O património do Vale do Âncora, tem originado uma procura, por parte da comunidade científica, que além de se virem documentar, procuram sentir de perto todo este manancial cultural, quer natural, quer construído.
Esta procura, inicialmente, devia-se essencialmente ao Dólmen da Barrosa, no entanto, com o tempo, as riquezas deste Vale iam sendo descobertas e reconhecido o seu valor patrimonial - Cividade Ancora-Afife, a mamoa de Afife, S. Pedro de Varais. A seguir foi a riqueza natural desta bacia hidrográfica, e finalmente da arqueologia industrial.
O reconhecimento "destes valores patrimoniais" levou o Dr. Paulo Fontoura, da Faculdade de Ciências do Porto, em 1990, a apresentar num seminário em Viana do Castelo, uma sugestão/proposta de protecção da Bacia Hidrográfica do Rio Âncora. Várias associações ambientais, entregaram ao ICN um projecto que procurava salvaguardar essas riquezas . Por sua vez, o Instituto da Conservação da Natureza (ICN) procurou sensibilizar as Câmaras para as potencialidades dessa área, no entanto esse objectivo dilui-se com o tempo e com a alteração da legislação.
Entretanto a Serra de Arga ficou integrada na Rede Natura. A Câmara Municipal de Viana do Castelo, tem vindo a realizar vários trabalhos de protecção quer dos moinhos de montanha em S. Lourenço da Montaria, vem como a criar uma série de actividades e animação com as forças vivas locais o que de facto é de louvar. Por sua vez a integração de uma área da serra de Arga, na rede Natura, condiciona a destruição de parte desse património natural.
Mas o Vale do Âncora não é só a serra de Arga, nem os moinhos de montanha. Há uma série de valores que deviam de ser planeados porque não devemos criar descontinuidade nas nossas raízes culturais porque há valores patrimoniais, quer naturais como construídos que deviam ser a todo o custo, recuperados de modo a ficar-se com uma matriz a integrar em circuitos didácticos de forma a reconstruírem-se os nossos valores culturais, porque se hoje é fácil, amanhã pode ser impossível.
No entanto, para já, ainda temos a possibilidade, devido às dificuldades de acesso, de privarmos com um património natural preservado que mantém essa riqueza natural.
Todo este património continua a trazer até nós, a comunidade científica, a qual vai apresentando vários trabalhos sobre a área, e dando conhecimento das nossas raízes culturais ao mundo, enquanto as Câmaras se mantêm de costas voltadas para essa riqueza.
Lembrarei que de facto, no Vale do Ancora estão a suceder uma série de situações que colocam em perigo essa riqueza cultural, porque com aprovação ou não, foram realizadas uma série de mudanças de destino em construções que, antigamente, foram moinhos de planície ou serrações. É a destruição de matrizes culturais que todos nós lamentamos.
Contudo, de momento, esses estudiosos continuam a percorrer as margens do Âncora e a apresentar trabalhos, quer em seminários quer em jornadas, a nível internacional, divulgando as potencialidades deste pequeno espaço físico. E quando se fala em globalização, a cultura deverá ser preservada porque, se trata da riqueza dos povos que integram esta aldeia global. Por isso, lembrarei que nas "II Jornadas de Molinologia" realizadas em Barcelona, o professor jubilado do Instituto Superior Técnico de Lisboa, Engº António de Carvalho Quintela, depois de percorrer e analisar quer os trabalhos realizados por outros estudiosos, quer os elementos existentes no terreno, apresentou um trabalho em que referia a diversidade existente entre os moinhos de planície ( moinhos de dorna ) do rio Ancora e do resto do País.
Referia a dado passo :
Não sei se os responsáveis vão a tempo para evitar a destruição de todas as matrizes culturais deste Vale, todavia, sugere-se que não percam muito tempo, porque a situação é dramática.
Existem situações que fazem crer que a maioria dos responsáveis optaram pelo facilitismo e pelo betão, porque, possivelmente, temem ver-se perante situações que desconhecem, e como não gostam de dar parte de fracos, optam pela destruição dos valores culturais.