Alexandre Ribas, 16 anos, um jovem nadador de Venade, representando presentemente a Escola Desportiva de Viana, e que ainda recentemente foi alvo de uma homenagem por parte da câmara vianense, encontra-se empenhadíssimo em obter os mínimos exigíveis para se integrar no seleccionado português que deverá participar nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.
Se o conseguir, será o primeiro atleta caminhense a disputar uns Jogos Olímpicos numa modalidade que não o remo, uma vez que 13 remadores do Sporting Club Caminhense competiram em quatro olimpíadas.
Já integra o projecto olímpico/2016 há dois anos, encontrando-se numa fase de pré-selecção, em que serão decisivas as suas prestações nos Europeus e Mundiais da modalidade.
Na natação por conselho médico
Alexandre Ribas foi para a natação aos dois anos por conselho médico, porque tinha asma. Aos seis já competia e ao longo do seu invejável currículo desportivo de dez anos, bateu 15 recordes nacionais e conquistou 20 títulos nacionais. Um dos recordes batidos foi há um mês, em Felgueiras, nos campeonatos nacionais de piscina curta (25 metros), nos 50 metros costas, o seu estilo preferido. Fez um tempo de 26.69 e vai lutar por diminuir para os 25 segundos, o que lhe facultaria a participação nos Europeus de Juniores deste ano.
"Sei que é difícil a um júnior de primeiro ano conseguir esse tempo, mas vou tentar", assegurou ao C@2000 este estudante (bom aluno) do 11º Ano da área de Ciências da EB 2,3/S de Caminha, e que desde que atingiu o escalão de juvenil de segundo ano, vem integrando o grupo de seleccionados.
Admite ser difícil, por vezes, conciliar os estudos com os treinos e competição, nomeadamente quando "estou cansado e tenho de me concentrar nas aulas", diz Alexandre Ribas.
Antes de participar nos Europeus deste ano, tentará voltará a repetir presença na prova "Multi-Nations", em Corfu, Grécia, tal como o fez no ano passado na Polónia e em que foi quarto classificado. Antes, deverá assegurar tempos que satisfaçam a presença na "Multi-Nations", explicando que a obtenção de um nível que lhe garanta a presença nesta prova, equivalerá quase a um lugar garantido nos Europeus de Juniores.
Envergadura invulgar

"Vou apostar fortemente nos Nacionais de Inverno", garante este nadador possuidor de uma envergadura invulgar de braços (1,92 metros), a qual é mesmo superior à sua altura (1,87 metros), calçando 45 - o que representa uma boa "barbatana", diga-se.
Nos estágios da selecção em Rio Maior são realizadas muitas medições antropométricas e testes de genética para atestar a pré-disposição dos convocados para a modalidade, explicou-nos. Refira-se que para ser chamado a integrar os estágios nesse Centro de Alto Rendimento, qualquer nadador deverá obter os mínimos exigíveis no decorrer dos Nacionais de cada ano.
Reconhece que o estilo que mais aprecia é a mariposa, mas sucede que "onde me destaco mais é de costas", optando assim por escolher esta classe, embora sem definir se será nos 50, 100 ou 200 metros.
Recebido pelo presidente da Câmara
A par de ter sido agraciado com a medalha comemorativa da cidade de Viana do Castelo, pela sua integração na Escola Desportiva de Viana, Alexandre Ribas foi recebido de uma forma informal pelo presidente da Câmara Municipal de Caminha, no seu gabinete, o qual o felicitou pelo seu percurso desportivo, nomeadamente por ter batido mais um recorde, desta feita nos 50 metros costas.
Nesse mesmo dia da prova, os técnicos da EDV tinham informado os responsáveis pela piscina municipal de Vila Praia de Âncora - onde este atleta treina duas vezes por semana e não lhe sendo cobrada qualquer mensalidade - do sucesso desportivo, levando a que Miguel Alves pretendesse conhecê-lo.
Miguel Alves ter-se-á interessado muito pelo percurso desportivo e escolar do atleta do concelho (filho de um venadense e de uma lanhelense).
Polo em Vila Praia de Âncora
Refira-se que a Escola Desportiva de Viana abriu um polo na piscina municipal de Vila Praia de Âncora, orientado pelo professor José Leal, no qual treinam os atletas do concelho de Caminha inscritos na associação vianense, atendendo à inexistência aqui, de qualquer clube de natação.
Da parte da Federação Portuguesa de Natação tem havido uma evolução constante no apoio aos nadadores seleccionados, esbarrando apenas com a falta de suporte financeiro para as deslocações a provas internacionais. Deu como exemplo a presença portuguesa com apenas dois atletas, no ano passado, em Itália, enquanto que as delegações de outros países eram bem mais numerosas.
"Tirar ao sono, ao estudo, a tudo…"
Outro problema prende-se com a falta de coordenação entre escolas e desporto a nível de competição internacional. Noutros países, o ensino "adapta-se" às exigências da alta competição, elaborando horários compatíveis com os treinos. Em Portugal isto não sucede. Os atletas são obrigados a tirar ao descanso (sono) e a jantar às 10 horas da noite, levantando-se todos os dias às seis horas da manhã para treinar em Viana do Castelo.
Noutros países, existe um sistema integrado, em que os alunos só têm aulas de manhã, permitindo-lhes treinar da parte de tarde. Em Portugal, concretamente em Rio Maior, há 10 atletas concentrados permanentemente, tendo aulas no próprio centro, mas as propinas que têm de pagar são elevadíssimas e as bolsas são raras, refere este jovem nadador.
Não desdenharia estagiar num país como os Estados Unidos, mas obter uma bolsa é dificílimo e pagar a um treinador para o orientar sai caríssimo diz-nos Alexandre Ribas, ao divagar sobre este mundo da alta competição.
Dificuldades

Com a obtenção de bons resultados nas principais competições internacionais, conseguir-se-iam bolsas que permitiriam "melhorar o rendimento" através de estágios permanentes no estrangeiro, porque a nível de bons técnicos, Portugal já os possui, faltando apenas aquele salto qualitativo que faz a diferença para os grandes resultados a nível mundial.
Alexandre Ribas precisou que para a obtenção do estatuto de Alta Competição que facilite o ingresso universitário aos atletas, é necessário atingir finais e medalhas em Europeus ou Mundiais. Mas, se para conseguirem os mínimos a fim de poderem competir nessas provas já é complicadíssimo, imagine-se a dificuldade de que se reveste conquistar uma medalha nessas competições.
Perante tamanhos obstáculos, "muitos atletas desistem", admite Alexandre Ribas, ou, quando ingressam na universidade, acabam por congelar a matrícula a fim de se dedicarem exclusivamente à alta competição.
"Não há treino sem dor"
A sua participação num grande evento como é o caso de um Mundial ou Europeu, depende muitas vezes de apenas um segundo. "Apenas", é uma maneira de dizer, porque para superar esse segundo em natação, é necessário muito trabalho.
A par do grande esforço exigido a uma atleta que luta por alcançar resultados importantes, os treinos são sempre "no limiar da dor". "Não há treino sem dor", admite Alexandre Ribas, ainda por cima pesando sempre sobre eles o risco de contracção de uma lesão que pode deitar tudo a perder e pôr em risco o futuro desportivo do atleta.
Outro calvário para estes atletas advém da necessidade de seguirem uma dieta extremamente regrada, dizendo que os lanches, por exemplo, "são um desgosto", à base de pão integral com fiambre de perú. Todo o tipo de gorduras estão banidas e "fast food", nem vê-la.
Equipas multidisciplinares compostas por diversos especialistas nas mais diversas áreas acompanham todos os passos destes atletas.
"Cantando mentalmente"
Pormenorizou a crueldade dos treinos, e a sua solidão na água, "horas e horas" seguidas "a contar os azulejos da piscina" ou a "cantar mentalmente, mas quando acabam as canções (repertório) é o pânico", vendo-se então obrigado a repetir vezes sem conta as mesmas melodias.
Neste nível competitivo, o facto de representar a selecção nacional constitui por si só um factor extra de motivação, recordando a sensação que sentiu quando esteve no Polónia no ano passado.
Actualmente, há 15 atletas, rapazes e raparigas, em vários estilos, tentando um estatuto que lhes permita marcar presença nas diferentes competições internacionais, designadamente nas próximas Olimpíadas do Brasil. Confiam nas equipas técnicas que os acompanham, quer a nível dos clubes, quer da selecção.
"É esperar pelo apito"
Mas o momento mais "solitário" de uma prova, é quando sobem ao bloco para saltar para a água. "Parece que ficamos sem nada", assim define o seu irmão Rafa - igualmente um nadador - esses momentos de espera, "em que parece que tudo desparece à volta".
De todas estas dificuldades, a par do objectivo da vitória, ficam muitas coisas importantes para a sua vida, como sejam a rapidez, a autonomia, a decisão rápida, competitividade mas, simultaneamente, tornam-se "muito calmos".
A importância do apoio familiar
O empenhamento e colaboração da família diariamente revestem-se de factores determinantes, a que se seguem as despesas decorrentes de uma prática desportiva de alta competição que têm de suportar, apontando como exemplo a utilização de calções "Arena Carbon", o último grito na natação, devido à sua importância no deslizamento na água.
"Ele tem de abdicar de tanta coisa de que gosta a favor da natação, como praticar outros deportos, caçar, pescar", referiu-nos sua mãe Beatrice Ribas, enquanto escutava o que este "golfinho" nos dizia.