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A noite mágica do Conde de Carnarvon na casa do Juiz de Fora (1827)

O inglês Henry John George Herbert, 3º Conde de Carnarvon (1800-1849), aristocrata de bons costados, literato esclarecido e político tory - teve assento eleito na Câmara dos Comuns antes de ocupar a cadeira do pai nos Lordes -
foi também um viajante incansável, com uma prelideção especial pelos países do sul da Europa. Na sua juventude, cavalgou pela Península Ibérica —"da Corunha ao Cabo de S.Vicente, as minhas excursões eram invariavelmente feitas a cavalo, o que me permitia desviar-me a meu belo prazer da estrada principal e penetrar nos distritos mais isolados" —, resultando do seu espírito aventureiro e de uma pena erudita a obra "Portugal and Galicia: with a review of the social and political state of the Basque Provinces; and a few remarks on recent events in Spain". A primeira edição foi publicada em Londres em 1836 e a derradeira em 1848, um ano antes da sua morte, mas o texto respeitante a Portugal corresponde ao período em que por aqui deambulou, entre 1827 e 1828.

Não se tratando de um clássico guia de viagem, mesmo se nele abundem descrições de paisagens e lugares, o relato do Conde Carnarvon evidencia o interesse do autor pelas questões da política peninsular, a viver a época agitada da implantação do liberalismo. Foi precisamente em vésperas de se iniciar a guerra civil de 1828-1834, que percorreu os caminhos do norte de Portugal, país que muito apreciou, pernoitando nas cidades e vilas e contactando com os seus habitantes, do povo às elites. Desembarcado em Lisboa do vapor que o trouxe de Portsmouth nos primeiros dias de agosto de 1827, o nobre inglês, acompanhado do seu criado António, partiu em direção ao Porto no final do mês — passando por Mafra, Alcobaça, Batalha, Coimbra, Buçaco, Aveiro e Ovar — aí chegando pouco depois do Duque da Terceira ter assumido o governo militar da cidade. Após uma digressão ao Douro e a Trás-os-Montes, regressou ao Porto, de onde voltou a sair a 14 de novembro, agora pela estrada do Minho que o levou por Vila do Conde, Barcelos e Ponte de Lima até Viana.

Da vila da foz do Lima, onde passou sem se deter, o Conde de Carnarvon tomou a rota de Caminha ao crepúsculo do dia 16 de novembro. De acordo com o espírito do tempo, a atmosfera da narrativa é romântica, neste trecho favorecida pela escuridão da noite, que amplificava os ruídos do mar e ajudou a despertar a imaginação fértil do jovem aristocrata fazendo-o entrever a "moradia de um mago" no que seria possivelmente o forte de Gontinhães, pouco antes de percorrer o Camarido, perto já das muralhas da vila de Caminha. A tradução livre do inglês é da responsabilidade do autor destas linhas:

"Deixando Viana, tomei a estrada de Caminha. O sol tinha-se posto atrás de um banco de nuvens e uma chuva miudinha começara a cair. À medida que a noite se fechava o cenário transformava-se: cavalgávamos por um trilho baldio, com grandes penhascos dispersos por todo o lado, e passámos debaixo das torres altas e muralhas maciças de um grande forte, o qual, erguido isolado em tão bravia região, e visto ao escurecer, parecia a gigantesca moradia de um mago dos tempos antigos. O mar batia furiosamente nas rochas; em baixo, por entre as trevas, via-se a espuma das ondas e o seu grande rugido parecia mais terrível ainda na ausência de qualquer outro som. Pouco depois entrámos numa floresta real e conseguimos um guia que nos indicou a direcção de Caminha. A estalagem estava completamente lotada; os nossos cavalos estavam exaustos e era quase meia-noite. Fui por isso obrigado a enviar o meu criado, com uma carta, ao Juiz de Fora. Foi divertido observar a alteração de modos do meu hospedeiro quando percebeu que eu, muito provavelmente, iria ser convidado de pessoa tão influente; o seu lamento por não ter providenciado acomodação para a minha estimável pessoa não teve limites; a sua solicitude pelo meu conforto era paternal; não queria sequer receber qualquer remuneração pelo incómodo; o seu tecto teria sido suficientemente honrado pela minha simples presença. Acrescentou, no entanto, num murmúrio, que algumas palavras ditas em seu favor ao Juiz de Fora — que, ao que parecia, tinha chegado há pouco a Caminha — reflectiriam os altos créditos da minha natural benevolência. Prometi-lhe louvá-lo como o paradigma dos estalajadeiros e cavalguei para a casa do Juiz de Fora, um jovem de gentis e afáveis maneiras."

Embora o nome não conste, pela data dos acontecimentos estamos em crer que o Juiz de Fora — magistrado nomeado pela Coroa para exercer a presidência da Câmara — que naquela noite de meados de novembro de 1827 alojou na sua residência o Conde de Carnarvon se chamava Tomás Norton (1804-1860). Natural de Viana, era curiosamente filho de um inglês, André Norton, que aí se estabelecera e casara com uma senhora portuguesa, chegando a ser cônsul britânico na então vila. De firmes ideias liberais, como o seu pai, Tomás Norton formara-se bacharel em Coimbra em 1824, iniciando de seguida uma brilhante carreira na magistratura pública que culminaria, décadas depois, em Desembargador da Relação do Porto e teve uma das primeiras etapas em Caminha.

Voltemos ao texto pleno de romantismo do nobre viajante inglês, prestes a viver uma inesperada experiência gastronómica caminhense de "conto de fadas":

"Estava tão fatigado que me recolhi logo que foi possível retirar-me com um mínimo de conveniência; porém, pelas duas horas da manhã, fui acordado e deparei com um sumptuoso banquete posto na mesa ao lado da minha cama. O seu súbito aparecimento fez-me recordar aqueles episódios tão comuns nos contos de fadas, em que uma mesa, coberta com as melhores iguarias, se apresenta inesperadamente perante um fatigado viajante. Sacudindo o demónio da sonolência, fiz justiça à ceia; na realidade, estava meio esfomeado. Quando terminei o repasto, a mesa desapareceu, as luzes extinguiram-se como por magia e mergulhei novamente num sono profundo. Passei o dia seguinte com o meu amável anfitrião e um grupo numeroso de amigos seus e depois, continuando a minha jornada, cavalguei para Valença...".

Não muitos meses passados da noite mágica em que recebeu o Conde Carnarvon em Caminha, em julho de 1828, no rescaldo do fracasso da Belfastada, Tomás Norton ver-se-ia obrigado a fugir para o exílio da devassa miguelista, regressando quatro anos depois na expedição de D.Pedro
que desembarcou no Mindelo na senda da vitória liberal de 1834. Henry John George Herbert, por sua vez, regressou à verde Inglaterra e a Highclare Castle (Newbury, Southampton), a residência dos Carnarvon desde 1670, que ele próprio reformaria ao estilo vitoriano nos anos seguintes a ter herdado o título e o condado — a propósito, Highclare Castle, ainda hoje na posse da família, é na atualidade das mais conhecidas e visitadas mansões da aristocracia inglesa por ser o cenário real da aclamada série da ITV Downton Abbey.

FONTES E BIBLIOGRAFIA

Henry John George Herbert, Earl of Carnarvon (1848). Portugal and Galicia: with a review of the social and political state of the Basque Provinces; and a few remarks on recent events in Spain. London: John Murray (third edition).
Livro de Acórdãos da Câmara Municipal de Caminha (1828-1833). Arquivo Municipal de Caminha.
Francisco Cyrne de Castro (1980). Juízes de Fora de Caminha. Caminiana, II, 2, 65-101.
Maria Clara Paulino (2013). Uma torre delicada:Lisboa e arredores em notas de viajantes ca. 1750-1850. Porto: CITCEM/Edições Afrontamento.

pntbento@mail.telepac.pt, 11 de janeiro de 2014


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