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LANHELAS
LUÍS MARROCOS JUNTA E COREMA VÃO PRESTAR HOMENAGEM
É a única carpintaria da Ribeira Minho que ainda constrói barcos carochos, a embarcação por excelência deste curso de água com um percurso milenar que já deu origem a lendas e histórias de encantar. Luís António Marrocos é um símbolo de Lanhelas e completou na passada Terça-feira (dia 9) 100 anos de uma vida inteiramente dedicada ao fabrico artesanal desta embarcação que conhece tão bem como as palmas das mãos, na sua oficina de família situada no sítio da Portela. MARCA DE FAMÍLIA
Aprendeu a arte com um tio que a herdou dos seus antepassados, pelo que a profissão desta família se perde na memória dos tempos e assim promete prosseguir, porque depois de um filho do artesão centenário ter garantido a "marca" da família, é agora um neto que sempre o acompanhou na carpintaria desde pequeno, que assegura a continuidade na velha oficina. Todos eles de nome Luís e apelido Marrocos. Apenas até aos anos 40 do século passado, havia outro construtor de carochos, o Zé Varanda, que trabalhava na barca que fazia a ligação entre Caminha e A Guarda. "Ainda há dois meses o meu pais fez dois remos", confidenciou-nos o filho, porque este ancião passa o tempo na oficina, acompanhando a evolução do neto (os carochos são uma part-time para si, já que trabalha numa vidraria de um tio) e que já tem duas encomendas de carochos para os próximos tempos, uma delas para a Galiza e outra para o Porto. VELA DIFÍCIL DE MANOBRAR Movido à vela (latina e rectangular e que não navega contra o vento, sendo obrigatório contorná-lo ou esperar que mude de orientação) e a remos quando necessário, esta embarcação esguia com 6.20 metros de comprimento, 1.50 de largura e 55 cm de altura, mais parecida com as dos legendários vikings que por aqui andaram, era a preferida pelos pescadores para "pilhar" lampreias e solhas. "Iam até Lapela à vela apanhar bogas", recordou o neto, baseado na memória de seu avô que vê nele (com orgulho) a continuidade de uma arte em risco de desaparecer. Em meados do século passado, havia mais de 100 carochos só nesta aldeia, ancorados no Rego da Torre, quando ainda não era autorizado atracar na margem do rio Minho. "ERA A ÉPOCA DA FROTA NEGRA"
Era a época da "frota negra", o nome dado a estes barcos feitos em tábua trincada e pintados a piche negro, porque utilizados no contrabando, um dos pontos fortes das actividades (transfronteiriças, como se diria agora) da época. O carpinteiro centenário reconheceu que a cor escura "era boa para se esconderem nos juncais e ilhas do Minho" e ser prática habitual os contrabandistas "pedirem-me para ter ser sempre um barco pronto, no caso de algum ser apreendido pela Marinha ou Guardia Civil espanhola", sendo de imediato substituído, pelo que "não havia mãos a medir", tantas eram as encomendas. "Muitas vezes, até os levavam às costas desde a carpintaria até à beirada do rio", sempre que a urgência do "negócio" o exigia, quando habitualmente eram transportados em carros de bois. UM BARCO EM SEIS DIAS
No seu tempo, fazia um barco em seis dias (muitas vezes pago com o pescado que os homens do rio apanhavam), trabalhando quinze ou mais horas por dia, usando madeiras autóctones, como o carvalho para a sua estrutura, castanho para a proa ou pinho tratado para a quilha. Confidenciou-nos que a maior dificuldade na sua concepção, está no dobrar a madeira para fazer a quilha, residindo grande parte do segredo, no uso de um inchó, redondo, apropriado para fazer concavidades e que passou de geração em geração. "Sabia tudo de cor, embora tivesse moldes", acentuou este carpinteiro centenário, recordando que chegou a fazer barcos para Monção, para serem utilizados pela Guarda Fiscal. ENCONTRO DE BARCOS REVITALIZOU CAROCHO
O seu neto, herdeiro desta arte, reconhece que o gosto pelo carocho ressurgiu, depois de ter sido organizado o primeiro encontro de barcos tradicionais em Lanhelas em 2003, "havendo já muita gente que olha para ele como barco de passeio", depois de ter caído em desuso e sofrido alteração na ré, ao ser cortada para adaptação de motores usados na pesca do meixão, ou devido ao aparecimento de barcos em chapa. AS EXIGÊNCIAS DE LISBOA Um carocho, o barco por excelência para a pesca das solhas, custa nos dias de hoje 3.000€ e, fruto das exigências modernas, foi-nos referido por esta família de artistas lanhelenses, que lhes vêm exigindo um sem número de papelada para que lhes concedam autorizações para navegar. "Estivemos dois anos à espera que nos legalizassem um barco, chegando a pedir-nos um projecto feito por um engenheiro!", exclamam, espantados com tanta burocracia, como se os melhores técnicos não fossem eles próprios, avalizados por centenas de anos de experiência familiar. O aniversário de Luís Marrocos decorreu em ambiente familiar e já em Agosto se reunira toda a família, aproveitando a presença de todos em Lanhelas, de férias. Fases de construção de um carocho
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