense que persiste, ano após ano, em ser a figura central e mobilizadora da representação, varreram a sociedade moledense, mas tudo num espírito de mera brincadeira que ninguém pode levar a mal, como o próprio fez menção de referir, como que num acto de contrição perante tão avassaladora passagem a pente fino das fraquezas da carne e do espírito de muitos(a) dos visado(a)s.

É assim a Serração da Velha, uma tradição que se repete antes da Quaresma, como que exorcizando um ano de sucessos muitas vezes apenas comentados à boca pequena e que nesta data atingem uma dimensão pública…mas sem magoar ninguém. Pelo menos é essa a intenção

E quem tiver rabos de palha….o melhor é não pôr lá os pés, ou, então, assume "desportivamente" o que lhe calhar na rifa.

Pelos aplausos recebidos no final do espectáculo, a exigência de nova dose de humor satírico para o próximo ano não deixa dúvidas a ninguém.

GENTE NOVA PRECISA-SE

Quim Guardão só gostava que aparecesse "rapaziada nova, com sangue na guelra para ir para cima do palco" e criar um grupo que apresentasse representações ao longo de todo o ano e não apenas para encenar a Serração da Velha, que acaba por ser o único pretexto para reunir um grupo.

A sua preferência vai para as comédias -embora não desdenhasse entrar noutro género de teatro- porque "a vida é pesada e isto descomprime".

Este actor admite que, por vezes, algumas pessoas ficam "melindradas" mas pouco tempo depois esquecem a deixa que lhes calhou, porque o que quero "é fazer rir e o teatro é para brincar", dando como exemplo a interligação que pretende estabelecer com o público, quando, a determinado momento, tocou o telemóvel de uma assistente e ele mandou suspender a representação para que ela pudesse atender.

A sua veia artística terá sido herdada por intermédio de seu pai que, conjuntamente com o pai do arquitecto Horácio, foram dos maiores entusiastas da arte em Moledo, uma terra com grandes tradições.

"A minha filha também já se integrou neste grupo e mesmo o meu filho pequeno já dá os primeiros passos. Não sei se há algo de hereditário nisto", disse ao C@2000 este funcionário camarário, que desde 1983 dinamiza a representação da Serrada da Velha, embora a actuações remontem ao período pós-25 de Abril.

A encenação deste ano demorou mês e meio a preparar e movimentou 10 actores.

Registamos algumas das deixas:

Ao presidente da Junta
Deixo-lhe a minha selha
E cinco sessões de fisioterapia
Na clínica da Cruz Velha

Eu também quero pedir
Ao deputado Jorge Fão
Que se lembre do concelho
E se esqueça da nação

Ao juiz do nosso tribunal(*)
Que não é nenhum bezunta
Deixo-lhe lata e tinta
Para pintar as paredes da junta
(*)Era o presidente da Junta de Cristelo

À Junta de Freguesia
Deixo-lhe vassouras velhas
E que pelo menos na Páscoa
Limpe as ruas e as Quelhas

À Câmara de Caminha
Que deixe as mordomias
Muito dinheiro para dar
A todas as freguesias

Ao Augusto do Jovino
Presidente da Direcção
Deixo-lhe um árbitro comprado
Para não descer de divisão

Aos directores do Moledense
Deixo-lhes analgésicos
Para virem às reuniões
Porque andam bastante alérgicos

Ao senhor padre Valdemar
Que não é nenhum menino
Deixo-lhe uma ajudante jeitosa
Para tocar o sino

Ao pessoal de Caminha
E julgo que não me engano
Vou-lhe deixar muita vontade
Para voltar cá para o ano

À GNR de Caminha
E julgo que já faz falta
Deixo-lhe menos multas
Para não chatear tanto a malta

Às Finanças de Caminha
Que é só contribuições
A ela só posso dar
O forro dos meus colhões

Meus senhores e minhas senhoras
Desculpas são mais de mil
Mas hoje não levem a mal
Que hoje é o 1º de Abril

Música do conjunto Xotópito:

Apita o comboio
Ele vai a apitar
Apita o comboio
À beira do mar
Ele é bem rápido
Vai direito à foz
Junto do Camarido.

Apita o comboio
Apita sem medo
Leva muita gente
Até de Moledo,
Até de Moledo
Sempre a assobiar
Uns vão para a farra
Outros para espreitar

Apita o comboio sem andar na linha
Há muita gente, vinda de Caminha.

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