CONCELHO DE CAMINHA



UM MOSAICO DE PAISAGENS

Jornal Digital Regional
Nº 182: 24/30 Abr 04 (Semanal - Sábados)

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Exposição da EB 2,3/S de Caminha

Caminha e o 25 de Abril

Galeria Caminhense (Terreiro)

21 de Abril a 1 de Maio de 2004
10-12 h / 14-19 h

Actividades da semana

24 de Abril, Sábado, 17.30 h
Projecção do filme "Capitães de Abril"
de Maria de Medeiros (2000)

26 de Abril, 2ª feira, 17.30 h
Conversa com …Fausto Gonçalves,
soldado caminhense no 25 de Abril

27 de Abril, 3ª feira, 11.00 h
Conversa com … Marques Júnior,
Capitão de Abril e Conselheiro da Revolução

27 de Abril, 3ª feira, 17.30 h
Projecção do filme "Bom Povo Português" de Rui Simões (1980)

28 de Abril, 4ª feira, 15.00 h
Conversa com … Horácio Silva,
Presidente da Comissão Administrativa do Concelho de Caminha (1974-1976)

29 de Abril, 5ª feira, 17.30 h
Projecção do filme "Cinco Dias, Cinco Noites"
de José Fonseca e Costa (1996)

30 de Abril, 6ª feira, 17.30 h
Conversa com … Juventudes Partidárias
de Caminha em 2004


Entrevista com Fausto Gonçalves,
soldado caminhense no 25 de Abril

"Sinto que ajudei a libertar Portugal !"

Então com vinte anos e a cumprir o serviço militar na Escola Prática de Cavalaria em Santarém, foi um dos 240 soldados despertados subitamente na madrugada de 25 de Abril de 1974 pelo Capitão Salgueiro Maia para ir até Lisboa derrubar a ditadura. Do Terreiro do Paço até ao cerco do Quartel do Carmo, passando pelos momentos de tensão na Rua do Arsenal, este caminhense seria assim um participante activo do mais importante acontecimento político da história recente de Portugal que ainda hoje, trinta anos passados, recorda com imensa alegria e justificado orgulho.

Sabemos que na altura do 25 de Abril o Fausto estava a cumprir o serviço militar em Santarém, mas que em 16 de Março ainda estava no Quartel das Caldas da Rainha quando se deu a "Intentona das Caldas". O que aconteceu nesse dia ?

FAUSTO GONÇALVES (FG) - Desse dia posso contar muito pouco porque o que sei foi aquilo que encontrei depois do fim-de-semana em casa. Cheguei a Caminha num Sábado, porque nessa altura não havia fim-de-semana à sexta-feira, e quando cheguei foi quando me contaram o que se tinha passado, pessoas daqui da terra, toda a gente a perguntar e nós não sabíamos responder, mesmo eu e muitos colegas que estavam na altura ninguém sabia contar absolutamente nada do que se passou …

Sei que quando regressámos ao quartel, muitos dos nossos superiores hierárquicos tinham sido presos porque estavam envolvidos na tentativa de golpe. Esses oficiais foram presos e encaminhados para um local que já não me recorda qual foi.

Antes do 16 de Março, sentia-se alguma coisa de diferente no ambiente do Quartel das Caldas ?

FG - Nada, absolutamente nada. A recruta estava a correr normalmente e nunca se passou nada de especial, nada que uma pessoa pensasse que estaria para acontecer aquilo que se passou.

Como é que o Fausto estava em Março nas Caldas e depois, em Abril, estava já em Santarém ?

FG - A recruta era de três meses e, como entrei no dia 14 de Janeiro, no fim de Março praticamente acabou a nossa recruta. A partir daí tínhamos uns dias de férias e passávamos à especialidade que era em Santarém. Portanto, em Abril fui para Santarém para tirar a especialidade de Polícia Militar. Talvez por mérito ou por ser uma pessoa bastante encorpada perguntaram-me qual era a especialidade que gostaria de ter, e eu sabia que, um dia mais tarde se eu tivesse que ir para Angola, como fui, ou para outro local em África, iria só para a cidade, nunca iria para o mato …

Como foi o seu despertar na madrugada de 25 de Abril de 1974 em Santarém ? Já sabiam antes o que ia acontecer ?

FG - Não, não sabíamos o que ia acontecer, quem sabia eram os nossos superiores hierárquicos …

Como já disse, estava lá há poucos dias e a especialidade de Polícia Militar, como as outras especialidades que se tiravam ali em Santarém, eram bastante pesadas. Tínhamos bastantes passeios nocturnos e de fazer exercícios muito puxados. Fazer rondas muito difíceis e surpresas até durante a noite … Era um quartel que realmente preparava bem os soldados para irem futuramente para Angola ou para Moçambique, ou ainda para a Guiné …

Foram então acordados de surpresa naquela madrugada, mais ou menos por volta da uma da manhã …

FG - Exactamente, e é curioso que nesse dia tínhamos tido, pela primeira vez, uma aula complementar de judo e karaté e estávamos totalmente extenuados. Estávamos tão cansados que ninguém pediu licença para sair à noite e por essa hora estávamos já na cama e como ainda não tínhamos sido praxados, quando nos acordaram julgámos que aquilo seria uma praxe, uma brincadeira. Foi preciso o pessoal dizer : "Olhem que isto não é a brincar, vamos embora vestir-nos, vamos todos para a parada ! " e lá fomos para uma parada mais oculta, não era a parada principal, mas sim uma parada onde não havia tanta luz, que não chamava tanto a atenção. Foi aí que o Salgueiro Maia, o capitão da minha companhia, nos falou a todos perguntado-nos se queríamos participar no que estava previsto fazer-se naquela noite, marchar até Lisboa …

E qual foi a vossa reacção quando o Capitão Salgueiro Maia lhes comunicou o que iam fazer ?

FG - Foi espontânea, foi uma decisão muito espontânea … Temos que ver que naquele quartel existiam cerca de 2000 pessoas e é preciso fazer notar que escolheram pessoas com um mínimo de estudos e conhecimentos, não escolheram soldados que só tivessem a 3ª ou 4ª classe …fomos então escolhidos entre os mais instruídos e aí foi-nos perguntado na parada quem queria ir, deram-nos uns minutos para pensar, e mandaram-nos dar um passo em frente …

Sabendo o que se tinha passado nas Caldas da Rainha no 16 de Março, quando os que tinham ficado no quartel foram presos, pensei para mim mesmo, vou dizer que sim, porque se tiver de fugir, se tiver que tomar alguma opção, eu tomo-a no exterior, até inclusivamente fugir para o estrangeiro ou uma coisa assim do género, é preferível estar no exterior do que aqui retido no quartel, até podiam disparar e podia haver mortos e uma pessoa encurralada não é a mesma coisa do que estar solta … Nunca passou pela minha cabeça dizer que não …

Mas ainda conheciam o Capitão Salgueiro Maia há pouco tempo … Que tipo de homem e militar era ele ?

FG - Era um homem que se vestia muito bem, tenho essa imagem, era um verdadeiro cavaleiro, era diferente dos outros pela postura. Não era muito alto mas era um homem que tinha brio naquilo que fazia, era um verdadeiro soldado, notava-se que era um verdadeiro soldado … Soubemos depois que tinha sido muito influenciado pelo General Spínola que tinha sido a fonte de inspiração dele na Guiné …

Mas o Fausto tinha alguma consciência política na altura ?

FG - Não, não era uma pessoa politizada. Em todo o caso, o meu pai foi presidente de junta muitos anos aqui em Caminha e, certa vez, mandaram-me entregar uma certa propaganda política e eu, em vez de a entregar, queimei-a … Outra vez, talvez nas eleições de 1969, juntamente com outros amigos, principalmente um deles que já tinha uma certa consciência política, retirámos alguns cartazes e fomos depois queimar essa propaganda, mas isto era tudo em atitude de brincadeira …

Voltando à madrugada de 25 de Abril, qual foi o transporte utilizado para se deslocarem até Lisboa ? Como se sentiu nesse momento, estava com medo ?

FG - Não, tem piada que não senti medo nunca … Era noite, saímos por volta das duas e tal da manhã e na auto-estrada fomos contactados para nos dizer se devíamos continuar ou não, aguardámos esse contacto, e como nos deram ordem para avançar, fomos até Lisboa na maior das calmas … No meu carro, um Unimog, iriam para aí uns quinze homens comandados por um cabo miliciano e dentro do carro, claro, havia palpites de todo o género …

Qual foi o ambiente que encontraram ao chegar a Lisboa ? Havia já alguma concentração de tropas no Terreiro do Paço ?

FG - Não, fomos os primeiros a lá chegar, sempre de semáforos abertos. Recordo-me até de um episódio de um carro que ia à nossa frente, um dos que faziam parte da nossa coluna, esse carro travou e o seguinte não contava porque tinha ordens para não ligar aos semáforos e, pronto, um já ficou ali arrumado … Parecia, aliás, que a polícia já estava combinada connosco porque fazia parar o trânsito e mandava-nos seguir a nós … Seria uma atitude normal face a uma coluna militar mas, segundo eu soube depois, eles já estavam dentro do que se estava a passar …

Chegados ao Terreiro do Paço, em que sítio ficou o seu pelotão ?

FG - Eu fiquei mesmo na Rua do Arsenal, junto aos ministérios, numa zona crucial, onde passa montes de gente para ir trabalhar logo de manhã cedo … Estive sempre ali até de manhãzinha quando as pessoas começaram a vir da outra banda, de Almada, queriam passar e nós impedíamos a passagem, aconselhando-os a irem para casa …

E as pessoas como reagiam ?

FG - Apenas diziam "mas o que é que se passa ?", e nós dizíamos "isto é um golpe militar, vão para casa, não devem circular, devem ir para casa e aguardar alguma novidade". Havia pessoas que acolhiam bem mas outras não compreendiam e tentavam passar e nós dizíamos que não …Começámos então a dar uma ideia a algumas pessoas, outra já seriam mais politizadas e aperceberam-se logo do que podia ser e então reagiram bem, a maioria reagiu bem …

O que aconteceu ao certo, por volta das dez horas da manhã, quando aparece uma força militar que não tinha aderido ao golpe ? Recorda-se desse momento ?

FG - Foi nessa altura que apanhei o maior susto porque apareceram tropas opositoras, favoráveis ao regime, e estavam com ideias de realmente nos atacarem, e até com ordem para disparar, porque não estávamos a permitir que eles pudessem avançar. Foi então que o Tenente Assunção foi ter com o Brigadeiro Junqueira dos Reis para conversar … Contudo, o verdadeiro herói desta cena foi quem estava dentro da Panhard e não acedeu às ordens de disparar sobre nós dada por esse Brigadeiro …

Nesse momento, chegaram a pensar que o golpe podia falhar ?

FG - Apercebemo-nos que realmente podíamos ser atacados a qualquer momento, até porque também estávamos a ver uma fragata no Tejo que, segundo tínhamos ouvido, tinha ordens para nos atacar e nós estávamos na mira … Contudo, foi por pouco tempo porque quem estava dentro da Panhard não acedeu às ordens do Brigadeiro e a partir daí correu tudo bem.

Ainda estavam no Terreiro do Paço quando chegou a hora do almoço …

FG - Já tínhamos comido alguma coisa porque levámos rações de combate mas, entretanto, o povo começou-se a juntar e a levar-nos de comer … Recordo-me até que parti um dente a comer uma amêndoa, era na altura da Páscoa, e o povo arrombou um estabelecimento qualquer e tiraram amêndoas, vinho e várias outras coisas que, ao que parece, eram para ir para a Dinamarca, e vieram-nos dar aquilo … Depois começaram-nos a oferecer mais coisas mas já não tínhamos muita fome, naquele dia não tínhamos fome, nem nos lembrávamos da comida …

Como foi depois o percurso até ao Largo do Carmo ? Sabiam quem é que estava dentro do Quartel da GNR Carmo ?

FG - Recebemos ordens para ir para o Carmo, não sei bem que horas eram, mas era da parte da tarde, a seguir ao almoço, que nós fomos todos em coluna até ao Largo do Carmo para cercar o Quartel da GNR …

Ao chegarmos lá, tomámos um prédio, salvo erra desabitado, e colocámo-nos em posição adequada, mas eu não sabia ao certo quem estava dentro do Quartel, nós estávamos a cumprir ordens, embora já constasse que era o professor Marcelo Caetano …

Como reagiu a GNR quando vocês se posicionaram em cerco ?

FG - A GNR estava em frente ao Quartel com as armas obsoletas que eles usavam, as Mauser … Nós tínhamos G 3, portanto se tivessem que dar fogo estávamos em supremacia porque a arma deles era de dar tiro a tiro, um de cada vez …

Mantiveram-se a princípio nos seus postos mas, entretanto, houve uma rajada de G 3 e os GNR's fugiram para dentro do quartel … Eles aí assustaram-se e nós, como íamos bem equipados, não nos assustámos …

Entretanto, havia muitas pessoas em volta do Quartel do Carmo. Sentiam o seu apoio ?

FG - Sim havia muita gente porque já sabiam o que se estava a passar mas depois da rajada de G 3 aquilo acalmou, a rajada foi um calmante, anestesiou o ambiente … Essa rajada está ainda hoje inscrita na parede do Quartel do Carmo …

Como é que vocês estavam nessa altura do dia, já a tarde ia adiantada, depois de tantas horas de tensão ?

FG - Estávamos um pouco cansados mas também muito excitados e ainda apreensivos com aquilo que se podia passar …Foi aí que começaram a surgir cravos, aliás um colega meu da Polícia Militar é mesmo o célebre soldado do cravo que aparece em todas as fotografias !

Por volta das seis da tarde, chega um carro com o General Spínola que vinha aceitar a rendição de Marcelo Caetano. Recorda-se desse momento ?

FG - Sim, sim, perfeitamente. O Marcelo Caetano disse que só se rendia a um oficial superior. Não queria deixar o poder cair na rua e considerava que o Capitão Salgueiro Maia não tinha a patente suficiente … Quando saiu a Chaimite sabíamos quem ia lá dentro porque foi anunciado mas não o chegámos a ver porque ele ia escondido …

Resolvida a situação no Carmo, vão então para o Quartel da Pontinha onde se encontrava o Posto de Comando do MFA com o Major Otelo Saraiva de Carvalho …

FG - Formámos coluna em direcção à Pontinha e somos aclamados no caminho, já éramos heróis …Por onde passávamos éramos aclamados, havia uma grande alegria nas pessoas, havia cravos com fartura, amêndoas … senhoras a trazerem comida e garrafas de vinho branco … Na Pontinha era aquela curiosidade dos camaradas que lá estavam à nossa espera, encontrei logo um primo meu aqui de Caminha que também lá estava, o Bento Sobreiro …

Viram então o Major Otelo ou o General Spínola ?

FG - Não chegámos a ver o Major Otelo, estaria numa sala interior, com certeza a contactar todos os pontos do país para saber como estavam as coisas a correr …

Quanto ao General Spínola, foi curioso o que se passou: como sabem, ele foi nessa noite, por volta da uma da manhã, fazer um discurso à nação através da televisão e, nunca percebi porquê, fomos precisamente nós que fomos escalados para o acompanhar até à RTP. Estava já eu a dormir para aí há meia hora e voltam-nos a acordar e só sei que fomos para dentro dos Unimog's para ir até aos Estúdios do Lumiar ! Estava tão cansado, eu e mais camaradas, que fui sempre a dormir e nem cheguei a ver o Spínola, ou se o vi não tenho ideia, tal era o cansaço …

Depois de regressados a Santarém, como foram os dias seguintes ?

FG - No dia seguinte, viemos de regresso a Santarém e já não saímos mais de lá. Aí é que foi, parecíamos uns lordes ! No domingo seguinte fomos à tourada de borla, foi uma festa, eram só homenagens aos soldados ! Acabávamos de jantar num restaurante e ninguém pagava nada, éramos vistos realmente como heróis pelo que íamos a qualquer lado e estava tudo pago … Havia uma euforia enorme naquela altura …

Trinta anos depois, ainda acha que foram heróis ? Qual é a sensação de ter feito parte do 25 de Abril ?

FG - É uma satisfação muito grande, eu senti muita alegria depois de me ter apercebido realmente do que aconteceu e ter a consciência daquilo que fiz, senti-me bem comigo mesmo, senti que participei numa coisa que era para libertar realmente o país ! Não posso ouvir falar do anterior regime por saber aquilo que passávamos, não podíamos conversar com uma colega na escola, não se podia ter uma fala com uma menina, tínhamos os recreios separados na escola …

Há muita gente aqui em Caminha que não sabe que o Fausto participou no 25 de Abril … Porque será ?

FG - Nunca divulguei muito mas, não sei, talvez porque nunca fui ligado a um partido de esquerda. Embora nunca me tenha filiado em partido algum, houve uma pessoa que me inspirou politicamente que foi o Dr. Sá Carneiro … Tenho as minhas convicções e, quando somos conotados com a direita, somos um bocadinho marginalizados … Mesmo se eu me considero mais à esquerda que muitos porque sou um social-democrata convicto …

Entrevista preparada e realizada por
Patrícia Parente (12º C), Silvana Carvalho (12º C) e
Prof. Paulo Torres Bento

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