Jornal Digital Regional
Nº 582: 7/13 Abr 12
(Semanal - Sábados)






Email Assinaturas Ficha Técnica Publicidade 1ª Pág.
Cultura Desporto Freguesias Óbitos Política Pescas Roteiro

AS MARGENS DO RIO ÂNCORA
ESTÃO A SER DESTRUIDAS

O rio Âncora, embora seja uma linha de água com uma extensão reduzida, é um dos poucos rios principais, que se apresenta ainda como um rio livre, cujas características lhe garantem um estado muito próximo do "estado selvagem".

Devido a não estar a ser respeitada a legislação Nacional e comunitária, essas características estão em via de desaparecerem correndo o risco de se tornar um rio poluído.

Embora existam vários diplomas a condicionar a ocupação das suas margens, nada é respeitado, estando a ser destruídos diversos locais aprazíveis das suas margens, o que por arrasto poderá poluir uma das mais belas praias do norte.

Tendo em atenção a sua riqueza ambiental, em 1991, chegou a ser apresentado um projecto de paisagem protegida, o que originou uma maior visibilidade dessa área. A partir daí começou um autêntico assalto, da "saloiada inculta", mas com poder económico, que tem vindo paulatinamente a ocupar as margens deste rio.

Generalizou-se a mudança de destino dos Engenhos existentes nas suas margens, e logo a seguir, para reduzir os caudais de água que eram conduzidos nas levadas, começaram a ser destruídos alguns dos açudes, e levadas.

Entretanto os entendidos na destruição do ambiente começaram a desmatar as suas margens.

A situação começou-se a agravar, tornando-se inconciliável, com a manutenção dos habitats de várias espécies endémicas, da fauna de anfíbios como é o caso da salamandra lusitâna, do lagarto-d'água, da toupeira-d'água, e etc. mas também de espécies de flora endémica, e dum importante refúgio de várias espécies da vida selvagem, como por exemplo a lontra.

Embora as suas margens estejam integradas na Reserva Ecológica Nacional (REN), e parte na Rede Natura 2000 (Sítio PTCON0039, Serra d' Arga e Sítio PTCON0017, Litoral Norte) os responsáveis, desconhecem, segundo dizem, os atentados que se fazem, principalmente sendo pessoas desafogadas economicamente.

As Juntas de freguesia, que podiam e deviam estar preocupadas com obras que se fazem no seu espaço físico, não se preocupam em saber se estão ou não licenciadas.

Em face disso, e da falta de colaboração, desconhecimento e planeamento, que interessa a muitas pessoas, os disparates realizam-se sem que ninguém trave os seus promotores.

Em Setembro de 2011, numa visita realizada a um desses locais paradisíacos, encontramos numa extensão considerável, uma margem totalmente destruída, e a desmatação de uma área integrada na rede Natura2000.

Deu-se conhecimento ao Ministério de Ambiente e alertou-se a opinião pública, através deste órgão de comunicação, no entanto a situação, continuou agravar-se.

Como existiam uma série de placas nas margens do Âncora, a referir tratar-se de uma zona concessionada, aguardou-se que alguém tomasse posição sobre o assunto, visto estarem a ser destruídos vários habitats que colocavam em risco objectivos de quem requereu essa concessão. Como em Portugal os objectivos prometem-se mas não se cumprem, e após pesquisa na "Internet", conclui-se que o concessionário era o Club Ancorense de Pesca e Caça (CAPC), que em 2005, requereu a concessão de pesca no rio Âncora.

Como iam usufruir desse espaço, segundo diziam implementá-lo turisticamente, pensou-se que seria um grupo, que iria preocupar-se com a sua protecção ambiental e ter uma atitude de preservação dos habitats existentes. Mas nada disso sucedeu. Esqueceram-se de assegurar a manutenção de um corredor ripicola limpo, mas sem destruição do coberto vegetal, e deixaram-se adormecer pelo desconhecimento, não tomando qualquer posição quanto aos disparates ambientais que têm sido feitos pelos novos moradores, das margens do rio ancora.

Embora tenha havido a destruição de uma margem do rio Ancora e a desmatação duma área considerável, no lugar de Groves na freguesia de Freixieiro de Soutelo, situação contestada por particulares e pela Associação ambientalista Corema. Aqui entra o incrível da dissimulação, fazendo crer que os culpados do condicionamento de obras nas margens do Ancora, tem a ver com os ambientalistas, quando na realidade são esses grupos, que devido a serem constituídos por pessoas altruístas, ainda fazem crer que este país, pareça democrático.

É de capital importância que, para haver locais de pesca se devem manter as características ecológicas, de forma a manter a sobrevivência de diversas espécies endémicas, que existem nas suas margens, bem como das características da ictiofauna deste rio.

Vejamos o caso da lontra e da toupeira-d'água, que mantêm aí uma população significativa. Estes mamíferos superiormente adaptados à vida aquática são particularmente exigentes não só quanto à qualidade da água, mas também quanto às condições naturais de ocultação privacidade. No que se refere aos dois últimos aspectos, a diminuição do coberto vegetal e a massificação da presença humana nas suas margens constituem ameaças à sua manutenção.

É devido à falta de controle e do planeamento do "deixa andar", que a situação se tem vindo a degradar, dando origem às mais disparatadas atitudes de destruição das margens, sem que ninguém se oponha a não ser os já referidos.

Conclui-se que as margens do rio, são sujeitas a uma série de arbitrariedades (destruição das margens, dos açudes levadas), bem como a existência de cães para condicionar o acesso dos pescadores pelas margens, as quais são públicas, tendo já levado alguns atirar-se ao rio para não serem mordidos. Tudo isto são factores pouco dignos para a implementação de um turismo digno ou de qualidade.

Agora, aguardam-se para breve, decisões das diversas entidades responsáveis pela gestão da área.

Joaquim Vasconcelos