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UM ACTOR CAMINHENSE FALA AO C@2000 SOBRE AS DIFICULDADES DA ARTE NESTE PAÍS
Tiago Fernandes é um jovem actor formado na Universidade de Évora, actualmente em regime de "contratado", é pago à peça (é o termo mais correctamente aplicável nesta situação), sempre que o Teatro do Noroeste, de Viana do Castelo o chama para participar em qualquer encenação, como foi o caso de uma "versão compacta" de 15 minutos de duração da Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, levada a todas as escolas do concelho vianense, após o que é estabelecido um diálogo com os alunos, "com excelentes resultados", reconheceu. PROFISSIONALISMO INCOMPORTÁVEL Admite que nos dias de hoje, tal como o teatro se encontra, é impossível manter uma companhia profissional com 16 elementos, como já sucedeu com o Noroeste, obrigando a que apenas haja um actor residente, sendo os demais chamados a integrar-se nos elencos, conforme as necessidades de cada peça. O jovem actor nascido em Lanhelas, embora tendo vivido desde a infância em Seixas, vai participar num novo trabalho desta companhia intitulado "Piolhos e Actores", de Sanchez Sinisterra, uma história de dois actores do século XVII que fazem teatro de rua. Ainda no campo cénico, Tiago Fernandes foi convidado pela Junta de Freguesia a dar umas aulas a crianças entre os 3 e os 6 anos do Jardim de Infância de Gondarém, uma prática já habitual no estrangeiro, onde termos como teatro-terapia ou dramo-terapia são comuns, nomeadamente no aperfeiçoamento da linguagem dos mais novos. Considera uma excelente experiência a seguir por outras escolas, rebatendo a ideia de que será perder tempo trabalhar o teatro com miúdos. "Nestas idades, eles próprios já fazem teatro. Pegam nos tachinhos e brincam aos pais e filhos". Numa tentativa de diversificar as suas actividades, lançou-se também no cinema, tendo entrado na realização de uma curta-metragem, "em que exigem muito de nós, dinheiro inclusivamente posto do nosso bolso", adiantou. Reconhece que está a gostar desta nova experiência, esperando que vá resultar e permitindo-lhe alguma "projecção que me possa abrir outras portas". TEATRO EM BAIXA EM PORTUGAL No entanto, encara com evidente frustração o panorama dos espectadores deste país. "Associam o teatro aos actores de novelas, coisa que nunca fiz, nem é isso que eu espero do futuro, embora haja pessoas que vivam disso", como frisou, exemplificando ainda com outro exemplo da noção que as pessoas possuem dos actores: "Vieram convidar-me para distribuir balões, disfarçado de palhaço, no lançamento de um novo carro!", depois de o terem visto representar em Caminha.
É que Tiago Fernandes participou num projecto teatral de jovens na sede do concelho, quando foi levado ao palco a peça "Conversas de Café", pela CaminhaJovem - a primeira oportunidade que alguns tiveram para se estrearem como actores. Quiseram prosseguir com a adaptação de um texto de António Torrado para quatro actores, mas os direitos de autor que teriam de pagar, fê-los desistir, designadamente para um grupo de amadores, sem possibilidades de suportar quantias elevadas. "Vamos agora tentar uma peça de um autor estrangeiro (Pactrick Miber), intitulada "Closer", já estreada no Teatro Nacional de Londres, esperando que ele seja compreensivo", para as dificuldades do grupo em suportar os custos dos direitos de autor. Aludiu ainda às dificuldades em juntar actores amadores que apenas podem ensaiar aos fins-de-semana ou nas férias, pelo que todos estes problemas têm impedido a consolidação do grupo. VALADARES SEM ESPAÇO
A questão da recuperação do Cine-teatro Valadares foi igualmente abordada, salientando que após a sua aquisição, há que recuperá-lo. Salientou que já tinha sido muito mais "romântico ou fundamentalista" sobre a recuperação do imóvel, mas após conversar com um especialista (Ernesto Silva) em questões de segurança, algumas dúvidas o assaltaram, face à dificuldade em torná-lo eficaz em termos de produção de espectáculos e número de espectadores. Esse técnico tinha-lhe dito que a adaptação do interior desse espaço às medidas de segurança exigíveis, "torná-lo-iam uma coisa ridícula, sem espaço". "Quase ficaria sem palco, nem bastidores, contudo, toda a gente fala do Valadares, incluindo os meus pais". VALADARES COM HISTÓRIA Recordou que quando esteve a estudar em Évora, encontrou uma História do Teatro Português datada de 1908, com a listagem dos principais teatros portugueses, em que o Valadares "era um dos que aparecia em primeiro lugar", havendo referência a actuações das melhores companhias espanholas nesta casa de espectáculos. Contudo, apesar de cativado para a auréola que rodeou o Valadares ao longo dos anos, optaria por torná-lo um espaço "arqueológico", ao invés de manter a suas funções no campo das artes, limitando-o a pequenos espectáculos, dando como exemplos a realização de um Festival de Monólogos ou em "show-cares" onde novos cantores e bandas possam mostrar os seus dotes. Insistiu: "Deixar Caminha sem teatro, não", embora o concelho precisasse de um teatro como o que existe em Paredes de Coura. |
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