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MOLEDO
Serração da Velha encheu Centro Cultural
Terminou já perto das duas horas da madrugada o espectáculo de teatro que um grupo cénico de amadores da freguesia levou ao palco do Centro Cultural de Moledo no passado dia 31 de Março, não deixando morrer uma tradição bem arreigada na aldeia.
Variedades, a comédia "Casa sem Criada", uma paródia ao festival da canção e o julgamento da velha preencheram a noite, durante uma representação realizada a favor do grupo de futebol da terra, o Centro Cultural e Desportivo Moledense, necessitado de verbas para enfrentar a parte final do campeonato e tentar a manutenção na Divisão de Honra.
Um elenco recheado de bons actores, em que voltaram a predominar o Quim Guardão e filha (quem sai aos seus…), animaram o espectáculo e evidenciando todos os seus dotes de bem representar.
As "deixas" que a condenada bruxa destinou a muitos dos seus conterrâneos e instituições locais, a sua leitura no final do julgamento realizado na comarca de Moledo e acompanhado de muito vinho, broa e chouriço, constituíram o ponto alto da soirée.
No entanto, uma das testemunhas (Quim Guardão, pois quem seria?) ainda "atiçou" mais o já picante momento que sempre se vive no final da representação, ao comentar quase todos os "testamentos", para gáudio da assistência, que aproveitava as pequenas folgas entre cada "deixa" para comentar, em pequenos murmúrios com o(a) vizinho(a) do lado o significado e o alcance de muita(o)s dela(e)s, quando não compreendida(o)s num primeiro momento.
A sátira algo corrosiva de muitas quadras lidas pela velha bruxa e os apartes (sempre improvisados) do actor moledense que persiste, ano após ano, em ser a figura central e mobilizadora da representação, varreram a sociedade moledense, mas tudo num espírito de mera brincadeira que ninguém pode levar a mal, como o próprio fez menção de referir, como que num acto de contrição perante tão avassaladora passagem a pente fino das fraquezas da carne e do espírito de muitos(a) dos visado(a)s.
É assim a Serração da Velha, uma tradição que se repete antes da Quaresma, como que exorcizando um ano de sucessos muitas vezes apenas comentados à boca pequena e que nesta data atingem uma dimensão pública…mas sem magoar ninguém. Pelo menos é essa a intenção
E quem tiver rabos de palha….o melhor é não pôr lá os pés, ou, então, assume "desportivamente" o que lhe calhar na rifa.
Pelos aplausos recebidos no final do espectáculo, a exigência de nova dose de humor satírico para o próximo ano não deixa dúvidas a ninguém. GENTE NOVA PRECISA-SE
Quim Guardão só gostava que aparecesse "rapaziada nova, com sangue na guelra para ir para cima do palco" e criar um grupo que apresentasse representações ao longo de todo o ano e não apenas para encenar a Serração da Velha, que acaba por ser o único pretexto para reunir um grupo. A sua preferência vai para as comédias -embora não desdenhasse entrar noutro género de teatro- porque "a vida é pesada e isto descomprime". Este actor admite que, por vezes, algumas pessoas ficam "melindradas" mas pouco tempo depois esquecem a deixa que lhes calhou, porque o que quero "é fazer rir e o teatro é para brincar", dando como exemplo a interligação que pretende estabelecer com o público, quando, a determinado momento, tocou o telemóvel de uma assistente e ele mandou suspender a representação para que ela pudesse atender. A sua veia artística terá sido herdada por intermédio de seu pai que, conjuntamente com o pai do arquitecto Horácio, foram dos maiores entusiastas da arte em Moledo, uma terra com grandes tradições. "A minha filha também já se integrou neste grupo e mesmo o meu filho pequeno já dá os primeiros passos. Não sei se há algo de hereditário nisto", disse ao C@2000 este funcionário camarário, que desde 1983 dinamiza a representação da Serrada da Velha, embora a actuações remontem ao período pós-25 de Abril. A encenação deste ano demorou mês e meio a preparar e movimentou 10 actores. Registamos algumas das deixas: Ao presidente da Junta
Eu também quero pedir
Ao juiz do nosso tribunal(*)
À Junta de Freguesia
À Câmara de Caminha
Ao Augusto do Jovino
Aos directores do Moledense
Ao senhor padre Valdemar
Ao pessoal de Caminha
À GNR de Caminha
Às Finanças de Caminha
Meus senhores e minhas senhoras
Música do conjunto Xotópito: Apita o comboio
Apita o comboio
Apita o comboio sem andar na linha
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