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TRIBUNA
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Educação Técnico-Científica: Saber-fazer

A evolução científica e técnica, à qual está associada toda uma tecnologia que reúne o conjunto de estudos e práticas, que justificam a aplicação do conhecimento, para o progresso e supremacia material do homem, através do domínio que consegue ter sobre algumas parcelas da realidade terrestre, constitui a grande vitória da humanidade, já que, no que ao imaterial e transcendente diz respeito, aqui, neste domínio, ainda insondável, a ciência e a técnica pouco têm ajudado, o que, apesar desta incapacidade, não retira mérito nem inferioriza o ser humano face a outros seres naturais.

Pela ciência e pela técnica, o homem adquire uma dimensão única, que se prende com o trabalho, entendido no seu conceito de saber-fazer, produzir, objetivamente, bens necessários à sobrevivência do ser humano e dos restantes animais, em condições de abundância, conforto e satisfação das necessidades, sejam estas de natureza essencial à vida, sejam elas acessórias e até supérfluas. Discutiu-se já esta dupla capacidade do ser humano: produtor e consumidor de bens materiais e imateriais. Pelo estudo, pelo conhecimento, pelo realizar coisas, projetos e situações, o homem insere-se no domínio mais elevado a que tem o dever de ascender: o domínio do saber-fazer, sendo desejável que tudo o que faça seja para melhoria das condições de vida de todos os seus semelhantes e da própria natureza.

É correto afirmar-se que todas as pessoas estão dotadas de conhecimento, independentemente das eventuais especializações que cada uma possua e, nesta circunstância, na vida diária, recorrer-se, permanentemente, ao conhecimento espontâneo, também designado de senso-comum, o qual permita resolver muitas situações da vida quotidiana, outro tanto não se podendo dizer no que ao conhecimento científico se reporta, porquanto se trata de um saber que se pretende objetivo, rigoroso, fundamentado, experimentado, verificável, reversível e geral, para uma dada questão/situação.

Apesar disso, nem toda a ciência é totalmente objetiva e universal, basta refletir um pouco, nas denominadas ciências sociais e humanas, para se inferir das suas dificuldades, face à ainda pouco conhecida consciência humana, ou aos sentimentos e emoções que, na pessoa, são muitas vezes contraditórios e inexplicáveis cientificamente, procurando-se entendê-los por outros processos que não são reconhecidos pela construção científica.

Em todo o caso, pela técnica e pela ciência, o homem tem adquirido poder, entendido este nas suas diferentes aplicações: político, económico, militar, cultural; ou ainda o poder da autoridade que resulta do conhecimento, o poder religioso que, em situações-limite, acalma a pessoa, ou a transforma interiormente num ser mais compreensivo, abnegado e, quantas vezes, até um pouco misterioso.

A relação da ciência com o poder tanto pode salvar a humanidade como destruí-la aliás, há no mundo contemporâneo razões para fortes preocupações, quanto à utilização da ciência: "No entanto o poder da Ciência e da tecnologia é ambíguo porque pode estar ao serviço do homem ou contra ele. Daí a necessidade de o trabalho do cientista e do técnico ser acompanhado por reflexões de carácter moral e político, a fim de que sejam questionados os fins a que se destinam os meios utilizados pelo homem: se servem ao crescimento espiritual ou se degradam, se servem à liberdade ou às formas de dominação." (ARANHA & MARTINS, 1993:131).

Importa pois acautelar a investigação científica, no sentido da melhor aplicação do conhecimento e técnicas resultantes daquela atividade, considerando como boa toda a intervenção que contribuir para resolver problemas verdadeiramente impeditivos da felicidade humana: da doença ao trabalho; da educação à liberdade; da igualdade de oportunidades à realização e valorização pessoais; do conforto ao lazer.

Postula-se um sistema educativo que pela via da ciência, da técnica e da tecnologia, concretizadas num saber-fazer, sempre atualizado e benéfico, privilegie toda a humanidade em proporções adequadas ao contributo produtivo, ético e moral de cada um, isto é, um saber-fazer para todos, mas em que todos têm a obrigação de saber o que e como fazer.

Também nesta dimensão educacional, que só na pessoa humana é conhecida, se pode colaborar na formação do novo cidadão, sendo necessário que se despreconceituem certos setores, algumas mentalidades dogmáticas do positivismo científico, abrindo-se um espaço para o saber-fazer coisas: agradáveis e úteis para satisfação e realizações pessoais e coletivas; interessante para a resolução de situações e problemas, verdadeiramente atentatórios da condição superior, que deve assistir ao homem (homem no conceito de humanidade, portanto: mulher e homem) que, em quaisquer circunstâncias, já lhe era devida.

Nesse sentido, a educação para o Saber-fazer é fundamental para o equilíbrio da humanidade, em cujo espaço se desenvolvem tantas e tão incompreensíveis ações de destruição da própria natureza, aqui considerada na sua totalidade animal, vegetal e mineral, ou qualquer outra classificação que, modernamente, se lhe queira atribuir.

Sem dúvida que: "A educação deve instrumentalizar o homem como um ser capaz de agir sobre o mundo e, ao mesmo tempo, compreender a acção exercida. A escola não é a transmissora de um saber acabado e definitivo, não devendo separar teoria e prática, e educação e vida. A escola ideal não separa cultura, trabalho e educação." (ARANHA, 1996:52).

Uma educação para o Saber-fazer inclui, como é defendido, não dissociar a teoria e a prática mas, pelo contrário, conjugar estes dois tipos de conhecimento, retirando deles os melhores resultados possíveis para cada problema e situação a resolver. O mundo, hoje, não teria condições de sobrevivência humana sem a dimensão educacional do homem, não só nos domínios do Saber-ser e Saber-estar, como também no âmbito do Saber-fazer.

Considera-se, no contexto desta reflexão, que o Saber-fazer consiste na produção de bens, seja pelo estudo, seja pelo trabalho manual, físico, artístico e técnico, devidamente apoiado pela ciência e pelas novas tecnologias, embora sem qualquer tipo, ou forma disfarçada, de subordinação escravizante do homem à máquina.

Educar para a cidadania implica: preparar, instruir, formar o cidadão para o mundo da ciência e da técnica, até por razões de afirmação pessoal do próprio indivíduo, enquanto cidadão de direitos e deveres; estudar, trabalhar, cooperar e desenvolver, porque são deveres que obrigam a um esforço permanente, a que todos devem estar sujeitos.

A necessidade de aumentos de produtividade, em quantidade e qualidade, a par da redução de custos, só são possíveis com cidadãos sensibilizados e formados competentemente para um Saber-fazer de excelência, sem descurar a permanente atualização ao longo da vida e a criatividade para novas e atraentes ofertas.

O tempo de se aprender uma vez, na adolescência e na juventude, para o resto da vida, já não faz parte deste presente complexo e exigente, e muito menos de um futuro inexoravelmente competitivo e altamente tecnologizado. Informação, conhecimento e técnica são agora as palavras-chave para uma relativa autonomia cultural, social e económica.

A educação, por intermédio da escola, tem um papel decisivo no êxito deste projeto arrojado que se coloca: Saberes: Ser, Estar e Fazer e, nesse sentido, também ela, a escola, deve ser a primeira locomotiva do avanço do conhecimento, de conciliação com a sociedade, do progresso sustentado e sempre consolidado, contudo, sempre preocupada com os fundamentos dos valores humanistas e, nessa linha, a escola: "…necessita de se preparar para a construção de um homem novo, ou seja, um ser verdadeiramente humano, que deixe de ser a peça da máquina (…) pensámos que deve criar o homem humano capaz de reflectir, de equacionar o seu lugar no trabalho, de desenvolver as suas capacidades criativas e de expressão simbólica e estética, de procurar o sentido da vida e da relação ética com os demais (…) e de perceber que a ciência e a técnica em vez de desumanizarem podem ajudar ao humanismo." (MOREIRA, 2000:186).

Depositem-se, portanto, todas as expetativas e esperança na ciência e na técnica que, pese embora alguns, poucos, diga-se em abono da verdade, aspetos negativos, são muito mais as vantagens que ao longo dos séculos se têm verificado, conforme resulta da análise dos mais diversos indicadores: saúde, educação, conforto, esperança de vida, redução da mortalidade infantil e tantos outros benefícios que se adquiriram, e cujo expoente máximo deste desenvolvimento sem precedentes ocorreu no século passado, continuando, porém, neste.

Conciliar o conhecimento teórico-científico com a utilização da tecnologia, é a solução que se propõe a este novo cidadão e, uma vez mais, ao sistema educativo polivalente: "combinar o ensino das artes e ofícios concomitantes, de modo a que as pessoas habitualmente aplicadas a uns sejam assaz versadas nos outros para aí acharem um recurso no caso de lhes vir a faltar emprego nas suas profissões habituais." (FERREIRA, 1834b:350).

Educar para a cidadania pressupõe disciplinar para o trabalho, para o Saber-fazer no sentido de, entre outros objetivos, eliminar a ociosidade, a exclusão social, a info-iliteracia e, em última análise, a mendicidade, a criminalidade e a auto-destruição do ser humano. Por isso, é cada vez mais importante a aplicação da igualdade no acesso ao conhecimento, à técnica e ao trabalho, em suma, ao Saber-fazer.

A dimensão educacional implica uma atitude facilitadora e recetiva a novas técnicas educativas, pedagógicas e didáticas. A predisposição e abertura ao ainda não científico, ao não cognitivo, são um contributo importante para novas estratégias e novos compromissos. A tolerância do cidadão-cientista deve ser correlativa com a sua humildade intelectual e, nesse sentido, pode aceitar, sem preconceitos positivistas ou ouros, diferentes abordagens, não tradicionais, porém, eventualmente interessantes e proveitosas à reflexão sobre a educação.

Uma nova pedagogia, não cognitiva, poderá constituir um forte avanço no sentido da construção de uma sociedade mais humanista e feliz e, não obstante o assinalável progresso do conhecimento técnico-científico, os problemas de natureza social e do foro mais íntimo da pessoa, no campo dos valores e dos grandes princípios, continuam por resolver. Então, por que não dar uma oportunidade a outras abordagens alternativas?

Considera-se importante neste trabalho, cujo problema central é a impreparação do cidadão para resolver questões que têm escapado ao positivismo científico, mas que influenciam a vida concreta, material e objetiva do homem, avaliar as hipóteses técnico-científicas, como também todas aquelas que podem ser alternativas e caminho para as soluções que tardam em aparecer.

É neste contexto de cooperação interdisciplinar entre os vários níveis do conhecimento, que se regista o aparecimento de uma nova "Pedagogia Não Cognitiva", a qual poderá permitir testar novas hipóteses de soluções exequíveis para a implementação de uma sociedade mais humana, na medida em que: "… só assim conseguiremos gerar e educar nossas crianças para que possam viver num mundo melhor que conseguimos para nós próprios, que reconheçamos, não está lá muito bom." (COLETA, 2005:35).

Uma sociedade mais humana que, necessariamente, implica a globalização do bem-estar de cada cidadão e da espécie humana no seu todo. Com efeito, nenhuma lei, nenhuma doutrina, filosofia, política ou religião deverá impedir esta marcha para o progresso, inclusive no seu sentido material e traduzido, justamente, no bem-estar de cada um em particular e de todos em geral.

Não se pode ignorar, iniciado que está o século XXI, que: "As exigências da sociedade em acelerada mudança põem continuamente à prova o bem-estar individual e, admite-se, que será o contínuo desenvolvimento humano, social e cultural que permitirá enfrentar tais exigências com maiores ganhos e menores custos individuais e societais. (…) Se no passado o interesse pelo bem-estar era veiculado pela filosofia e estava ligado à felicidade e às virtudes humanas que a condicionavam, o bem-estar veio a ser encarado, sobretudo, na sua vertente material e tornou-se um desejo de todos." (NOVO, 2005:478).

Bibliografia

ARANHA, Maria Lúcia Arruda, (1996). Filosofia da Educação. 2a Ed. São Paulo: Moderna.

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda, MARTINS, Maria. Helena Pires, (1993). Filosofando: Introdução à Filosofia. 2a Ed. Revista e ampliada., São Paulo: Moderna.

COLETA, António Carlos Dela, (2005). Primeira Cartilha de Neurofisiologia Cerebral e Endócrina, Especialmente para Professores e Pais de Alunos de Escolas do Ensino Fundamental e Médio, Rio Claro, SP - Brasil: Graff Set, Gráfica e Editora

FERREIRA, Silvestre Pinheiro (1834b) Manual do Cidadão em um Governo Representativo. Vol I, Tomo II, Introdução António Paim (1998b) Brasília: Senado Federal.

MOREIRA, Vasco, (2000). Escola do Futuro, Sedução ou Inquietação? As Novas Tecnologias e o Reencantamento da Escola, Porto: Porto Editora.

NOVO, Rosa Ferreira, (2005). We Need More Than Self-Reports… Contributo para a Reflexão sobre as Estratégias de Avaliação do Bem-estar, in Psicologia, Educação e Cultura, Carvalhos: Colégio Internato dos Carvalhos, Vol. IX, nº 2, Dezembro-2005, pp. 477-495

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo


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