Nem sempre o absurdo se ignora como por vezes do óbvio se esquece. É assim na vida comum de cada um, mas não é aceitável que o seja nas decisões políticas e administrativas que nos regem.
As movimentações já visíveis no sapal do Âncora anteveem uma possível agressão ambiental sem precedentes numa zona sensível e determinante para o equilíbrio ecológico local e migratório. Só uma insensibilidade ou desconhecimento gritante justifica o livre arbítrio no prejuízo desta zona, reconhecidamente, não só no normativo nacional como no comunitário, como fundamental ao equilíbrio ecológico e à integridade territorial. Não é por isso estranho que a comunidade europeia, seguida depois pelo estado português, tenha mesmo criado elementos de classificação para a metragem dos sapais, fazendo eco de estudos especializados que determinam o cariz incubador de vida destas zonas húmidas e a sua capacidade depuradora. Claro que os limites territoriais definidos, ou a definir, mereceram esclarecimento, numa tónica reguladora e universal. Em Portugal, desde 2012 que estes limites estão definidos por decisão do conselho de ministros, e nesta pode ler-se que "A delimitação dos sapais é efetuada ao longo do contorno exterior dos conjuntos de unidades de superfície com vegetação halofítica situadas no domínio intertidal superior, incluindo as áreas adjacentes fundamentais para a sua manutenção e funcionamento natural, como sejam a rede de canais que drena essas unidades e as áreas de natureza arenosa ou lodosa nelas incluídas". Aplicado ao contexto do sapal do âncora, vulgo Junqueira, pode mesmo dizer-se que estes limites já de longa data foram invadidos, mais que não seja pela própria linha férrea. Ao longo do tempo a pressão urbanística e a gestão do território diminuíram a atual delimitação, havendo por vezes até intervenções arbitrárias, decididas na vontade individual, alheias a recomendações e classificações nacionais e internacionais. A título de exemplo, o Plano de Ação de Proteção e Valorização do Litoral 2012-2015, no capítulo da Defesa Costeira e Zonas de Risco identifica o concelho de Caminha como Prioridade Máxima, enfatizando-se o cariz frágil de toda a área de foz do rio âncora, com os avanços do mar sobre o cordão dunar e a possibilidade de cheias e inundações nas áreas de cota inferior. Outros documentos, sobretudo com exemplos e estudos de intervenção noutras zonas do país estão disponíveis no sítio da Agência Portuguesa do Ambiente.
Mas apesar de toda esta aparente alerta sobre estas zonas, apesar de ser pública a determinação de cautela nas intervenções, está em curso o que parece ser uma ação com objetivo definido no sapal do âncora, estranhamente sem anúncio visível do que aí se está a fazer, com que objetivo, com que financiamento e sob que tutelas. Parece até uma obra escondida, permitindo o julgamento público, porventura errado, mas garantidamente desafiado. Mas se esta intervenção não está anunciada não significa que as entidades competentes, quer oficiais, quer associativas com interesse na defesa e promoção do ambiente, não estejam ao corrente. Este foi efetivamente o primeiro pensamento, mas ao que tudo indica não foram ouvidas as associações de defesa do ambiente, e da tutela reservo-me à dúvida.
Esta é mais outra atuação que representa o falhanço político das promessas de campanha, que afirmavam a participação popular, a auscultação prévia das populações ou seus representantes. Repare-se que não é conhecida a metragem do local, que seres vivos constituem este ecossistema, quais as suas necessidades biológicas e físico-químicas, nem tão pouco o impacte que esta intervenção terá no equilíbrio ecológico e territorial, no entanto a obra avança sem reservas, constituindo-se também uma possível perda técnica e científica. Veja-se, por exemplo, que a promoção de zonas secas perturba as características halofíticas da vegetação, já que torna a sua capacidade de resistência temporária a períodos secos em permanente, podendo configurar uma incapacidade de sobrevivência a períodos húmidos em situação de alagamento, podendo alterar-se desta forma o bioma.
Muitas são as dúvidas, poucas são as certezas, e esta forma de agir afasta seguramente os consensos, prejudica as decisões, contraria o diálogo prometido e afirma a autocracia. Estranha-se contudo, que um executivo que prometia a conjugação da capacidade política do presidente com o saber técnico, com sensibilidade especial nestas matérias, do seu vice-presidente, assuma a gestão do concelho desta forma. É que quando se decide em nome de todos é fundamental que todos saibam das decisões, das suas consequências e do apoio, ou não, que merecem da população. Sem prejuízo das melhores intenções, urge uma explicação.
A maioria das pessoas, em todo o mundo, vive hoje tempos difíceis. Tudo atormenta e provoca medos: a saúde, o emprego, a família, a felicidade, até as divindades parecem assustar quando não atendem os pedidos dos seus crentes. Ninguém quererá perder estes bens essenciais à vida, contudo, cada vez há menos certezas de os manter.
É difícil acreditar num mundo exterior que, através dos diversos intervenientes, sempre em minoria, determinam o rumo e a vida das populações, naturalmente com o voto democrático das maiorias, porém, quantas vezes, pouco esclarecidas. Resta, então, a força que vai dentro de cada pessoa para tentar vencer, ou, pelo menos, equilibrar as dificuldades.
A sociedade, enquanto conjunto de pessoas organizadas segundo determinadas regras, valores, costumes, tradições, causas e objetivos, impõe o cumprimento, quase sempre coercivo, das normas jurídicas que ela estabelece e critica, mais ou menos violentamente, a transgressão das normas sociais. A pessoa vive, portanto, no "fio da navalha" que divide estes dois mundos, o que, realmente, se torna muito difícil. Mas neste equilíbrio, há, ainda, uma terceira alternativa, constituída pelo seu mundo interior e inexpugnável.
A composição da sociedade por pessoas com diferentes formações, situações de vida e objetivos conduz a diversos procedimentos, nem sempre compatíveis com os valores do respeito por terceiros, o que resulta em situações humilhantes e prejudiciais para aqueles que são vítimas de atitudes inaceitáveis, na medida em que: "Não prejudicar implica evidentemente não matar nem roubar ou mentir às pessoas. Implica igualmente não sermos agressivos - não sermos agressivos nos nossos actos, na nossa linguagem ou na nossa mente. (…) É assim que pode existir um mundo são. Ele começa com cidadãos saudáveis que somos nós. A agressão mais fundamental que podemos fazer a nós mesmos é permanecermos ignorantes por não termos a coragem e o respeito de nos encararmos com sinceridade e gentileza." (CHODRON, 1997:51).
A formação de cada pessoa, para estar preparada para diferentes situações de vida, por mais caóticas que sejam, seria uma mais-valia a todos os títulos, embora se pense que será muito difícil, ou mesmo impossível tal formação, pela simples razão de que não há duas pessoas exatamente iguais, nem duas situações igualmente semelhantes. Além disso, outros fatores de ordem emocional, psicológicos e espirituais tornariam muito complexa uma "formação-padrão" para enfrentar o caos.
A "formação-padrão" para enfrentar e resolver certas situações caóticas, a partir da escola pode, também, não resultar, porque quando a criança se integra neste tipo de ensino/formação, já deverá levar com ela as principais bases, adquiridas na família, até porque é por esta primeira instituição que a sociedade se vai construindo e modificando.
Há, portanto, muitos medos instalados na sociedade, designadamente naqueles estratos mais vulneráveis, cujo rendimentos baixos e incertos não lhes permitem vislumbrar um futuro tranquilo, para eles e para as gerações suas descendentes. Por isso, os outros estratos da sociedade: política, financeira e empresarial, bem poderão dar sinais de esperança, de alguma segurança quanto ao futuro, porque não devem, nem têm condições para tal, serem sempre os mesmos a suportar as dificuldades do todo, no seu conjunto.
Algumas das dúvidas quanto ao futuro são, também, analisadas aos diversos níveis das diferentes gerações, de tal forma que se para as mais novas, o trabalho e uma reforma são preocupações a ter em conta, para as que se aproximam do final da vida ativa, o valor material da aposentadoria e qualidade de vida, a que têm direito, revelam-se, igualmente, inquietações que são de difícil superação.
As gerações em permanente movimento, umas que chegam, outras que vão terminando a sua passagem por este mesmo mundo, sempre têm vivido com preocupações, de diversa natureza e com valores diferentes, o que dificulta, provavelmente, um maior consenso na resolução de problemas, alguns, comuns a todas as gerações.
Com efeito: "Toda a geração possui seus valores e ideais e vive num contexto histórico em problemas e necessidades específicos. Além disso, as solicitações de uma sociedade dia-a-dia mais tecnológica, mais estratificada (dividida em camadas ou classes rígidas) e portanto mais competitiva faz com que as novas gerações rompam cada vez mais cedo com a velha geração. É, pois, natural a existência de certa distância social entre as gerações dos pais e dos filhos." (TORRE, 1983:84).
As dificuldades, quaisquer que sejam, não se vencem com a separação de classes sociais, nem com os conflitos de gerações, bem pelo contrário, é nos momentos de maiores tormentos que todos devem estar unidos, e que os mais poderosos, seja qual for esse poder, devem ajudar os mais fracos e contribuir na resolução dos problemas e situações mais complexas. Esta poderá ser uma solução de alguma cumplicidade que, não sendo pessimista, corresponderá à realidade atualmente (2013) em curso. É essa minoria de poderosos, desejavelmente "bons-poderosos" que pode acender uma luz, a da esperança, para a maioria que vive nas dúvidas e na escuridão de um futuro incerto.
É certo que se vive, pelo menos as classes mais desfavorecidas, que constituem a maioria da população, em crescentes dificuldades; é verdade que outros grupos minoritários, as denominadas "elites": políticas, empresariais das multinacionais e financeiras, também sentirão os efeitos das crises, no que respeita aos negócios, que sustentam milhares de postos de trabalho, e parece evidente que outros estratos da sociedade, mais específicos e tradicionais não sentirão tanto os efeitos deste período menos bom. Está, portanto, na hora da solidariedade dos mais fortes para com os mais fracos e que estes, humilde e reconhecidamente saibam aproveitar as ajudas.
A sociedade compõe-se de todos: mulheres e homens, crianças e idosos, jovens e adultos, com mais ou menos "boa-vontade", com mais ou menos solidariedade. Ela é algo de instável, permanentemente mutável. Ignorar algumas características do seu funcionamento é suicidar-se e, se assim for, ninguém mais terá qualquer responsabilidade.
Em certa medida: "A sociedade acumula crises de moral, de valores, de adaptação às novas realidades do mundo, situação esta em parte provocada, em parte consentida pelos poderes governamentais, de quem espera (porque delegou a eles e os sustenta) mais do que deve, a solução de todos os problemas e a melhoria da sua condição de vida. A sociedade está precisando de muita autoconscientização a respeito do fato de que lhe cabe resolver por conta própria a maioria dos seus problemas, inclusive o de melhorar a forma de escolher e controlar governantes." (RESENDE, 2000:172).
O pessimismo não vai conduzir à solução dos problemas existentes e a crucificação dos governantes e das "elites" de outras áreas também não resolve as difíceis situações que a sociedade vai vivendo. Importa, isso sim, desenvolver os valores próprios de uma democracia avançada, onde as boas-práticas de tais valores sejam uma rotina: solidariedade, justiça social, entre-ajuda, trabalho/solidário salários justos, sistemas de saúde, educação, aposentação, adequados a uma qualidade de vida igual para todos. Nestas circunstâncias, quem poderá recear o futuro?
A formação-padrão de que atrás se fez referência, apenas no seio da família, já não será suficiente, para se mudar uma sociedade. A escola poderá avançar, um pouco mais, todavia, será, também ela, insuficiente, considerando este novo fenómeno que dá pelo nome de globalização. Quem, permanentemente, em Portugal, viver numa pequena aldeia, vila, ou cidade, ainda, muito dificilmente poderá dar o seu contributo para a mudança. Muito embora os meios de comunicação sejam facilitadores para a aquisição de conhecimentos, designadamente as novas tecnologias da informação e da comunicação, pretende-se ir mais longe.
Os obstáculos para cada pessoa em geral, e particularmente os jovens, se inserirem física e culturalmente no mundo são, notoriamente, para os mais desfavorecidos, que assim ficam em dificuldade com os seus concidadãos mais beneficiados financeiramente e intelectualmente, porque estes dispõem de melhor acesso aos grandes centros urbanos e respetivos estabelecimentos de ensino.
Em bom rigor: "As elites educadas dos países em desenvolvimento estão em contacto com um mundo mais vasto que seus concidadãos e parentes menos educados; o seu domínio de uma ou mais das principais línguas do mundo é suficiente, por si só, para abrir-lhes o espírito para uma conscientização do mundo moderno, e some-se a isso o fato de a educação por eles recebida estar vinculada, na maioria dos casos, às tradições culturais e científicas de uma das nações desenvolvidas, ou de mais de uma (…)" (GOLDTHORPE, 1977:144).
Nesta perspectiva optimista, é fundamental todo o processo formativo, com uma certa sequência lógico-pedagógica e uma estratégia que contemple: família, catequese, escola, a todos os níveis, e uma sociedade que esteja pautada por valores dinâmicos, democráticos, responsáveis e justos, como acima já se identificaram.
É claro que todo este processo demorará algumas gerações, e para a atual crise poderá não vir a tempo, todavia, nunca será tarde para se experimentarem novos métodos. O recurso ao pessimismo, à malquerença e à desconfiança também não conduz à solução e até poderá ser injusto ou, inclusivamente, ofensivo.
O tempo difícil que a humanidade está a viver tem de ser ultrapassado, vencido, entendido como mais uma lição de vida para todas as pessoas que, direta ou indiretamente, têm vindo a sofrer as suas consequências. A realidade descrita não significa pessimismo. Que aquelas entidades que detêm os poderes de decisão possam aprender e prevenir-se para o futuro é o que se exige.
Que cada pessoa, individualmente considerada, dê o seu contributo para a eliminação dos muitos erros que têm sido cometidos é, igualmente, um dever cívico. Nesta fase complexa, cada pessoa poderá dar um contributo importante, nomeadamente: "Através do nosso próprio estado de espírito positivo, podemos estar dispostos a relacionar-nos directamente com o que está a acontecer, com precisão e suavidade. É isso que cria a alegria fundamental, o relaxamento fundamental." (CHODRON, 1987:183).
Bibliografia
CHODRON, Pema, (2007). Quando Tudo se Desfaz. Palavras de coragem para tempos difíceis. Trad. Maria Augusta Júdice. Porto: ASA Editores.
GOLDTHORPE, J. E., (1977). Sociologia e Antropologia Social: Uma Introdução. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar Editores;
RESENDE, Enio, (2000). O Livro das Competências. Desenvolvimento das Competências: A melhor Auto-Ajuda para Pessoas, Organizações e Sociedade. Rio de Janeiro: Qualitymark
TORRE, Della, (1983). O Homem e a Sociedade. Uma Introdução à Sociologia. 11ª Edição. São Paulo: Companhia Editora Nacional
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo