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TRIBUNA
Espaço reservado à opinião do leitor
À hora do chá, de reconhecido valor medicinal, se apresentou o Sr. Sucesso a Sua Majestade D. Gambozino, a quem saudou gentilmente.
Depois de uma breve troca de impressões, generalistas e banais, se dignou o amigo Sr. Sucesso, de peculiar filosofia, solicitar a compreensão de D. Gambozino para a sua intencional dúvida:
- Por que é que Vossa Alteza ironiza, indisfarçavelmente, certas situações e ocorrências do quotidiano político-social?
- Os vossos concidadãos é que, em confidência, desabafam suas amarguras, enquanto vítimas da mais discriminatória injustiça que os afronta sem dó nem piedade: o desemprego, o trabalho precário, as cunhas e pseudo-concursos internos, a miséria e a fome, as condições infra-humanas de alojamento, as miseráveis reformas, as reduções das comparticipações na doença, etc., etc.
- Isso é verdade, contudo Vossa Majestade, desculpe que lhe diga, mas também nada faz para alterar a realidade!
- É possível! A mim, compete-me abrir horizontes, apontar caminhos. E aos vossos concidadãos, cabe a missão de os assumir e percorrer, para transformação do pântano. Se quiserem. Por isso, lhes vou dizendo, como o vosso célebre e destemido António Vieira: abram os olhos! Não se deixem comer!
- Coitados! Eles não têm força para mudar rigorosamente nada! E ficam marcados. "Em terra de lobos uiva como eles" é a minha teoria. Estou sempre de bem com quem está no poder, dou-lhes "graxa", e eles ficam todos babados, e eu cá me vou safando com sucesso, cuja alcunha me ficou.
- A isso, ao egoísta "dou-lhes graxa", se chama hipocrisia, cobardia, imposturice, bajulice, sabujice, impróprias dum gambozino, que é animal, e ainda mais vis num ser humano que se diz racional…que diz ter moral, religião, etc. e tal. Uivem como eles, mas combatam como eles, que lutam pelo seu território.
- Pois é, mas o nosso poder tem "a faca e o queijo na mão". Não se pode provar, mas que é vingativo, lá isso é. Não se pode provar, mas que as autarquias são mães para uns, madrinhas para outros e madrastas para outros, lá isso são. E eu tenho filhos, que podem precisar… E isto é como a história do lobo e do cordeiro (se não foste tu foi teu pai, e se não foi teu pai foi teu antepassado, etc.).
- Linda (pseudo)democracia a vossa!! Tendes a democracia que mereceis; tendes a democracia que quereis. Porque tudo está nas vossas mãos. Sabe como é que acabou a Inquisição, a escravatura e a vossa velha ditadura? Com empenhamento e coragem. Porque houve homens a sério; homens inconformistas que resistiram, que não se acobardaram.
- Está certo, mas esta vida são dois dias, que depressa passam!
- Dizem que são dois dias, mas ninguém quer passar mal, fome e miséria nesses dois dias. E o povo tem mais força do que parece! Tem a força do voto, que é secreto, capaz de alterar tudo. Se quiser! Sem ter que dar a cara! E querer é poder.
À hora do chá, D. Gambozino, como se vê, não se cansou de dar chá, independentemente dos resultados, a curto, médio ou longo prazo.
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A madrugada de 25 de Abril de 1974 ditou um novo percurso para Portugal, depois de quase meio século de ditadura fascista. Portugal acordou, genericamente, espantadamente feliz, apesar de alguma perplexidade, sobretudo das camadas menos esclarecidas da sociedade. E o relato dos acontecimentos vividos durante e após o 25 de Abril, com maior ênfase para a instabilidade seguida, prossegue e é do conhecimento público. Pautado por alguma indefinição, ajudado por aqueles que, primeiro fora e depois sem organização, rapidamente se quiseram colocar nos patamares superiores das chefias de estado, tendo, em alguns casos, desenvolvido uma acção contrária aos princípios da revolução dos cravos, o curso da nação, nestes trinta anos, deambula em ensejos de socialismo, em réplicas liberais europeias, em neoliberalismos com alianças transatlânticas, culminando numa posição de enfraquecimento social, retrocesso que impele à lembrança de que a revolução não se dissolveu na evolução, mas que a evolução se deveu à revolução. Escamotear a carga ideológica ou entregar as honras comemorativas de Abril aos que não estragariam o figurino de 24 de Abril, é negar a liberdade popular, é negar a identidade mais recentemente conquistada pelos portugueses.
Em 1974 muitos portugueses viveram a revolução de forma bem diferente. Refiro-me aqueles que eram novos de mais para nela participarem activamente, mas demasiado velhos para serem considerados, como já foram, de filhos de Abril.
A segunda metade da década de 1960 e início de 1970 trouxe ao mundo portuguesas e portugueses que registaram no seu crescimento e na sua formação as cargas ideológicas bem patentes durante a segunda metade da década de 1970; foram impregnados pelos medos da ditadura que poderia voltar; foram alvejados pelas falácias anticomunistas (aqueles que comiam criancinhas!); viram a infeliz ira face aos retornados (vox populum na altura); assistiram a alguns momentos de terror já no início dos anos oitenta; e, quando começavam a pensar, viram-se num projecto europeu (CEE), por ventura mal definido ou prematuramente assumido; receberam o avanço tecnológico, com a introdução dos PC's (personal computers) já na sua formação superior; e com tanta mudança, com tanta alteração no seu percurso formativo, reflexo dos reajustes das políticas nacionais às necessidades criadas, foram ainda apelidados, por alguns, de geração rasca, por sinal os mesmos que agora fizeram da tanga o chavão social!
Hoje, na idade adulta, estas mulheres e homens, demasiado velhos para que não se lembrem das vivências nacionais no pós 25 de Abril, sem contudo terem nelas qualquer ónus, como encaram os trinta anos da revolução? Que maturidade vêem nesta nossa democracia? Que projectos defendem para Portugal? Que intervenção terão já a curto prazo na sociedade nacional? Inegável é que esta geração, hoje na casa dos trinta anos, por vezes, e talvez justamente, apelidada de geração esquecida, assumirá rapidamente um papel preponderante, quer ao nível local, regional (porque a definição regional existe), nacional e internacional.
Esta geração já não se digladiará nas culpas sem rosto do que correu mal ou bem no passado. São herdeiros de uma outra geração, aquela que serviu dois senhores, ou que combateu um para não ser acolhido pelo outro. Ou ainda que não serviu nenhum, acatando e cumprindo os desígnios divinos do deus todo poderoso que assim quis e vai querendo que os homens vivam, por vezes, como agora, cada vez mais pobres, cada vez com menor assistência médica, cada vez menos protegidos socialmente, cada vez mais devedores de um estado que se diz credor daqueles que o sustentam, os trabalhadores portugueses.
Não tendo vivido no auspício da ditadura, as mulheres e homens que lembro nestas notas, sabem o que ela representou, até porque foram educados por os que nessa ditadura haviam sido formados. Sentem com toda a certeza que a memória de Abril é imortal e é digna de honradez.
É merecidamente justa a homenagem aos organizadores e executores da revolução dos cravos.
É a eles que devemos gratidão.
Às mulheres e homens que eram demasiados novos em 1974, e onde me incluo, faço votos de perpétuo lembrar das raízes democráticas de Abril, de defesa de uma sociedade justa, uma sociedade humana, uma sociedade sem classes, uma sociedade fraterna onde não cabe a exploração do homem pelo homem.
Viva o 25 de Abril!
Joaquim Celestino Ribeiro
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MEMÓRIAS DA SERRA D'ARGA |
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Autor Domingos Cerejeira |
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