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LANHELAS FEZ A DIFERENÇA
ENCONTRO DE EMBARCAÇÕES TRADICIONAIS MARCOU FIM DE SEMANA
A freguesia de Lanhelas continua a surpreender pela originalidade e qualidade das iniciativas que vem desenvolvendo nos últimos tempos, no campo cultural e desportivo.
Sem esquecer os concertos promovidos pela Banda Musical Lanhelense, recordamos as actividades desportivas desenvolvidas no último verão, no campo de jogos Ilídio Couto (depois de ter sido objecto de uma empreendedora acção de reabilitação), bem como na beirada do rio, local aprazível que veio agora a ser palco de nova e inédita acção no concelho no passado fim de semana, com a realização do I Encontro de Barcos Tradicionais.
Junta de Freguesia, Corema, Lanhelas Futebol Clube, Associação de Barcas, Casa da Torre, comissão de Festas das Solhas, moradores anónimos, empresas (a firma Costas e Cunha disponibilizou os seus trabalhadores, tal como a empresa Anhas o fez relativamente à cedência do parque de viaturas destinado a estacionamento).
"VIVIDO DE FORMA INTENSA"

Muitos milhares de visitantes apreciaram este evento que "mexeu com as pessoas, ao proporcionar um cruzamento de memórias e emoções", assim o analisou José Gualdino, presidente da Corema, visivelmente satisfeito com a forma como tudo correu, afora a arreliadora chuva surgida no domingo: "Excedeu em muito as expectativas, verificando-se uma grande aceitação da população de Lanhelas e do concelho", frisou.
Da margem, os visitantes deliciaram-se com o deslizar dos quase trinta barcos tradicionais provenientes de todo o país (só oito, eram do Tejo) e Galiza, aproveitando o vento dominante. Muitos aproveitaram para viajar nestes barcos. Corridas de carochos a remos, foram outra das atracções do encontro.
Embora reconhecendo que o "anfitrião" carocho foi o rei da festa, José Gualdino apreciou deveras o barco da Moita e a traineira de A Guarda. Já Rui Fernandes, presidente da Junta de Lanhelas, gostou de ver "deslizar as dornas", barcos pequenos, de fácil manobra e que "navegam muito bem", destacou.
"COMOVEU A FREGUESIA"
Este autarca recordou que "há mais de cem anos que não se fazia uma coisa destas na beirada do rio", pelo que não foi de estranhar a quantidade de felicitações recebidas.
De entre as iniciativas levadas a cabo, Rui Fernandes -tal como José Gualdino- destacou o filme realizado sobre as tradições da freguesia, parcialmente patrocinado pela Câmara Municipal, apresentando lanhelenses a descrever as suas experiências pessoais no campo da pesca, do contrabando e do artesanato, ou relevando o património, o ambiente e toda uma bio-diversidade que o rio Minho e as suas margens conseguem reunir.

"O que mais mexeu comigo e com as pessoas de Lanhelas, foi este filme", declarou Rui Fernandes ao C@2000, no final da sua estreia, que teve como palco a vetusta Casa da Torre, onde também decorreu uma exposição de barcos em miniatura, em que desde o carocho do Minho à chata do Coura, passando pela gamela de Caminha e pela masseira de Vila Praia de Âncora, bem como outras pequenas réplicas de Portugal e Galiza, constituíram pontos altos do Encontro.
A par desta iniciativas, os organizadores não esqueceram os mais jovens, presenteados com uma série de jogos tradicionais.

NOITE - "AUTÊNTICA FESTA!"
"Reatámos a relação do passado com a beirada do rio!", assim definiu José Gualdino o "ambiente de festa" recreado na noite de Sábado, quando as luzes de iluminação pública se apagaram, dando lugar às fogueiras e velas, recordando outros tempos em que a "escuridão e o silêncio proporcionaram uma relação com o próprio céu nocturno", numa perspectiva de alertar contra alguma "má sinalização luminosa e o grande desperdício de energia".
A observação dos astros de igual modo programada decorreu na Casa da Torre, onde as velas eram o único sinal luminoso terrestre, de modo a proporcionar a envolvência consentânea com esta prática e com o clima reinante em toda a margem.
Ao princípio dessa noite, um barco com gaiteiros a bordo percorreu o rego da Torre e a beirada do rio Minho, preconizando a empatia que a partir daí se estabeleceu com a assistência, até altas horas da madrugada.
RÉPLICA FIDEDIGNA

Paulo Cunha, proprietário do último carocho (O Corvo) -"símbolo da recuperação do rio Minho"- construído há uns dez anos por Luís Marroco, o mais velho e único artesão lanhelense construtor deste tipo de embarcações, referiu a abundância destes barcos em tempos ainda não muito recuados, mas, com a evolução das tecnologias (no caso, os motores) o carocho foi sofrendo alterações, bem como "toda a cultura arreigada a ele, acabou por desaparecer".
Este colaborador activo da iniciativa, e disposto a "reanimar" essa cultura, considera relevante dar a conhecer a forma como eram construídos os barcos, as histórias criadas à volta deles, a forma de navegar e remar, pois tudo isso era "emblemático da freguesia", assinala.
CASA DA TORRE PREOCUPADA COM IC1

Durante este encontro, uma casa medieval do século XII e um dos monumentos mais significativos desta freguesia banhada pelas águas do Minho, abriu a suas portas para uma série de actos culturais.
A Casa da Torre, um solar acastelado constituído por três torres com ameias e jardins acolhedores, albergou o lançamento de um filme elaborado pelos organizadores do evento, pondo em destaque aspectos etno-culturais de Lanhelas.
Simultaneamente, esteve patente uma exposição de miniaturas de barcos tradicionais e realizou-se uma palestra cultural etno-fluvial.
O empresário José Regojo, proprietário da Casa da Torre, confirmou-nos a sua disponibilidade para apoiar todas as iniciativas que tenham como finalidade "preservar as tradições e o património de Lanhelas", compartindo assim o seu património com a comunidade local, manifestando, por isso, a sua preocupação relativamente à problemática do IC1.
A criação de uma Casa de Turismo Rural de alto nível, aberto às empresas que desejem promover reuniões sectoriais, está nos planos deste investidor mas, se os responsáveis pelo itinerário do IC1 "persistirem no traçado actual e não o desviarem por detrás do monte, já não investirei nesta casa", asseverou.
FUTURO

Cansados mas satisfeitos pelas felicitações recebidas, os organizadores já pensam na próxima edição.
Rui Fernandes talvez optasse pelo carácter bienal destes encontros, de modo a evitar a rotina. "Vamos pensar", garantiu desde já.
Já José Gualdino não desdenha a hipótese de repeti-lo já no próximo ano, embora com um modelo diferente e alargando o espaço à França e aos países nórdicos (Noruega e Finlândia) -já contactados-, depois de "conquistado o espaço na Galiza e em Portugal".
Aliás, a organização pediu aos assistentes que analisassem o evento de forma crítica e apresentassem sugestões.
Mas tudo isto tem os seus custos, e Rui Fernandes refere que dos 30 mil euros investidos no Encontro, as receitas apenas cobrem metade, embora muitas infra-estruturas fiquem para próximas ou diferentes iniciativas, pelo que pensa adquirir um ou dois contentores, destinados a garantir a preservação de todo o equipamento, designadamente, tendas, mesas, bancos, painéis, etc.
CÂMARA DE CAMINHA CRITICADA
Causou natural estranheza entre a organização e participantes neste Encontro, a ausência de um representante oficial da Câmara Municipal de Caminha.
José Gualdino apelidou de "inadmissível" e "inqualificável" a posição da autarquia caminhense, depois de terem enviado convites a todos os vereadores do Executivo, atendendo, inclusivamente, a que o filme foi patrocinado em metade do seu custo pela Câmara, conforme se podia apreciar pelo seu preâmbulo.
Destacou, no entanto, a presença do vice-presidente da Câmara de Vila Nova de Cerveira, que felicitou os organizadores pela qualidade e originalidade da iniciativa.
Contactada Júlia Paula, presidente do município caminhense, acerca da crítica os organizadores, referiu-nos que esteve representada pelo vereador com o pelouro do Ambiente.
Refira-se que esta iniciativa já tinha originado algum "frisson" na última reunião camarária, quando o vereador Humberto Domingues, responsável pela área cultural, ao enumerar as iniciativas que iriam decorrer no município nos dias seguintes, ignorou o Encontro de Barcos em Lanhelas.
O socialista Manuel Carlos Falcão recordou-lho e Humberto Domingues congratulou-se pela iniciativa e pelo facto de o seu colega se ter referido a ela, uma vez que a "apoiámos, embora a organização não o reconheça publicamente", referiu.
Tal "desabafo" levou Brito Ribeiro (PS) a sinalar que este eventual alheamento do Executivo, poderia ter algo a ver com o mau relacionamento existente entre Humberto Domingues e o presidente da Junta de Lanhelas, o que o vereador social-democrata negou.
BUXETA DA ILHA DE AROUSA

Com forte representação neste Encontro, a Galiza espelhou a variedade da sua "frota tradicional", como foi o caso de uma "buxeta", intitulada "Rianxeira", proveniente da ilha de Arousa, utilizada outrora na pesca com estremalho e cuja extinção já se verificou há anos.
Ainda existem algumas réplicas em madeira, em Muros e Noya, conforme nos referiu Luís, um homem habituado a participar nestas iniciativas.
"BOI DO MAR" DE A GUARDA

Outro dos veteranos nestas andanças, é Osvaldo de la Vila, um viguês que veio até ao rio Minho com uma réplica de uma gamela de A Guarda, conhecida pelo "boi do mar", utilizada pelos pescadores guardeses em princípios do século XX.
Com estas embarcações, um pouco mais altas do que as que existem no rio Minho e com uma tripulação de dois homens, navegavam à vela (e a remos quando não havia vento ou não soprava de feição) até ao mar designado como "profundo", um dos mais nutridos bancos de peixe da época, embora a pescaria se iniciasse desde a foz do rio Minho.
"Hoje em dia, não há mais de 4 ou 5 em toda a Galiza", revelou-nos o seu patrão.
A PRIMEIRA EMBARCAÇÃO DO RIO MINHO

O barqueiro Anxo Moure veio de Xantada, Lugo, com o seu pequeno "batuxo" (minúscula barca com pouco mais de um metro de comprimento), e que considera a "primeira embarcação do rio Minho", ainda hoje utilizada por uma dúzia de pescadores na parte alta deste curso de água.
Movida com recurso a uma "percha" (vara) que espetam no fundo do rio com firmeza, assim fazem deslocar a embarcação, na qual "conseguem co-habitar" três tripulantes, sempre navegando de pé.
Mais abaixo, funcionam ainda a meia-barca para transporte de pessoas e a barca inteira que carrega gado. Entre Riba d'Ávia e Arnoia (Ourense), existiu uma outra, bem maior, a que chamavam a "Catedral do Rio", porque o barqueiro levava de cada vez, "40 pessoas, um carro de bois e duas juntas de vacas.
Desapareceu há cerca de vinte anos, após o incremento das barragens no rio Minho.
BARCO DO TEJO COM 115 ANOS

Um catraio do Tejo com 115 anos -o "Pé Leve"-, movido a remos e à vela, recuperado por João Fortuna e Zeferino Pereira, ambos de Paço d'Arcos, depois de terminada a sua função na pesca do safiro, foi outra das atracções deste Encontro.
Referiram a existência de 40/50 embarcações tradicionais no Tejo, entre Vila Franca de Xira e a foz, alguns deles já sem capacidade de navegação, pelo que reputam de importante os apoios oficiais a este tipo de eventos, de modo a manter estes "museus vivos", nos quais as pessoas mais antigas se revêem e os mais novos descobrem como se chegou até aos actuais barcos.
"A fim de conseguirmos quem nos fizesse as velas, tivemos de nos socorrer de um velho marinheiro do Barreiro, já com 80 anos e quando ele desaparecer, acabou-se", acrescentaram, pondo ainda em destaque os cuidados a ter com a conservação desta "jóia", devendo mantê-la na água e evitar a exposição solar em terra.
Um impedimento do sacristão de Lanhelas, levou a que um funeral realizado na passada semana nesta freguesia, não decorresse da melhor forma, originando comentários desfavoráveis ao sucedido.
Era habitual que o sacristão interrompesse o seu trabalho como funcionário do Serviço de Obras da Câmara de Caminha, e fosse prestar assistência aos serviços fúnebres, quer tocando o sino, quer auxiliando à missa de corpo presente,
Nesta ocasião, o encarregado tê-lo-ia impedido de abandonar o serviço, e José Sequeiros não pôde deslocar-se até Lanhelas.
Familiares e demais pessoas que acompanhavam o féretro verberaram o caso.
Contactada Júlia Paula, presidente da Câmara de Caminha, e relatando-lhe este episódio, referiu-nos desconhecer a situação, prometendo ir averiguar, embora adiantasse que se o encarregado não autorizou a saída do trabalhador, "lá teria as suas razões".
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