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CAMINHA E A GUARDA "SUSPENSAS" POR UMA PONTE
Vem sendo tema dominante no diálogo alto-minho português /baixo- miño galego, a inevitabilidade de uma nova travessia entre Caminha a A Guarda, a exemplo do que já sucede nos outros municípios da ribeira Minho, ou em vias de se concretizar, como é o caso de Vila Nova de Cerveira/Goyan.
As associações empresariais de ambas as margens evidenciam essa necessidade. Os municípios iniciaram há já bastantes meses os contactos bi-laterais nesse sentido e "espicaçam" as autoridades dos dois países a elaborar estudos, projectos e candidaturas, de modo a aproveitar sem delongas o novo filão do bolo comunitário "que se poderá extinguir em 2004", como receia Valdemar Patrício, presidente do município caminhense, perante a avalanche previsível de obras trans-fronteiriças na raia dois países.
Carmen Maria Garcia Braga, filha de pai português -proprietário de uma fábrica especializada no fabrico de raios para pneus, em Braga, nos inícios do século-, dirige actualmente com dois irmãos, uma indústria de fundição e metalo-mecânica na Pasaxe, produzindo peças para barcos, armações para estufas e outros equipamentos mecânicos.
Desde 1 992 à frente dos destinos da ACIGU (com 200 sócios), abarcando os municípios de A Guarda, Rosal e Oya, foi reeleita recentemente para novo mandato de dois anos, tendo como projecto imediato a mudança da sua sede a situar num espaço mais amplo.
Apostada na formação, a ACIGU pôs em marcha cursos de informática e de prevenção de acidentes laborais, estando em preparação um outro de decoração de montras, mantendo ainda um protocolo com a Junta da Galiza, o que lhe permitiu a cedência de um assessor para colocação de emprego.
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Carmen Garcia Braga presidente da ACIGU (Associação de Comercian-tes e Industriais de A Guarda), no lado espanhol, é uma das entusiastas do projecto, apostando numa ponte que una esta margem a Caminha, cujo enlace se deverá situar algures, na ribeira galega, "entre a Pasaxe e Salcidos, nas cercanias do actual cais do ferry, tendo sempre em atenção o estuário do rio Minho e aquilo que os técnicos apontem", explicou-nos.
Esta Industrial não acredita que condicionalismos de ordem financeiro venham a colocar entraves a esta ponte, visto que A Guarda viria a incrementar significativamente o fluxo turístico que já se regista na actua-lidade proporcionado pelo ferry, "sentindo-se ainda mais esse benefício no campo da hotelaria e da restauração, proveniente de viajantes, desde o Porto até Caminha".
"A qualidade da oferta galega é o principal atractivo para os portugueses", como se verifica "aos fins de semana e durante todo o ano", salientou.
Considera, contudo, que os condiciona- lismos colocados pelo ferry no que a dependência de horários, impossibilidade de navegabilidade nocturna e custos do transporte se refere-, se tornam num "handicap ao reforço de um intercâmbio mais profícuo"
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Interlocutora num passado não muito distante com a ACIGU, foi a ACIVAC (Associação de Comerciantes e Industriais dos Vales do Âncora e Coura).
Em 1996, chegou a ser celebrado um protocolo comercial entre ambas, mas a partir de então, não voltou a existir qualquer contacto, apesar das "diversas tentativas levadas a cabo por nós", junto da congénere portuguesa, lamentou-se Carmen Braga.
Este aparente divórcio da ACIVAC, foi justificado por José Luís Ramos, actual presidente, devido "a não ter havido preocupação em tomarmos conhecimento desta situação, após termos sido empossados, há dois anos".
Reconhece que talvez tivesse havido "falha nossa, ou da antiga direcção, ao não nos comunicar como as coisas estavam", embora soubesse da existência desse protocolo. Apesar deste hiato, a associação portuguesa pensa "relançar o protocolo nos próximos tempos", com interesse inegável para ambos os lados da "fronteira".
Questionado sobre as vantagens do ferry, José L. Ramos reconheceu que o transbordador trouxe benefícios mais acentuados para A Guarda e Baiona, cidades procuradas pelos portugueses, devido à excelência do seu marisco. Caminha, por seu lado, passou a ser mais visitada no dia da feira semanal, mantendo-se a opção pelo comércio tradicional (têxteis, bebidas confecções, ourivesaria) ou mero passeio turísitico, bem como pela sedução das nossas praias.
Embora realçando que o comércio de Vila Praia de Âncora se ressentiu, após a circulação rodoviária ter sido retirada da antiga N13, José L. Ramos salienta a procura que a restauração, a hotelaria a as praias continuam a manter nesta vila, e de igual forma, em todo o litoral concelhio.
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A actual direcção da ACIVAC, após a eleição de 1998, apostou forte- mente na modernização do comércio tradicional através do PROCOM, hoje designado URB/COM-COMER- CIAL, em parceria com a câmara de Caminha e a direcção-geral do Comércio.
Elaborado um estudo prévio e apresentado um projecto global, aguardam decisões (que tardam) sobre a candidatura, tendo sido já solicitada uma audiência ao novo secretário de estado do Comércio, após terem visto gorada uma primeira aposta em 99, a despeito do excelente relacionamento existente com o anterior membro do governo, dado ser natural de Viana do Castelo.
A apetência pela formação profis- sional vem-se mantendo por parte desta estrutura de comerciantes e industriais, através da realização nos dois últimos anos, de cursos de informática, comércio e hotelaria. Proximamente, arrancará o novo "plano de formação para o ano de 2001", podendo mesmo prolongar-se ao longo do próximo triénio e dirigido também a "pessoas que não estão no activo", contando para tal, com a colaboração do Instituto de Emprego.
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Uma ponte sobre o Minho, seria "ouro sobre azul", responde o presidente da ACIVAC, quando lhe foi pedido um comentário a uma possível mudança no transporte fluvial actualmente servido por ferry -não considerado despiciendo, mas com naturais limitações. Por outro lado, os novos acessos ao concelho de Caminha através do IC1, permitirão uma maior "fixação dos viajantes" que a nova travessia encorajará, este o entendimento da ACIVAC.
A possibilidade de uma nova travessia é encarada com idêntico interesse pelos dois municípios (Caminha e A Guarda).
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Valdemar Patrício apenas aguarda que as autoridades portuguesas, nomeadamente, a Comissão de Coordenação da Região Norte "tire a cabeça do chão como a avestruz" e dê seguimento ao estabelecido numa reunião, em Junho passado, com representantes espanhóis, em que foi celebrado um protocolo e a promessa de constituição de uma comissão de acompanhamento dos trabalhos de viabilidade
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técnico/financeira deste empreendimento", mas que demora a arrancar, como destaca, com mágoa, o autarca português.
Dado que o projecto é comum, há cerca de um mês, o novo alcaide de A Guarda, José Luís Riego, reuniu-se com o seu homólogo de Caminha a fim de fazer o ponto da situação, esperando retribuir a visita, em A Guarda, logo que haja desenvolvimentos palpáveis. |
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Valendo-se das linhas de orientação da própria Xunta da Galiza, numa tentativa de "potenciar os intercâmbios comerciais, mas também os culturais", atendendo a que estes são um " vector que nos une"- salientou, Riego acredita que a partir Janeiro do próximo ano todo este processo se dinamizará.
A Xunta da Galiza tem em marcha um estudo de viabilidade da ponte internacional, e que vem sendo acompanhado pelo governo central de Madrid, devendo estar concluído dentro de um mês. Logo que isso aconteça, o alcaide de A Guarda solicitará uma reunião com o ministro do Fomento espanhol -"um velho amigo meu", sublinhou-, desencadeando-se a partir dessa altura um processo que jamais "parará", afirmou convicto, tendente a relegar definitivamente quaisquer resquícios fronteiriços, e que hoje em dia, "já não têm razão de ser", recordou.
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