"Onde está a isenção?", questionou a deputada socialista Paula Aldeia no decorrer da última e extensa reunião da Assembleia Municipal de Caminha, iniciada na noite de Sexta-feira e concluída no dia seguinte, após ter sido interrompida às 3H30 da madrugada.
Paula Aldeia aproveitou o período prévio da assembleia para fazer uma intervenção política de fundo sobre o comportamento da oposição social-democrata ao longo destes mais de dois anos de maioria socialista na Câmara de Caminha, e a "clara vassalagem que é prestada ao PSD" por alguns meios de comunicação social locais, em referência à Rádio e Jornal Caminhense.
"Atacar, maldizer, mentir, achincalhar e insultar"
A deputada e dirigente concelhia do PS frisou que tal como sucede a nível nacional (com o novo Governo apoiado pelos partidos de esquerda), também o PSD "não digeriu bem a derrota" de há dois anos, limitando-se a partir de então a "atacar, maldizer, mentir, achincalhar e até mesmo insultar quem agora dirige os destinos" do concelho de Caminha.
Paula Aldeia, após lamentar a "total incapacidade" evidenciada pelo PSD nos diferentes debates, acusou-os de se "refugiarem nas redes sociais", (…) "contra tudo e contra todos", inventando e tentando "tapar com narrativas e comunicados os duros legados que deixaram para quem" os substituiu na gestão municipal.
"Gestão danosa e ruinosa do PSD"
Deu como exemplos as indemnizações por má gestão, facturas por liquidar ("10 milhões de dívidas por pagar", embora repitam —PSD— à saciedade que "ficaram nos cofres do Município em contas bancárias", 2,398 milhões de euros).
Apesar do estado ruinoso em que as contas camarárias foram encontradas após o PSD ter sido derrotado nas municipais de 2013, Paula Aldeia sublinhou que o actual Executivo já investiu mais de cinco milhões de euros em obras "fundamentais" que não possuem qualquer intuito eleitoralista.
PSD parece a "branca de neve"
A deputada acusou os eleitos pelo PSD e a sua estrutura concelhia de "manipulação" de todas as situações, tentando aparecer perante a opinião pública como uma "branca de neve" alegadamente indignada com as decisões que o actual Executivo é forçado a tomar, como é o caso do empréstimo de um milhão de euros a curto prazo para acorrer aos pagamentos decorrentes de processos judiciais e respectivas indemnizações da responsabilidade do anterior Executivo, assunto que também suscitou ampla discussão e a que nos referiremos proximamente noutra peça.
A deputada municipal seixense recordou o estado de ruína em que o PSD deixou o Mercado Municipal de Caminha - prestes a ser encerrado pela ASAE alguns dias após a tomada de posse do novo Executivo socialista, devido à sua degradação e falta de condições de higiene e salubridade -; a apresentação de uma maquete virtual da nova Marginal de Caminha a um dia do início da campanha eleitoral - quando o Programa Pólis não investiu um único cêntimo no concelho no mandato presidido por Júlia Paula, ao invés do sucedido nos concelhos de Viana do Castelo e Esposende, sócios com Caminha da Pólis Litoral Norte; a assinatura de um protocolo com a AMA a um mês das eleições autárquicas de 2013, no intuito de fazer crer que o Festival de Vilar de Muros seria uma realidade a curto prazo, quando o anterior Executivo esteve sete anos com este evento suspenso.
Estes foram alguns dos temas utilizados pela eleita socialista para desmontar a narrativa social-democrata, acusando ainda este partido de ter promovido a "morte lenta" do tecido empresarial concelhio, em que a única entidade empregadora que criou "muitos postos de trabalho", foi a própria Câmara - "pena foi que que não fosse para todos", atalhou.
A deputada socialista culpou ainda a oposição de andar a brincar quando acusa de plágio e de visão redutora o PS sobre a candidatura do Estuário do Rio Minho a Paisagem Cultual da Unesco, quando a única coisa que fez em conjunto com A Guarda foi colocar este município em tribunal e nunca ter conseguido recuperar as verbas em atraso referentes à bilheteira do ferry-boat, o que só com o actual Executivo foi possível.
"Há liberdade de expressão no PS"
Após se referir à forma como o PSD através das redes sociais, em reunião de Câmara, Assembleia Municipal e desses dois órgãos de comunicação social interpretou (negativamente) as conclusões do impacte económico do Rali de Portugal no concelho de Caminha, Paula Aldeia sossegou o PSD, dizendo-lhe que no PS "não há desnorte, nem incoerência", mas sim, "pluralidade, responsabilidade e rumo", a par de "liberdade de expressão e pensamento…contrariamente a outros, deverei dizer"!".
"Onde está a isenção?"
A deputada socialista dedicou ainda parte da sua intervenção a comentar a actuação da Rádio e Jornal Caminhense pela "forma vergonhosa como se coloca ao serviço desta oposição (PSD)", e inserindo "nas suas primeiras páginas notícias que mais não são do que a réplica, quase fiel, dos comunicados do PSD".
Paula Aldeia, em nome da bancada do PS, disse compreender a linha de conduta desse órgão de comunicação local, porque, justificou: "fechou-se a torneira e dos 98 mil euros pagos em 2013 (ano de eleições autárquicas), passou-se para 19 mil euros em 2015".
"Não lance pedras em telhado alheio"
Continuou, dizendo que "está tudo dito" e, como soe dizer-se: "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és!".
E como quem manda um aviso a quem dirige essa imprensa, Paula Aldeia recordou que "face às notícias publicadas em diversos jornais nacionais, não lance pedras em telhado alheio, pois bastante tem com que se preocupar e recomendo que repense a sua estratégia".
Corte de relações
A terminar, a deputada municipal e dirigente local do Partido Socialista, recomendou ao presidente da Câmara Municipal de Caminha que "corte toda e qualquer relação com este órgão de comunicação social", a quem "tudo serve para denegrir…serve o insulto, serve a mentira, até servem os discursos do 25 de Abril numa total falta de respeito pela solenidade desse dia e pelos princípios conquistados nesse dia!".
"Teor" da intervenção
Após esta intervenção, o deputado municipal social-democrata Severino Sousa evidenciou alguma preocupação quanto ao tempo utilizado pelo PS com o discurso da deputada municipal e transmitiu-a ao presidente da Assembleia Municipal, o qual o tranquilizou quanto ao controle da duração das intervenções de cada grupo político.
Entretanto, em jeito de comentário, Miguel Gonçalves, presidente da Junta de Freguesia de Caminha e Vilarelho, eleito pelo PS, respondeu ao deputado municipal do PSD, dizendo-lhe que o que o preocupava não era a duração, mas sim o "teor" da intervenção.
Da parte do PSD, não houve qualquer outra reacção à intervenção de Paula Aldeia.
Liliana Silva tentou saber a opinião de Miguel Alves
O referido "teor" da comunicação do PS teve fortes repercussões no seio do PSD e junto desses dois órgãos de informação.
Exemplo disso, foram as palavras da vereadora "laranja" Liliana Silva na reunião camarária seguinte (16/12) em defesa desse jornal e rádio local, considerando "injusta" e "muito grave" a apreciação de Paula Aldeia sobre um quinzenário que afiançou ser "isento" e ouvir todos.
A edil justificou a intervenção na reunião camarária pelo facto de não o ter podido fazer na sessão da assembleia municipal, onde não tem direito a intervir, excepto se for directamente visada, devendo para tal pedir autorização para defender a sua honra, o que parece não ter sido o caso.
Assim, Liliana Silva perguntou ao presidente da Câmara o que se lhe oferecia dizer sobre a sugestão de Paula Aldeia, quando recomendou a Miguel Alves que cortasse todas as relações com esse órgão de comunicação local.
Quando se referia a "todas", Paula Aldeia incluía, obviamente, as verbas (19.262,47€) disponibilizadas pelo Município em 2015 (*).
Miguel Alves não decretará blackout
Miguel Alves, em resposta, disse não pretender comentar o que foi debatido na AM, dizendo apenas que em relação a estes e outros orgãos de comunicação social, manterá a mesma relação com todos, independentemente do que escrevam, e não pretender actuar como foi o caso do Executivo social-democrata anterior, ao decretar "blackout" a um deles (C@2000).
(*)Dado que estas questões dos dinheiros canalizados para a imprensa local mereceram bastante relevo, convém referir que o C@2000, em 2015, recebeu 192€ dos cofres municipais.