![]() Jornal Digital Regional Nº 551: 3/9 Set 11
(Semanal - Sábados) |
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Areias param ferry do rio Minho Alcaide de A Guarda aguarda por decisão de Madrid e Júlia Paula quer suspender carreira Trabalhadores receosos com futuro
Continua adiado o processo de desassoreamento do canal de navegação do ferry-boat Stª Rita de Cássia, após o Estado espanhol ter chamado a si essa responsabilidade a partir de 2009, data da última operação de limpeza. Agora, a Câmara de Caminha ameaça interromper este serviço a partir de 15 deste mês, face à sua irregularidade e à indefinição por parte de Espanha.
Na manhã do passado dia 15 de Agosto, um cartaz na bilheteira do serviço de transporte fluvial por ferry-boat entre A Guarda e Caminha, indicava que a carreira apenas seria reiniciada pelas 15 horas.
Areias suspendem carreira Esteve interrompida desde as nove horas, altura em que o mestre Manuel Porto imobilizou o transbordador no cais português após a realização de duas únicas viagens, devido ao assoreamento do canal de navegação. Esta situação tem sido um constante durante este verão - período de grande procura por parte de utentes do ferry -, agravada com o período de marés vivas em que os bancos de areia tornam ainda mais difícil a viagem. "Em 11 de Novembro de 2010 fiquei em seco à saída do cais", adiantou nessa ocasião Manuel Porto, lamentando que o canal não seja dragado há mais de dois anos, levando a que as paragens forçadas na maré baixa se dilatem no tempo "passando de uma hora para mais de quatro", como sucedeu nessa semana, e tivessem sido anuladas 10 carreiras, equivalendo a menos 200 carros e 500 passageiros por dia. Cada viagem de ida e volta custa 5€ (viatura e condutor), pagando cada passageiro mais 60 cêntimos. Duzentos mil passageiros cruzam o rio em ambos os sentidos em cada ano.
Talude com metro e meio
Adiantou ainda este marinheiro que a "maioria das avarias no barco verificam-se quando as colunas propulsoras batem nos bancos de areia", cujo talude já atinge metro e meio de altura nas imediações do cais do lado português. Os turistas manifestam-se "intrigados e insatisfeitos" com a irregularidade deste percurso com duração de oito minutos e que deveria circular de meia em meia hora para cada margem. Mas a sua cadência torna-se ininterrupta nos períodos de maior procura, como é o caso das épocas de veraneio.
Turistas preferem ferry Em alternativa, Manuel Porto e os funcionários do barco aconselham-nos a atravessar o rio pela ponte de Vila Nova de Cerveira, mas "recusam, porque querem andar de barco", frisa este mestre. Como já referimos, desde 2009 que Espanha chamou a si a responsabilidade da dragagem dos inertes que se acumulam no canal artificial que atravessa transversalmente o leito do rio Minho pelo qual o ferry navega. Portugal dragou desde o início do serviço em 1995. Retirava a areia e comercializava-a, custeando dessa forma cada operação. Espanha não pode vender os inertes extraídos das águas do rio porque a sua própria legislação o impede.
1,3 milhões de euros por limpeza
Cada limpeza envolve cerca de 80.000 m3 cúbicos anuais de areias e lodos, tendo importado em 1,3 milhões de euros a última intervenção realizada em 2009, esclareceu Rodriguez Freitas, presidente do município de A Guarda, havendo ainda areia depositada na margem galega, porque a sua fraca qualidade "impede que seja utilizada na regeneração de praias", como seria o objectivo das autoridades do país vizinho. Apesar das diligências do autarca galego, as diferentes entidades autónomas galegas e estaduais (Madrid) não conseguiram gizar um plano de desassoreamento eficaz, a que não é alheia a crise financeira actual. A agravar a situação, prossegue o regedor guardés, qualquer operação de extracção de inertes do leito do rio superior a 22.000 m3 "obriga a um estudo de impacte ambiental", segundo revelou um estudo realizado pela Direcção-Geral de Costas (dependente de Madrid), além de apontar para a utilização de um canal alternativo em forma de "L", em linha com as pedras das Oliveiras, recuperando o "antigo trajecto das duas antigas lanchas que faziam antigamente este serviço entre as duas margens", o que poderia prolongar a travessia por mais três ou quatro minutos. Esta solução não parece ser suficiente, refere Manuel Porto, garantindo que a criar um trajecto alternativo, o canal deveria "chegar até quase à foz", além de ser sempre imprescindível dragar a bacia do cais português.
Utentes diminuem em 1/3
O alcaide galego admite que o ferry poderá perder 1/3 dos seus utilizadores diários devido à sua imobilização, recordando ainda que a colocação e transporte das areias da margem do rio após as extracções, é um assunto também "pendente". Freitas pretende reunir proximamente com as forças políticas e colectivos sociais de A Guarda, para que todas as instâncias (espanholas e portuguesas) sejam "envolvidas" na resolução deste problema - "ao qual as duas autarquias não podem por si só dar resposta", realça -, nomeadamente a Comissão de Turismo das Rias Baixas dependente da Deputação de Pontevedra.
Empresários galegos "preocupados"
Todos reconhecem a importância que a carreira fluvial representa para "o turismo e promoção" das duas povoações, como nos confidenciou José Manuel Aldea, director da Associação de Empresários de A Guarda, evidenciando "preocupação" com a "falta de previsibilidade " do que está agora a suceder. "Temos os meios (cais e barco) mas falta-nos capacidade para pôr a funcionar este transporte", acrescentou o empresário que lamenta a ausência de resposta do município galego às suas solicitações manifestadas já no início de 2010.
Extracção de 22.000 m3 é recurso imediato Refira-se ainda que Rodriguez Freitas receia que a não ser aprovada uma extracção de inertes inferior a 22.000 m3, poderá ser atrasada a limpeza do leito do canal, uma vez que o processo de lançamento, apreciação e eventual aprovação do estudo de impacte ambiental se tornará deveras moroso. Segundo nos adiantou o autarca galego, o assunto deverá constar dos trabalhos da próxima reunião da Comissão Internacional de Limites de Portugal e Espanha, embora ainda sem data marcada.
Câmara quer fechar ferry Entretanto, no dia 29 de Agosto, a Câmara de Caminha decidiu tornar pública a sua opinião sobre o impasse no desassoreamento do canal. Devido às marés vivas, no dia 30, o barco permaneceu imobilizado entre as 10 e as 12H45 horas e, no dia seguinte, entre as 10 e as 13 horas. Na eventualidade de a carreira ser suspensa a partir do próximo dia 15, outra associação de A Guarda, a Ábaco (Associação do Baixo Minho de Comerciantes e Empresários) solicitou ao presidente da Câmara de A Guarda a convocatória urgente de todos os partidos políticos e associações empresariais dessa vila.
Ministério do Ambiente de Espanha mexe-se Entretanto, o Ministério do Ambiente de Espanha comprometeu-se a encontrar uma solução provisória para garantir a navegabilidade do serviço, embora sem anunciar quais as medidas a tomar e em que altura serão consumadas. Responsáveis por esse ministério encontrar-se-ão proximamente com o alcaide de A Guarda a fim de analizar o caso.
Fernando Gonçalves, natural da Figueira da Foz, residente em Lisboa, de férias em Vila Nova de Cerveira, embora contrariado por não poder apanhar o barco em Caminha, como o faz várias vezes, optou pela ponte da Amizade, porque "não tenho horários a cumprir".
Maria José e sua família, de Valência, deram com o cartaz na bilheteira do cais galego, indicando o horário de reinício da carreira, optando por almoçar aí, enquanto que aguardavam que o barco pudesse voltar a navegar. "Estamos de férias, no pasa nada", adiantou, nesta sua segunda tentativa de cruzar o rio Minho em direcção a Caminha. Igualmente na hora do almoço, dois motoqueiros espanhóis que pretendiam apanhar o ferry a fim de irem até ao restaurante Amândio, em Caminha, acabaram por desistir e comeram em Espanha.
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