A Matança do Porco constituiu desde sempre nas comunidades rurais, uma forma de convívio partilhada não só pelas famílias, como pelos amigos e vizinhos que a elas se associam, colaborando nesse ritual ancestral de sobrevivência alimentar que dava para o sustento de grande parte do ano.
Casa após casa, as matanças do porco sucedem-se, com os mesmos protagonistas a rodarem entre elas, num espírito de colaboração comunitário, porque imobilizar um animal com 10 ou mais arrobas não é tarefa fácil, a par das consequentes etapas de preparação do reco, até que as carnes estejam devidamente acondicionadas para serem conservadas, cujo último capítulo é o sempre atractivo e deslumbrante fumeiro dos chouriços.
Os meses de frio são os mais aconselhados para manter as carnes expostas para dependurar os porcos até que elas arrefeçam e o sangue caia, o que sucede mais rapidamente, sem o inconveniente do aparecimento da varejeira, mesmo que o odor dos ramos de loureiro contribuam para o seu afastamento, os quais também dão paladar às carnes.
Em Azevedo, no lugar do Regueiro, em casa do senhor Carlos Alves, dois porcos de 8 e 10 arrobas, aguardavam a sua hora.
Comprados em Março, foram sendo alimentados com milho, maçãs, levedura, bolotas e outros ingredientes que lhes "apuraram" as carnes, de modo a manterem aquele paladar característico tão apreciado.
Quando a família era mais numerosa, matavam sempre três porcos, possuindo ainda nove vacas e ovelhas, acontecendo que num dos anos, "juntámos 27 pessoas", disse-nos a D. Arminda, a dona da casa, a qual recorda como uma das vezes um dos porcos "deu uma marrada na cancela do cortelho e fugiu para o meio da horta", sendo obrigados a correr atrás dele até o dominarem.
Noutra ocasião, "parecia que o porco já estava morto em cima da carroça e levantou-se".
José Maria Lagoa, o matador de serviço, já tinha participado em sete matanças e um ano houve em que chegou a matar 17 porcos.
Desde bem cedo que os participantes na matança se concentraram nesta casa tipicamente rural, localizada junto ao ribeiro que nasce no monte de uma pequena freguesia com cerca de 200 habitantes essencialmente dedicada à agricultura de sobrevivência.
No meio desta festa em que se torna cada matança, os antigos saberes das mulheres do campo ficou bem expresso, quando uma das netas de D. Arminda se apresentou com dores de barriga e a avó foi ao campo apanhar hortelã das bichas, "como a minha mãe dizia que fazia bem", a fim de dar à miúda.
O C@2000 acompanhou todos os passos desta matança, como forma de divulgar e preservar uma tradição em riscos de desaparecer, sendo de referir que noutra aldeia com características semelhantes à de Azevedo -pese embora a projecção mediática que possui-, até ao dia em que realizámos esta reportagem, que houvesse conhecimento, apenas tinha sido feita uma matança.
Através de uma sequência fotográfica devidamente legendada, revelamos uma das tradições mais arreigadas na população portuguesa, acreditando que as personagens cinzentas da União Europeia não terão a ousadia de tentar proibi-la, como já sucede com os aguardenteiros minhotos, funcionando já agora quase em rigorosa clandestinidade, a fim de preservar um produto tão apreciado e genuíno.
Seja esta reportagem uma forma de afrontar esses ventos de leste travestidos de fato e gravata.