Aproximava-se do fim o verão de 1937 quando o lusitanista e hispanista inglês Charles David Ley (1913-1996) veio passar uns dias a Moledo. Partiu do Porto, na manhã de 12 de setembro, um domingo, no comboio das 9.05 horas que passava na "última praia do norte de Portugal" pela hora do almoço.
Com a Espanha, em guerra civil, ali tão perto, escreveu mais tarde que "
o dia em que lá cheguei ficará como um dos dias inesquecíveis da minha existência". Quem era Ley? Licenciado em língua e literatura inglesa pela Universidade de Londres, seria professor no Instituto Britânico em Lisboa de 1939 a 1943, assumindo depois lugar idêntico no Instituto Britânico de Madrid até 1952, quando passou a leitor da Universidade de Salamanca, antes de regressar ao país natal em 1959, entretanto doutorado com uma tese sobre teatro peninsular. Ele próprio escritor, foi sobretudo um memorialista e divulgador das literaturas espanhola e portuguesa em Inglaterra — nomeadamente da poesia de Fernando Pessoa —, e um intermediário da moderna literatura inglesa na Península. Enquanto esteve entre nós, foi um colaborador assíduo das revistas
Presença e Seara Nova e estabeleceu laços de amizade com alguns dos principais escritores portugueses, como sucedeu com João Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro. Foi este último intelectual portuense que, naquele mês de setembro de 1937, apresentou a Ley, no café Majestic, Alberto de Serpa e José Régio, ao mesmo tempo que lhe dava uma "
carta de introdução para José de Almada Negreiros, que passava então o verão em Moledo do Minho".

Aconselhado a isso mesmo, Charles David Ley viajou em terceira classe no comboio da Linha do Minho — "coisa que, no norte, é muito agradável. (...) Em Viana, loquazes camponeses se apinharam no compartimento. Só com muita dificuldade podia espreitar pelas janelas. Mas os camponeses eram muito amáveis, muito boas pessoas — e de quando em quando faziam-me observações sorridentes, a mim que lhes era completamente desconhecido. A carruagem quase que se esvaziou outra vez em Âncora, onde certamente havia alguma festa. De repente, vi assomar ao longe uma imensa pirâmide natural, uma montanha. Era ameaçadora e ferozmente bela. Tive a certeza de que aquilo era Espanha, duplamente enigmática e terrível, nas agonias da guerra civil. Nessa altura o comboio parou. Tirei a minha bagagem com pressa. Um rapaz da pousada conduziu-me aonde vivia Almada Negreiros. Subia-se uma breve calçada de aldeia, e depois voltava-se à direita, por um caminho que tinha de um lado um alto muro e do outro um campo aberto. Batemos à porta. Um homem que, posto não estivesse na primeira juventude, conservava muito da agilidade e da clareza de gestos de um rapaz, abriu a porta. Vestia um jersey azul.
— O Sr. Almada Negreiros está? perguntei.
— Sou Almada Negreiros, disse ele, com uma perfeita franqueza e natural cortesia.
Conduziu-me a um terraço, à beira do caminho e debruçado sobre ele. Estávamos em pleno verão minhoto, com o dorso das colinas à nossa esquerda e o pálido mar à direita. Nunca me sentira tão completamente à vontade num primeiro encontro. Dois minutos depois, falávamos espanhol, e eu senti-me imensamente feliz. Cinco minutos mais tarde, Almada mostrava-me os seus novos quadros, os de sua mulher, e os dois livros que trouxera com ele, as obras de Gil Vicente e as peças de Shakespeare em espanhol.
"
Interrompa-se por momentos o relato de Charles David Ley para recordar que, por esta altura, José de Almada Negreiros (1893-1970), deixadas para trás a fase
inconformada do primeiro modernismo e o sequente auto-exílio em Madrid, era uma personalidade consagrada no meio artístico nacional com o seu indiscutível génio multifacetado a ser aproveitado, de comum acordo, pela propaganda do Estado Novo. Almada casara-se em 1934 com a pintora
Sarah Affonso (1899-1983)
— que crescera em Viana do Castelo, pelo que conhecia bem a região alto-minhota —, tendo-lhes nascido o primeiro filho no ano seguinte, agora com cerca de dois anos. São ambas deste ano de férias em Moledo, em 1937, duas notáveis obras de Sarah Affonso ("
Casamento na Aldeia" e "Família", onde se auto-retrata com Almada e o filho José) que, não custa a acreditar, foram os quadros que Ley teve oportunidade de admirar em primeira mão.
Retomando a nítida memória do lusitanista inglês sobre aquele "inesquecível" e cheio dia da sua chegada a Moledo, ficamos a saber que houve ainda tempo para uma deslocação vespertina a Vila Praia de Âncora, com Almada Negreiros e Sarah Affonso, para assistir a uma procissão religiosa que, pelo dia (domingo, 12 de setembro), só podia tratar-se da principal procissão da grande romaria a Nossa Senhora da Bonança:
 |
 |
"Uma hora mais tarde, Almada, sua mulher, e eu fomos a Âncora ver a bênção do mar. Aí encontrámos o escultor alemão Sempke — na verdade, Hein Semke (1899-1995), radicado em Portugal desde 1932 — e sua mulher. Assistimos à procissão da varanda de uma casa, na rua principal. Os seus figurantes eram crianças. Havia um sentido de brancura em tudo isto, quando passavam os santinhos nas suas belas vestimentas. As tábuas do chão enxameavam de pulgas, que nos subiam pelas pernas. Bebíamos vinho verde.
Voltámos a pé até Moledo nessa mesma tarde, com a montanha piramidal espanhola na nossa frente. Jantámos, os cinco, à hora do crepúsculo, no terraço da casa de Almada, e falámos de Arte. Essa noite dormi num pequeno quarto aldeão com porta para a calçadinha, febril de alegria e expectativa e não sem um certo medo por me sentir tão perto da fronteira espanhola. Às três da manhã despertaram-me de um ligeiro sono as pesadas botas de um camponês que subia a calçada. Os seus passos sugeriram-me ideias da fronteira perigosa. Acendi uma vela, pus a máquina de escrever nos joelhos, e escrevi uma peça num acto, dura, modernística, satírica, que procurava provar o ponto de vista que eu defendera na nossa conversa ao jantar.
Permaneci algumas semanas em Moledo, gozando da mais amável hospitalidade e da conversação inspiradora de Almada. Nunca nenhum homem me deu nitidamente a impressão de ser artista como Almada. Numa pequena frase explicava todo o carácter da gente dos campos que nos rodeava; numa subtil mímica de mãos pintava-me personalidades inteiras. Entre estas colinas minhotas, a sua filosofia desenrolava todas as suas mágicas sugestões e profundos abismos de sentimentos.
"
Para terminar, adiante-se que Charles David Ley regressaria a Moledo — que, percebemos pelas suas palavras, ficara a admirar tanto quanto a personalidade e a obra de Almada Negreiros, que aliás mais tarde traduziria para a língua inglesa — antes da sua transferência profissional para Espanha em 1943. Também dessa vez veio à procura de um escritor português que não resistira ao apelo da "última praia do norte de Portugal" mas o resto fica para outra crónica que esta já vai longa.
BIBLIOGRAFIA
Charles David Ley. Primeiras impressões da moderna literatura portuguesa. In Escritores e Paisagens de Portugal. Lisboa, 1942, Seara Nova (originalmente publicado na revista Presença, n.º 2, II, fevereiro de 1940, 130-132).
Um agradecimento especial é devido ao nosso amigo Rafael Capela que, beneficiando da sua posição privilegiada de alfarrabista e bibliófilo, nos chamou a atenção para o livrinho de memórias de Charles David Ley, desafiando-nos a escrever esta crónica.