Jornal Digital Regional
Nº 300: 29 Jul a 4 Ago 06 (Semanal - Sábados)
Email Assinaturas Ficha Técnica Publicidade 1ª Pág.



TRIBUNA
Espaço reservado à opinião do leitor


Carta Educativa
Os escolhidos

A Carta Educativa do Concelho de Caminha, integrada na da VALIMAR ComUrb, foi aprovada na passada Sexta-feira, 21 de Julho, pela Assembleia Municipal de Caminha, apenas com os votos do PSD. Oportunamente apresentei a minha discordância face a esta carta; considerei-a, de forma sustentada, um erro colossal, classifiquei-a de carta política e procurei informar, claro que sem incumbência, dos riscos acrescidos da diminuição do território educativo (TE) do Agrupamento de Escolas do Vale do Âncora, não só para este vale como para todo o concelho. Finda esta etapa do processo só me assola a expressão "os escolhidos". Isto porque de uma escolha se tratou. Assim, elencando-os(as), foram escolhidos(as):

1. Os critérios de confusão para (des)informar: Criou-se a ideia de que discutir a carta educativa era decidir sobre o encerramento de escolas, surgindo a desculpa do Governo (como não entenderam o logro? Se disso se tratasse para que seria obrigatório, com carácter vinculativo, votar esse documento em Assembleia Municipal?);

2. Os argumentos falaciosos alternativos: Divisão do concelho fruto da vontade de alguns, do presidente da Junta de Vila Praia de Âncora inclusive (sujeitando-se a ouvir um colega de bancada a classificar esse debate de disparatado e estéril), de alimentar a esperança de criação do concelho do Vale do Âncora, o que deve ser respeitado. Efectivamente não era essa a questão, mas a Câmara Municipal sabia que apelar ao bairrismo condicionaria a reprovação desta carta;

3. Os deputados municipais que aprovaram o documento, primeiro pelo povo que os escolheu, depois pela... registada nas várias substituições;

4. Os cinco minutos estanques para que cada deputado(a) se pronunciasse sobre o assunto, bem justificado com o regimento, mas revelador de uma vontade férrea de rapidamente votar (não fosse alguém, fruto do cansaço e no meio da confusão errar o voto!);

5. Os paladinos do saber, com intervenções demonstrativas de nada perceberem de educação, semeando inclusivamente, e de forma errada, a mensagem de encerramento de instituições de ensino sólidas e credíveis, nacional e internacionalmente;

6. O momento do "estala o verniz" que fez a verdade surgir: É uma decisão política, fruto de um compromisso assumido com Dem, sinal de uma solidariedade com as Argas (3 votos na Assembleia), contra a vontade dos pais, dos filhos por eles representados, dos autarcas afectados e de toda a comunidade educativa do Vale do Âncora;

7. As referências ao outro tempo, aquele em que se estudava apenas em Caminha e Viana, faltando apenas a comparação do número (Quantos alunos concluíam a 4ª classe e continuavam os seus estudos?);

8. Os que têm direito à palavra e os que são calados: pela primeira vez, desde a introdução de microfones nesta Assembleia, foi desligado na mesa o canal do microfone que regista as intervenções, numa atitude que enferma o princípio democrático que rege o maior órgão do município;

9. Os que no público podem zurzir (com palavras, entenda-se) sem repreensão e os que, com recurso à legislação, são alertados para se remeterem ao silêncio, mesmo que sejam contrariados na sua verdade;

10. Os votos que sustentam qualquer decisão desta Assembleia: A disciplina de voto impera sobre qualquer assunto, o que significa que os 18 eleitos do PSD, juntamente com os 3 eleitos das Argas farão aprovar toda e qualquer proposta deste executivo camarário. Por mais voltas no texto, ficou claro quem pode querer, quem pode mandar (e quem se deixa mandar), quem pode decidir, neste mandato;

11. Os documentos, e as leituras, que podem ser mostradas para a conveniência do voto;

12. Os documento, e as leituras, que são liminarmente apagados(as), julgados(as) despropositados(as), entendidos(as) como manipuladores e eclipsados(as) pela fuga à questão essencial;

13. Os efeitos imediatos desta carta educativa: A liberdade de escolha de matrícula dos pais de Orbacém e Gondar é condicionada pela falta de disponibilidade de igualdade de circunstâncias (Os alunos de Gondar e Orbacém apenas terão direito ao transporte escolar caso que matriculem em Dem, durante todo o 1º Ciclo, apesar deste transporte estar, obrigatoriamente, disponível para os que frequentem os 2º e 3º Ciclos no Agrupamento do Vale do Âncora);

14. A ocultação de que a curto prazo se quer promover o fim do Agrupamento do Vale do Âncora, bem como a diminuição do papel de outras instituições de ensino e formação deste vale, e aí, não é difícil, por mais banhos de retórica demagógica a que sujeitem os seus, compreender que a expressão "Vale do Âncora" desaparecerá.

Não restam dúvidas da incapacidade destes escritos, que visam esclarecer e fortificar o debate, face à inactividade individual medida na prévia selecção do voto. Mas "Escrever é uma maneira de falar sem ser interrompido" (Jules Renard) e "Antes de escrever, portanto, aprendei a pensar " (Nicolas Boileau). A decisão foi tomada e ficará para sempre associada aos que nela votaram e aos que optaram por não participar nesta decisão.

Joaquim Celestino Ribeiro

PERISCÓPIO SOCIAL

A Carta da discórdia

Na passada sexta-feira, dia 21 de Julho, reuniu a Assembleia Municipal de Caminha em Sessão Extraordinária para, segundo a Ordem de Trabalhos, aprovar a Carta Educativa da Valimar Comurb.

A sala estava cheia e o público, composto por profissionais da educação, pais e encarregados de educação, esperou ansiosamente pelo veredicto final: a Carta Educativa iria, ou não, ser aprovada? Foram necessárias horas para que a deliberação fosse conhecida.

Quanto à forma como a Assembleia foi dirigida, há reparos que merecem ser referenciados: 1) o tempo dado pelo Presidente da Assembleia (Sr. Abílio Silva) para debater este assunto, foi pouco para assunto tão importante como é o caso da Educação dos nossos filhos; 2) desligar o microfone a um deputado quando, no final da Assembleia, estava a fazer uma intervenção.

Com o início dos trabalhos, cedo se percebeu que os membros desta Assembleia estavam divididos, por um lado, a Direita (PSD) no poder e favorável à aprovação e, por outro, a Esquerda (PS e CDU) a favor de uma revisão do documento.

A argumentação do PSD baseava-se nos seguintes pontos:

1) A culpa do encerramento das escolas é do Governo (assunto que nada tinha a ver com a carta educativa pois, não é o Governo quem decide onde vão ser criados os Centros Educativos mas sim a Câmara Municipal de Caminha, a quem cabe a elaboração deste documento e a responsabilidade do encerramento das escolas bem como dos Centros Educativos que abre);

2) As crianças das Argas também precisam de uma escola (as crianças das Argas já vão à escola mas, o que estava por trás deste argumento, era o namoro ao voto dos Presidentes de Junta destas Freguesias);

3) A atitude conservadora de não reconhecer que, na realidade, vale do Coura e vale do Âncora são realidades diferentes do ponto de vista da identidade social. Sobre este assunto, falaremos mais à frente.

A argumentação da Esquerda (PS e CDU) centrava-se nos seguintes pontos:

1) A Carta Educativa apresentada funda-se na previsão demográfica (sem introdução de outras variáveis que podem alterar o crescimento, ou não, da população nomeadamente a variável económica);

2) A Carta Educativa é preparada por uma equipa que não engloba profissionais da área da educação;

3) A criação do centro educativo em Dem será um gasto excessivo pois, a curto-médio prazo, encerrará por falta de alunos e porá em risco a continuidade do Centro Educativo de Riba de Âncora;

4) Os pais e Encarregados de Educação, não foram devidamente ouvidos pelo que estas mudanças devem ser feitas com a sua colaboração e, os pais de Gondar e Orbacém, querem os seus filhos no vale do Âncora;

5) Pôs-se em causa a legitimidade de esta Assembleia Municipal votar a Carta Educativa da Valimar Comurb que, à partida, deveria ser sancionada pela entidade competente, ou seja, a Assembleia Geral desta Comunidade Urbana pois a Assembleia Municipal de Caminha não tem competências supra municipais;

6) A ideia progressista do multiculturalismo do Concelho de Caminha que se reparte pelos vales do Âncora, Coura e Minho dando, por isso, relevo ao facto de cada vale ter a sua história e a sua identidade.

Vamos então abordar a questão da identidade pois, em alguns discursos, foi referenciada e, várias vezes, confundida com outro conceito que é o de vizinhança.

Como sabemos, os países, as regiões, os concelhos, as freguesias nascem, com certeza, de países, regiões, concelhos, freguesias que já existem. Isto para recordarmos que, o facto de Dem ter origem em lugares de Gondar não significa que tenham a mesma identidade. Por exemplo, Portugal nasceu de Castela e os galegos (a menos de um quilómetro de distância) não têm a mesma identidade que os portugueses. Aliás, aquando da discussão da adesão de Caminha à VALIMAR Comurb e não à Comunidade Intermunicipal do Vale do Minho, alguém se justificava referindo que tinha mais afinidade com Viana do Castelo do que com a Galiza.

Vamos então tentar contribuir para a compreensão deste conceito, do que estamos a falar no que se refere à identidade. Só assim poderemos perceber as razões que levam os Pais e Encarregados de Educação de Orbacém e Gondar a lutar pela educação dos seus filhos no vale do Âncora, seu território.

E começamos pela noção de território que, inicialmente, foi tratado pelas Ciências Naturais, onde se estabelecia a relação entre o domínio de espécies animais ou vegetais com uma determinada área física. Posteriormente, foi incorporado pela geografia, que relaciona espaço, recursos naturais, sociedade e poder. Em seguida, diversas disciplinas passaram a associar-se o debate, entre elas a Sociologia, a Antropologia, a Economia e a Ciência Política.

O território surge, portanto, como resultado de uma acção social que, de forma concreta e abstracta, se apropria de um espaço (tanto física como simbolicamente), e, por isso, denominado processo de construção social enquanto que o espaço está relacionado com o património natural existente numa região/localidade.

Nas ciências sociais, as discussões sobre a identidade assumem duas formas mais importantes, a psicodinâmica e a sociológica.

A psicodinâmica, no discurso freudiano é a identificação, através da qual a criança assimila pessoas ou objectos externos (geralmente o superego de um dos progenitores). Pelo que, esta perspectiva, enfatiza o cerne de uma estrutura psíquica como tendo uma identidade contínua e, essa continuidade, significa a capacidade de permanecer na mesma a meio de uma mudança constante. Assim, a identidade é um processo localizado no cerne do indivíduo e, contudo, também no âmago da sua cultura comunitária, um processo que estabelece, na verdade, a identidade dessas duas vertentes.

Para a Sociologia, a questão da identidade está ligada ao interaccionismo simbólico, ou seja, qual o meu eu? Quem sou eu? O eu é uma capacidade caracteristicamente humana que permite às pessoas ponderar de forma reflexiva sobre a sua natureza e sobre o mundo social através da comunicação e da linguagem. Segundo Mead, este eu, divide-se em duas fases o "Eu" e o "Eu Mesmo". O "Eu" é a reacção do organismo à atitude de outros; o "Eu Mesmo" é o conjunto de atitudes organizadas dos outros que a pessoa assume ela mesma. É este "Eu Mesmo" que está mais ligado à identidade, o processo concessão do nome, de nos orientarmos no território, de nos colocarmos, nós mesmos, em categorias socialmente construídas.

Nós somos tradição e memória, é por isso mesmo, que Dem não tem a tradição e a identidade do vale do Âncora. As gentes do vale do Âncora construíram-se no curso de um rio (o rio desce a montanha, não a sobe) onde se lavava a roupa, onde existem moinhos e lagares, onde a nascente e a foz se encontram ligadas pelos costumes, usos, tradições e, acima de tudo, pelo seu território. Todo o Homem defende o seu território porque tem memória da terra que é sua. Maquiavel, aconselha o Príncipe a ter o cuidado de nunca roubar o território por ser o local onde as comunidades afirmam a sua identidade, mas antes a ocupá-lo e a respeitar a sua estrutura social pois o Homem esquece mais depressa a morte de um familiar do que a perda do seu território.(sic) Só quem nunca pertenceu a nenhum território pode afrontar e argumentar contra a questão da identidade. Há sempre excepções à regra e, certamente que a votação da Assembleia Municipal provou isto mesmo no que toca aos eleitos do vale do Âncora que, votaram favoravelmente, um documento atentatório dos interesses da comunidade ancorense.

Para terminar a crónica sobre esta Assembleia Municipal, gostaria de dizer que assisti e não achei piada: a Sra. Presidente da Câmara de Caminha, com a educação que se lhe reconhece saudou todos os presentes (Deputados Municipais, Comunicação Social…) e imagine-se que, a Presidente de todos nós, se comportou como a presidente só de alguns ao saudar somente os munícipes que "não estavam instigados a assistir àquela reunião"!? Ficámos a saber que a Dra. Júlia Paula só saúda os munícipes que lhe prestam vassalagem, aqueles que discordam das suas opiniões não são saudados porque estão manipulados por alguém. Será que a nossa Presidente de Câmara nos está a instigar para lhe alienarmos a nossa consciência e os nossos valores? Por mim, não assino nada que ponha em causa o meu livre arbítrio, sempre fui e serei um homem livre, capaz de assumir os meus actos e sem lógicas partidárias, apenas a minha consciência.

Pedro Ribeiro

ROTA DOS LAGARES DE AZEITE DO RIO ÂNCORA
Autor
Joaquim Vasconcelos
Ambiente
Animação
Cultura
Desporto
Distrito
Educação
Empresas
Freguesias
Galiza
Justiça
Óbitos
Pescas
Política
Roteiro
Tribuna
Turismo
Saúde
Sucessos
MEMÓRIAS
DA
SERRA D'ARGA
Autor
Domingos
Cerejeira