As exigências das sociedades modernas, no que respeita à descoberta e aplicação de soluções para os problemas complexos que diariamente surgem, não são compatíveis com cidadãos intelectualmente estáticos, nem com escolas que apenas reproduzem o passado e não se adaptam aos novos tempos.
Cabe então à escola tradicional, preparar o cidadão para a vida, para o trabalho, para a cidadania, para a ciência para a técnica em articulação com a realidade social envolvente, sem descurar uma certa ilustração intelectualista, mas misturando-se também com o povo anónimo, produtor, consumidor, crente ou ateu.
Portanto: "… se vocês conseguirem elaborar um sistema educativo melhor assente na vida, melhor adaptado às descobertas científicas e às condições económicas; se tornarem a vossa escola mais eficiente não só no plano intelectual, mas também no vasto e complexo domínio do trabalho, terão mais adesões e apoios do que pensam." (FREINET, 1974:168.)
Caminha-se para a introdução de profundas mudanças na sociedade mundial. As transformações decorrentes das novas tecnologias: a globalização económica, comercial, industrial e monetária é um dado adquirido; o avanço científico, os problemas ambientais, as tentativas para estabelecer uma nova ordem internacional que, do ponto de vista de algumas potências, pode perverter valores civilizacionais e comprometer o próprio direito internacional, constituem realidades para as quais o novo cidadão se deve consciencializar.
Por outro lado, situações de grande conflitualidade regional, em vários pontos do globo, que afetam, direta ou indiretamente todas as nações do Mundo, estão a dificultar os esforços desenvolvidos aos mais altos níveis políticos e religiosos, para o restabelecimento de uma paz mundial.
A segurança das instituições, das pessoas, dos bens, dos meios e recursos, indispensáveis ao desenvolvimento equilibrado, está igualmente comprometida. Uma presumível nova civilização parece querer emergir, dos escombros provocados por uns ou das novas políticas pacifistas e ambientalistas defendidas por outros, sem se saber muito bem qual o desfecho de toda esta movimentação.
Num contexto tão diversificado, quanto complexo, impõe-se às novas gerações uma atitude ativa perante as realidades que se lhes colocam. Nesse sentido compete a todos quantos no presente tem responsabilidades executivas, de decisão, políticas, educacionais e religiosas, colaborar intensamente na formação dos novos cidadãos, educando-os para uma nova civilização, sem perda dos princípios e dos valores universais, naturalmente que dando-lhes uma interpretação ajustada às novas realidades.
Independentemente dos múltiplos agentes constituintes da sociedade, uma vez mais se destaca o papel da escola e dos respetivos intervenientes nos processos educativo e formativo das crianças, jovens e adultos, agora na perspectiva de "aprender toda a vida" ou "ao longo da vida"?
Continua-se a assistir, em alguns níveis e estabelecimento de ensino, a uma educação para a reprodução, onde os educandos, no fim de um ciclo de estudos, não estão preparados para o mundo, quaisquer que sejam as perspectivas: laborais, políticas, sociais e religiosas.
O estímulo à criatividade, à inovação, à autonomia do aluno, deve ser permanentemente estimulado na prática pedagógica de muitos docentes e formadores, assim como promover com maior frequência sessões de sensibilização e preparação para a mudança.
O professor/formador moderno pode, (e deve) também ele, continuar a atualizar-se, a usar da sua experiência, transmitindo aos seus alunos e formandos, factos concretos da vida real, num mundo real que, inevitavelmente, vão encontrar fora dos muros da escola. Importa defender um professor que seja cada vez menos: omnipresente, omnipotente e omnisciente; em benefício de um docente mais: coordenador, tutor, facilitador, distante da autonomia do aluno; e também cada vez mais: aprendiz, curioso, democrata, companheiro e cúmplice.
O cidadão cuja estrutura se tem vindo a tentar descrever insere-se já, neste novo mundo e as suas necessidades de adaptação são diferentes daquelas que sentiram os seus antepassados. Cumpre dar satisfação a tais carências, fundamentalmente através da educação, até porque o papel da família, continuando a ser importante, não é suficiente, na medida em que também neste agente socializador que ela representa, muitas tem sido as alterações.
Reconhece-se que a própria constituição da família já não obedece aos processos tradicionais, a duração do matrimónio clássico é cada vez menor, por razões que se prendem, de entre outras, com projetos profissionais, com um reforço das autonomias individuais, atividades, políticas e com uma partilha exigida de tarefas domésticas, em alguns casais. O papel da família na educação tradicional que no seu seio era desenvolvido, perdeu muito da sua influência e eficácia.
Em última análise, resta à escola assumir-se e liderar o processo nos diversos níveis e tipos de ensino: aprendizagem, formação e atualização, ao longo da vida das pessoas, integradas numa sociedade democrática, onde os problemas de natureza social constituem um desafio para os cidadãos em geral e, principalmente, para este novo cidadão "luso-brasileiro" que se deseja ver atuar num futuro próximo, porque não se pode perder mais tempo com um certo passado de: sofrimento, miséria, ditadura, prepotência.
Sem mais delongas: "É preciso que tomemos em consideração mais uma exigência da democracia. Se os nossos alunos devem desenvolver-se dentro da cidadania conveniente, precisam com o avançar da idade, e com a devida atenção para o seu ponto de vista e o seu interesse futuro, familiarizarem-se, cada vez mais, com os problemas da civilização." (KILPATRICK, 1978:56).
A atividade, nos vários domínios que a sociedade democrática comporta, será uma exigência e uma característica do novo cidadão. O exercício da cidadania plena não é uma atitude passiva, de crítica pela crítica, de afastamento dos problemas sociais e da rejeição de responsabilidades. O novo cidadão manifestar-se-á ativo ao longo da sua vida, adaptando-se em cada momento, às novas realidades, em função das suas capacidades físicas e intelectuais.
Bibliografia
FREINET, Celestin, (1974). A Educação pelo Trabalho, Trad. António Pescada, 1. Vol, Lisboa: Editorial Presença.
KILPATRICK William Heard, (1978). Educação para uma Civilização em Mudança, Trad. Profª. Nomo S. Rudolfer., 16ª. Ed., São Paulo, Melhoramentos, Rio de Janeiro:
Fundação Nacional de Material Escolar - Ministério da Educação e Cultura