Jornal Digital Regional
Nº 597: 21/27 Jul 12
(Semanal - Sábados)






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Novas sobre o naufrágio do Antinous (1922)

Naufrágio análogo Antinous 1910 Cornualha william_cory

Passaram noventa anos em 29 de Janeiro último desde o naufrágio do vapor britânico Antinous na praia de Moledo, um pouco a sul da Ínsua, cujos destroços ainda hoje permanecem no local sendo por vezes visível na baixa-mar o que parece ser o cimo da sua longa chaminé. Estávamos em 1922 e o navio da companhia Egypt & Levant (pertencente à Thomas Bowen Rees Co.), carregado de milho, estava prestes a chegar ao fim de uma longa viagem iniciada no porto argentino de Sant Nicolás (Buenos Aires) e que deveria terminar em Vigo. O Antinous era um vapor de carga, com 3682 toneladas e cerca de 105 m de comprimento por 15 m de largura, construído no histórico estaleiro R. Thompson & Sons, em Sunderland, e tinha sido lançado à água em 26 de Julho de 1907 — a fotografia que apresentamos, contudo, é do William Cory, navio análogo em tonelagem e dimensões, naufragado anos antes na Cornualha (ver notas). Apesar de relativamente novo, o Antinous tinha já passado por uma circunstância aflitiva durante a Grande Guerra: em 30 de Maio de 1918, quando transportava carvão no Mediterrâneo, entre Malta e Creta, fora torpedeado pelo submarino alemão U 63. Sem baixas, apesar dos danos sofridos, teve então a sorte que lhe faltaria em Moledo.

Local ANTINOUS In Google Maps Vestígios subaquáticos Antinous AQUA CLUBE 2008

João Maria Alves Júnior

Num dia de Inverno excecionalmente rigoroso, de chuva intensa e com o mar muito agitado, o sinal de socorro foi dado na vila de Caminha pelo cair da noite. Acompanhemos, a partir de agora, o relato do correspondente do periódico caminhense/vianense Correio do Minho, João Maria Alves Júnior (c.1893-1965), então um jovem a dar os primeiros passos no ofício, ele próprio participante na resposta ao sinistro:

Cap-Ten. António da Silva Pais, 1876-1949

"Pelas 18 h do dia 29...foram chamados socorros para um vapor que se encontrava encalhado próximo à entrada da barra e que, segundo um telegrama para aqui enviado, necessitava de urgente auxílio, tal era a sua má situação e o estado mau em que se encontrava o mar. Como de costume, este povo sempre humanitário e nobre, acudiu logo às primeiras chamadas do sinistro, dirigindo-se ao posto de socorro a náufragos e nós, que gostamos sempre de acudir com o nosso fraco préstimo a todos os infelizes e desprotegidos, lá fomos, apesar da chuva impenitente que caía, oferecer os nossos serviços e, ao mesmo tempo, saber pormenorizadamente do que se passava (...).
Imediatamente, pelo exmº sr. capitão do porto [capitão-tenente António da Silva Pais], foram dadas as ordens necessárias para que saísse o barco salva-vidas e, se bem que o correspondente do "Jornal de Notícias", talvez mal informado, diga que só tarde e com má vontade ele saiu, nós podemos garantir que os trabalhos e esforços para o seu lançamento não se fizeram esperar, encontrando-se a bordo mais até que a lotação dos tripulantes necessários e tão bem adestrados e corajosos que, com um tempo de tal natureza e apesar de quase noite, se não intimidaram de chegar onde o sr. correspondente do "Notícias" nunca fará intenções de ir. Demorou um pouco a saída? Não se realizaram os trabalhos com a rapidez que seria para desejar? A culpa não é de forma alguma dos tripulantes... mas única e exclusivamente do material de socorros a náufragos. (...) Havendo por aí tantos postos de marinha, alguns até de somenos importância, qual a razão porque não se cria um no Cabedelo...? (...) (Correio do Minho, 14-2-1922).

É preciso explicar que a polémica sobre o uso do salva-vidas — evidente nos remoques que o correspondente caminhense lança sobre o artigo do "Jornal de Notícias" do Porto — tinha um antecedente próximo num outro naufrágio sucedido sensivelmente no mesmo local poucas semanas antes, em 9 de Dezembro de 1921. Nessa ocasião, uma traineira espanhola tinha-se despedaçado contra os rochedos da Ínsua, perecendo quase metade da tripulação por falta de socorro pronto — o salva-vidas de Caminha não chegara a sair, originando fortes críticas: "Para que serve o salva-vidas?" (Correio do Minho, 14-12-1921). Felizmente que com o Antinous tal tragédia não se repetiu, verdade se diga que graças aos bons meios de salvação do próprio navio que permitiram colocar em terra os seus 28 tripulantes em dois tempos. A maioria no salva-vidas principal e os restantes, incluindo o capitão e o imediato Alfred Ernest Horton — que relatou o dramático momento numa entrevista à BBC em 1971 — num barco pequeno içado à ponte (dinghy). Daí que o socorro português tenha sido feito essencialmente na praia, no acolhimento aos náufragos, como continua a contar João Maria Alves Júnior:

João Baptista Rodrigues da Silva, 1917, Moledo

"Já depois de feita esta notícia, soubemos que todo o pessoal do vapor naufragado se tinha salvo em escaleres de bordo, bem como quase todas as roupas que traziam e alguns instrumentos náuticos, considerando-se o navio perdido visto que já abriu pelo meio. Os náufragos foram generosamente recebidos pelo sr. João Martins Rodrigues e João Baptista Rodrigues da Silva, que se não têm poupado a esforços para lhes patentearem todo o bem estar possível, e a carga, parte da qual tem vindo à praia, tem sido recolhida e guardada pela Guarda Fiscal e Alfândega, como é de lei... . (...) Cumpre-nos também frisar os bom serviços prestados pelos marinheiros da lancha "Rio Minho" e corporação de Bombeiros Voluntários que, com uma boa vontade inexcedível, compareceu imediatamente no local do sinistro com o competente carro de material, macas, ambulâncias, etc." (Correio do Minho, 14-2-1922).

De algum modo compensando a falta de meios eficazes de socorro no mar, foi sem dúvida inexcedível o apoio aos infelizes náufragos prestado em terra pelas populações e autoridades do concelho. Solidariedade que mereceria um agradecimento público do capitão do Antinous publicado na imprensa regional alguns dias passados do sucedido: "O capitão e tripulação do vapor britânico Antinous, recentemente naufragado, agradecem reconhecidos ao povo de Caminha, Moledo e distrito a forma carinhosa com que os acolheram e a generosidade e consideração que a todos dispensaram" (Correio do Minho, 14-2-1922). Reconhecimento depois reiterado oficialmente, como assinalaria o administrador do concelho à época, o ancorense João José de Brito, em ofício dirigido ao regedor de Moledo: "...cumpre-me enviar-lhe duas cópias do ofício que recebi do exmº. governador civil deste distrito sobre o amável acolhimento prestado pelos habitantes dessa freguesia aos náufragos do vapor britânico "Antinous", que deu à costa perto da barra do rio Minho em 29 de Janeiro último..." (AdC, 11-5-1922).

Quanto à carga transportada pelo Antinous, um precioso milho argentino em tempo de grave crise de subsistências e de fome para muitos, reza a memória local que foi recebido como um verdadeiro maná pelos mais pobres que acorreram às praias de Moledo a Afife na tentativa de aproveitar o que fosse possível. Como se percebe pelo relato jornalístico, a vigilância apertada da Guarda Fiscal e da Alfândega não terá tornado fácil o acesso aos sacos de cereal, um mal que poderá afinal ter vindo por bem, pelo menos a acreditar nas suspeitas do subdelegado de saúde de Caminha, comunicadas dois meses depois pelo administrador do concelho ao governador civil: "...fui procurado pelo exmº subdelegado de saúde deste concelho que me participou julgar conveniente a inspecção do aludido cereal por peritos agrónomos e veterinários, porque é só para gado que o aludido cereal se destina ..." (AdC, 30-3-1922).

NOTAS: Como ficou assinalado no texto e se percebe pelo entorno, a fotografia destacada não é do Antinous mas sim do William Cory, outro vapor de carga análogo (construído em 1909 num outro estaleiro de Sunderland, o Austin S.P. & Son, Ltd.) que naufragou em circunstâncias equiparáveis na costa da Cornualha em 5 de Setembro de 1910 quando transportava madeira. Importa ainda registar que a imagem dos destroços subaquáticos do Antinous foi retirada, com a devida vénia, de uma filmagem realizada pelo Aqua Clube em Julho de 2008 (http://www.youtube.com/watch?v=EI25yfsd14Q). Finalmente, resta chamar a atenção para um sugestivo e realista relato ficcionado do naufrágio do Antinous, da autoria do ancorense Brito Ribeiro: http://rioancora.blogspot.pt/2011/02/perolas-amargas-1-parte.html (depois, idem 2-parte).

pntbento@mail.telepac.pt, 21 de Julho de 2012