No tempo de crise de crescimento, quanto acontece o desvincular de tutelas superiores, o assumir da uma identidade própria, um estatuto de adulto, e até o superar de certas formas de "iniciação" propostas pela sociedade ou pelos grupos ao adolescente, surge para o cristão a força do Espírito em forma de sacramento. Trata-se de um sacramento que nem sempre gozou dos favores tanto dos teólogos como dos cristãos em geral, a ponto de alguém, com certa graça, lhe chamar a "gata borralheira" dos sete sacramentos. E não sei se não terá sido apenas o facto de actualmente ser exigido para se poder ser padrinho de baptismo a levar os cristãos a preocuparem-se em receber este sacramento, mesmo sem lhe medir o alcance nem lhe assumir as consequências. Ao tentar valorizar a Confirmação como sacramento, falava-se, com base numa tradição que vem do séc. V, de que a Confirmação nos tornava "soldados de Cristo", mas como agora a linguagem militarizada está em crise tanto no que diz respeito ao prestígio como ao aspecto socio-económico, o sacramento parece ter perdido muito do seu sentido. E numa época em que as grandes estruturas sociais de formação como eram a família, a escola, a Igreja e mesmo a instituição militar perdem muito do seu prestígio no campo da formação e orientação dos adolescentes e jovens para a vida, urge revitalizar a formação cristã dos mesmos e particularmente a formação relativa ao sacramento da Confirmação.
1. Baptismo e Confirmação
Seguindo o que aconteceu no "baptismo de Jesus" (Mt 3, 13-16), quando, após o baptismo por João, sobre Jesus desceu o Espírito em forma de pomba, a iniciação cristã comportou sempre dois elementos inseparáveis: a imersão baptismal e a unção do Espírito Santo. Não se entendiam estes dois gestos de uma forma independente como hoje em dia, a ponto de a mesma terminologia poder significar as duas realidades indistintamente. O livro dos Actos dos Apóstolos apresenta também algumas referências que apontam para a unidade dos dois gestos entendendo-se a Confirmação como dom do Espírito Santo para a função de testemunhar Jesus Cristo ressuscitado (Act 2, 38-40). Há inclusivamente um caso em que a confirmação precede o próprio Baptismo, que é o do encontro de Pedro com o Centurião Cornélio (Act 10,44-48).
A fé cristã assenta em dois pólos fundamentais, distintos e radicalmente unidos: a Páscoa e o Pentecostes. Com este último está mais directamente ligado o sacramento da Confirmação que, com o tempo, se foi efectivamente separando do Baptismo na Igreja ocidental, já que no oriente sempre permaneceram unidos num mesmo gesto. Foi no século V que na Igreja ocidental se começaram a separar os dois sacramentos, tornando-se tal separação corrente no séc. VII; mas foi já no séc. XII que se instituiu a prática de reservar para os jovens "em idade de discernimento" o sacramento da Confirmação, mesmo à custa de uma separação que teologicamente não parecia muito correcta. Tal acontecimento terá uma relação directa quer com o facto de se reservar ao bispo a administração deste sacramento, mas cada vez mais impossibilitado de realizar todos os baptismos, a que se junto um especial significado dos gestos de ungir e impôr as mãos, de que trataremos adiante.
2. Confirmação ou Crisma?
A separação dos sacramentos do Baptismo e da Confirmação levou a uma evolução na própria linguagem e sentido do sacramento, a ponto de se entender o sacramento do Espírito como "confirmação" quando se falava preferentemente se "crisma". No texto evangélico Jesus diz a Pedro: "Eu roguei por ti para que a tua fé não desfaleça. Quando porém te converteres, confirma os teus irmãos" (Lc 22,32). Possivelmente desta afirmação de Jesus vem o contexto actual deste sacramento como "confirmação na fé" por parte do Bispo que administra o sacramento do crisma ou como complemento e "confirmação" do prórpio rito de "unção crismal" já realizado por ocasião do Baptismo. Historicamente esta ideia de "confirmação" surge pelo séc. V quando o rito da "consignatio" ou da unção em forma de cruz se separa do rito da imersão na água, ficando, por questões práticas, como dissemos, reservado ao bispo. Desaparecendo o catecumenado, começam-se a baptizar as crianças, deixando depois para o bispo a "confirmação" do mesmo baptismo, ainda que esta linguagem tenha trazido as suas dificuldades. Foi daí que surgiu toda a mentalidade e linguagem que apresenta a Confirmação como o sacramento da maturidade cristã, sacramento que nos prepara para as lutas da vida (Cfr. Decreto de Graciano) ou que nos faz soldados de Cristo, mentalidade e linguagem que perduraram até aos nossos dias.
Mais significativo é o termo "crisma". A língua portuguesa, juntamente com a italiana, são as únicas que conservam este termo para designar o sacramento, com expressões como "ir ao crisma" ou "receber o crisma". Vindo do grego "chrisma", palavra que significa "unção" ou mesmo o material a ela destinado (óleo, perfume, essência), este termo insere-nos num longo processo de significação que vem já do Antigo Testamento. A unção assumia então vários significados: alegria e hospitalidade, cura, embelezamento, preparação para a luta e consagração, sentido que nos interessa aqui particularmente. Os reis eram ungidos (1 Sam 16,3) bem como os sacerdotes, sendo-lhes comunicado pela unção o Espírito de Deus, e a própria esperança de Israel acalentada pelos profetas se desenvolverá à volta da vinda de um "ungido" ou seja de um "messias" ou um "cristo", verdadeiro sucessor do rei David; o profeta Joel fala mesmo de uma unção mais generalizada: "infundirei o meu Espírito sobre toda a carne e os vosso filhos e filhas profetizarão" (Joel, 2, 28). A abundância de passagens veterotestamentárias em que se fala de "unção", "ungir" e "ungido" permitem uma aplicação particular a Jesus Cristo de onde se destaca o Salmo 2: "Ergueram-se os reis da terra e os príncipes conspiraram conjuntamente contra o Senhor e contra o seu "ungido", salmo que vai encontrar um relevo especial no contexto da paixão do Senhor. É como "cristo" que os discípulos conhecem Jesus e a frequência com que o termo aparece no Novo Testamento é significativa, podendo-se sentir o desenrolar de um processo revelatório que se inicia no Baptismo, prossegue no discurso da sinagoga de Nazaré (Lc 4, 16-21) e desemboca na confissão de Pedro em Cesareia de Filipe: "Tu és o Cristo"(Mc 8,29).
Foi por isso que o gesto da comunicação do Espírito Santo que consistia, nos primeiros tempos da Igreja, na "imposição das mãos" foi sendo progressivamente substituído pela unção, a ponto de aquele quase desaparecer por completo. Efectivamente a comunicação do Espírito Santo era tradicionalmente feita pela imposição das mãos e como tal permanece por exemplo no Sacramento da Ordem. Este gesto, de que encontramos já referências no Antigo Testamento (Num 27, 18) e assumido claramente na era apostólica (Act 8,17) foi sendo posto de parte no oriente, substituído pela unção; continuando a ser usado exclusivamente na igreja ocidental até ao século XII, mesmo aqui vai desaparecer para dar lugar à "unção" com a "consignatio" (sinal da cruz na fronte) feita individualmente enquanto que a imposição das mãos era feita em geral. É esta que permanece actualmente no ritual preconizado pela Const. "Divinae consortium naturae" de Paulo VI.
3. Crisma e carismas: dom do Espírito para o serviço
"Depois de terem recebido em plenitude o Espírito Santo, os Apóstolos transmitiram-no por sua vez, mediante a imposição das mãos àqueles que acreditaram. Deste modo, a recepção do Espírito Santo pelo ministério do Bispo manifesta com maior evidência o vínculo que liga os confirmados à Igreja e o mandato de dar testemunho de Cristo entre os homens" ("Ritual da Confirmação"). "Pela confirmação os fieis vinculam-se mais estreitamente à igreja enriquecem-se com uma fortaleza especial do Espírito Santo, e desta forma se obrigam, com um compromisso, maior a difundir e defender a fé com palavras e obras como verdadeiros testemunhas de Cristo" É com estas palavras que a Const. "Lumen Gentium" n. 11 apresenta resumidos os efeitos do Sacramento da Confirmação. Este sacramento está estreitamente ligado ao apostolado laical cujo sentido se poderá aprofundar através da respectiva documentação conciliar (LG n.33 e 36 e GS n. 41), e particularmente a recente Exortação Pastoral "Christifideles laici". Da mesma forma que depois dos acontecimentos do Pentecostes o medo dos Apóstolos se transformou na coragem e quase euforia de anunciar o Evangelho, desse modo devem reagir todos aqueles que recebem o Espírito no seu próprio Pentecostes.
Fideleidade e coerência com a sua fé assumida desde o Baptismo, coragem para testemunhar Jesus Cristo entre os homens e o apostolado missionário serão os efeitos do sacramento da Confirmação no cristão. A partir dele o crente enfrenta os problemas de todos os outros, empenha-se no trabalho de transformação do mundo como todos os demais, mas fá-lo com o Espírito de Cristo; para tal é preciso que quem se apresenta para receber este sacramento tome consciência dessa realidade. Este facto apresenta algumas consequências de ordem pastoral que importará desenvolver, quanto à preparação imediata para o Sacramento, quanto ao perfil dos próprios candidatos, à sua idade, maturidade cristã e mesmo ao desenvolvimento no conhecimento e vivência da fé cristã. Uma catequese pré-crismal deve ajudar os jovens a compreender o sentido da acção do Espírito Santo na História da Salvação e na sua própria história pessoal, ao mesmo tempo que os faz compreender-se inseridos numa sociedade e numa igreja, e participantes de uma fé, de uma cultura e de um património de que são herdeiros e transmissores para o futuro. Ao mesmo tempo devem ser levados a crescer como pessoas solidárias, abertas à colaboração com os outros, especialmente com os mais pobres e mais fracos. Na preparação para o sacramento e como efeito dele, devem os adolescentes e jovens descobrir afinal os próprios "carismas" ou seja, orientar as suas capacidades próprias, agora animadas pela força e graça do Espírito Santo, no sentido do bem de todos no seio da comunidade cristã e da sociedade envolvente, assumindo as suas responsabilidades não em ideais genéricos ou projectos utópicos, mas valorizando o seu espaço concreto de vida.
4. Matéria, forma e ministro da Confirmação
A reforma do Concílio Vaticano II abriu caminho a um retorno à prática antiga ao conceder que o presbítero, sempre que administra o Baptismo a um adulto ou a uma criança em idade de catequese possa conferir também o Sacramento da Confirmação.
4.1 - Matéria:
No que diz respeito à matéria permaneceu a "unção", como vimos, seguindo a palavra de S. João "Vós tendes recebido a unção do Santo e possuís o conhecimento" (1Jo 2,20) ou então Paulo em 2 Cor 1,21: "Aquele que nos fortalece convosco em Cristo e que nos dá a unção é Deus, que nos marcou com o seu selo". Este conceito de "selo" aponta para outra realidade, a do "carácter" sacramental. O selo representa aqui uma espécie de carimbo que marca a posse sobre algo, como se marcavam os animais ou os escravos, com o ferro do dono ou marcamos um livro com a nossa assinatura. Por meio da confirmação nos tornamos "posse" de Deus. É evidente que à matéria "gesto" está ligada a matéria "óleo", uma mistura de azeite de oliveira e de um bálsamo que assumem também na tradição cristã a unidade pessoal das duas naturezas em Cristo e relembra, o bom odor da fraternidade cristã alicerçada no Espírito Santo e já cantado pelo Salmo 133, óleo esse consagrado solenemente pelo Bispo na Quinta feira Santa na missa crismal. Enquanto que os orientais, mais dados aos simbolismos, faziam a unção na fronte, nos olhos, nariz, boca e ouvidos, no ocidente limita-se a unção à fronte, normalmente em forma de cruz, gesto que é já atestado por Tertuliano no séc. III.
Outro gesto que acompanhava a confirmação era o da "pequena bofetada" que o ministro, ou o padrinho, davam no confirmando, como sinal de que não se devia esquecer das consequências da Confirmação, da sua maturidade cristã e chamamento à militância por Cristo, ou à necessidade de se configurar à sua Paixão. A origem deste gesto, cujo sentido se foi perdendo com a mudança dos tempos, era a do "abraço" da paz, que efectivamente se conserva no ritual vigente com as palavras "a paz esteja contigo".
4.2 - A forma:
No novo ritual a fórmula de administração do sacrmento é recuperada da antiga liturgia bizantina porque "melhor exprime o dom que o sacramento confere que é o dom do Espírito Santo". Não se trata de receber um dom que nos vem do Espírito Santo, mas de receber o próprio Espírito Santo com todos os seus dons. Se nos primeiros tempos da Igreja, a forma consistia numa oração, invocando sobre o crismando os dons do Espírito Santo, a forma actual pretende exprimir a efusão do Espírito Santo, renovando no crismando o próprio acontecimento do Pentecostes: "Recebe, por este sinal, o dom do Espírito Santo".
4.3 Ministro:
O ministro originário e ordinário da confirmação é o bispo pois como vemos pelos Actos dos Apóstolos são apenas os Apóstolos que confirmam (Act 8,14; 19,6); a mesma doutrina é seguida pelos Padres da Igreja e assumida pelo Concílio Vaticano II já na Const. "Lumen Gentium, n. 26. Extraordinariamente, qualquer sacerdote, por indulto especial ou, segundo o novo ritual, quando o elevado número de confirmandos aconselhe a que o bispo receba ajuda, pode efectivamente confirmar. Para além da importância e do significado do ministro, importa salvaguardar a importância da acção do Espírito na Igreja e não esquecer o lugar do bispo como garante da unidade da Igreja local e o carácter missionário da Igreja, expresso em todos os fieis a partir da recepção dos sacramentos da iniciação cristã. A todo o cristão, da mesma forma que a Jesus Cristo, se aplica a palavra do profeta "O Espírito do Senhor está sobre mim, e me enviou a anunciar a boa nova aos humildes" (Is 61,1).