Figura grada do regime deposto com o 25 de Abril, Sidónio Pais foi o nome dado à primeira escola preparatória pública criada no concelho de Caminha, no início dos anos 70.
O pretexto foi ter nascido em Caminha em 1872, e o seu consulado despótico como presidente da República entre Abril e Dezembro de 1918, adequava-se à perfeição aos ideais da ditadura fascista decorrente do golpe militar de 28 de Maio de 1926, que durou perto de meio século.
Com o 25 de Abril, nem sequer foi necessário proceder a qualquer acto de saneamento de nomenclaturas relacionadas com o designado Estado Novo - como sucedeu em diversas escolas ou instituições do país -, para alterar o nome da escola caminhense, então a funcionar no antigo Internato Silva Torres, hoje sede da ETAP.
De uma forma natural, a Escola passou a designar-se por Escola Preparatória de Caminha, mais tarde Escola E.B. 2,3/S de Caminha - quando os ciclos de escolaridade foram ampliados, assim se mantendo até à criação do Agrupamento de Escolas do Coura e Minho em princípios desta década -, coexistindo com o Agrupamento de Escolas do Vale do Âncora.
Contudo, alguns anos depois, após a criação de um único agrupamento de escolas no concelho de Caminha, fruto de novas políticas - nomeadamente a nível do Ministério da Educação -, foi recuperado o nome do passado anterior ao 25 de Abril.
O nome do Sidónio Pais foi "ficando" - valha a redundância -, como se a normalidade fosse essa.
Em termos pedagógicos, seria curioso saber o que dirão os professores aos alunos que os questionem sobre o nome de Sidónio Pais "dado" à sua escola.
Por ser de Caminha? Por ter sido Presidente da República? Por ter sido um dos dois ditadores da 1ª República? Por existirem 10.000 presos políticos aquando do seu assassinato em finais de 1918 (Raúl Rego dixit)? Por ter abandonado os soldados portugueses combatentes na 1ª Grande Gierra? Por ter deposto e mandado para o exílio o Presidente da República legítimo Bernardino Machado - o mesmo, recorde-se, curiosamente, a quem foi prestada homenagem, em Moledo, a 5 de Outubro de 2015 ?
Nesta aparente mar de tranquilidade - a que o C@2000 sempre se opôs, não aceitando o revivalismo saudosista transmitido nos últimos anos, em que até se chegou a tentar impor a criação de um logotipo na escola com o nome de Sidónio -, tentamos auscultar alguns dos intervenientes directos na vida escolar.
Maria Esteves, directora do Agrupamento, não toma uma posição sobre o assunto, embora admita a polémica sobre o nome, referindo existir um órgão próprio para que o assunto seja abordado pela comunidade escolar.
Da parte da Câmara Municipal, tanto Miguel Alves, como o vereador da Educação Rui Fernandes, dizem que não tomarão a iniciativa para a mudança do nome, competindo ao Conselho Geral fazê-lo, se assim o entender.
Miguel Gonçalves, presidente da Junta de Freguesia de Caminha/Vilarelho, onde o edifício-sede se situa, ouvido pelo C@2000, começou por dizer ser necessário "encontrar um nome em que toda a realidade do concelho esteja representada", sugerindo que "a comunidade escolar seja chamada a discutir" o tema, embora não concorde com o nome actual, "recuperado há muito pouco tempo", sublinhou
O autarca insiste ainda que o nome de Sidónio Pais "não representa a realidade geográfica do agrupamento". Admite que ao discutir patronos, "será difícil" chegar a um entendimento, advogando que a comunidade escolar analise esta polémica.
Entende ser necessário "encontrar um nome e não impô-lo, como tivemos antes do 25 de Abril", indo ao encontro de "uma realidade histórica que sempre nos identificou", em alusão à EB 2,3/S de Caminha.
Ana Bela Dias, presidente da Associação de Pais, referiu-nos que "o nome nunca foi polémico", nunca tendo ouvido os pais pronunciarem-se sobre ele, dizendo existirem, "muitas outras coisas mais importantes", dando como exemplo as ansiadas obras na escola preparatória e secundária caminhense.
Contudo, assinala que "o nome não é idóneo", podendo existir outros "mais relevantes", ou atribuir o nome de Agrupamento de Escolas do Concelho de Caminha.
Cecília Terleira, presidente do Conselho Geral do Agrupamento, embora discorde da designação actual, considera que este órgão "estará disponível para discutir assunto", atendendo a que é a assembleia mais representativa (e mais importante) de toda a comunidade escolar concelhia.
Esta questão dos patronos já mereceu duas abordagens por parte da CDU na Assembleia Municipal de Caminha, por intermédio de Celestino Ribeiro.
Este deputado municipal, na última sessão deste órgão autárquico (Fevereiro), voltou a avançar com o nome de Ramos Pereira para patrono da Escola Básica e Secundária do Vale do Âncora, assinalando que os meses de Março e Abril "seriam um momento oportuno para ser recordado".